Descartar e terceirizar?

Publicado em: - 4 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Marcelo Pereira de Carvalho

"Sempre que tenho que descartar alguma coisa, fico naquela dúvida "E se eu precisar disto no futuro ?", que critérios devo usar para saber se devo descartar ou não ? Vamos pensar na seguinte situação: Eu tenho um trator com mais de 15 anos que utilizo para aração e transporte de material/produção; como minha propriedade é pequena e a olericultura é uma atividade intensiva em mão de obra, este trator acaba ficando a maior parte do tempo ocioso, por isto estou sempre pensando em vendê-lo e eventualmente terceirizar as atividades que ele executa, mas sempre fico com medo de precisar do serviço e não encontrar um fornecedor confiável ou com preço razoável, ou ainda, mesmo que ache este fornecedor, em que escala vale a pena manter o trator ou terceirizar o serviço?"

Esta questão foi formulada no fórum online do Curso de Gestão Empresarial e Qualidade Total, realizado pelos sites MilkPoint e BeefPoint. Vamos tentar respondê-la sob a ótica da viabilidade econômica da decisão de descarte do trator e da terceirização da atividade.

A resposta passa pela avaliação do custo/hora de utilização do trator e do implemento na fazenda, comparado com o custo/hora de aluguel do mesmo conjunto.

Para o cálculo do custo/hora, vamos considerar 6 itens:

- Depreciação: é o custo de reposição do equipamento, diluído ao longo da vida útil do mesmo. O cálculo é baseado no valor atual menos o valor final, sendo o resultado dividido pela vida útil futura do bem.

- Juros: é a remuneração média do capital investido no equipamento, caso este fosse aplicado no mercado financeiro. Consideramos 8% ao ano, multiplicado pelo valor médio do bem e dividido pela taxa de uso anual do equipamento.

- Alojamento: é uma estimativa do custo de alojamento do equipamento na propriedade, baseada em 1% do preço atual por ano, dividido pela taxa anual de uso.

- Consumo de combustível: valor gasto em combustível, com a operação pretendida. Partimos da premissa do consumo de 0,12 litros/por CV. No caso de trator sem implementos, consideramos 40% da potência do motor.

- Reparos: valor gasto com a manutenção do equipamento. Estimamos o custo horário deste item como sendo o valor atual do bem, dividido pela sua vida útil, em horas.

- Mão-de-obra: custo horário da mão-de-obra do tratorista, com encargos utilizados.

Dos itens acima, é importante notar que os juros sobre o capital e o alojamento independem da utilização do equipamento. Isto significa que, quanto maior for a utilização do trator ou do implemento, menor será o custo horário destes 2 itens. Um equipamento sub-utilizado terá custos horários mais elevados em função dos juros e do alojamento, que são custos fixos. Já os demais custos não serão considerados quando a máquina estiver parada, ao mesmo em teoria.

No caso da pergunta do nosso leitor, o primeiro e fundamental passo é preencher os parâmetros básicos corretamente, especialmente o uso anual do implemento. Quanto menor for o uso, maior a viabilidade de ser descartado.

Em relação à depreciação, normalmente considera-se o valor inicial menos o valor de sucata, dividido pela vida útil total do bem. No entanto, como o bem já está na propriedade, a decisão deve partir da situação atual: vale a pena descartar hoje o conjunto trator + implemento, ou mantê-lo operando ? Para isto, estimamos o valor atual de cada bem, a vida útil futura e o valor de sucata. Os juros, o alojamento e os gastos com reparos consideraram também o valor atual e não o inicial.

A tabela 1 traz os dados básicos que assumimos:

Tabela 1


Note que consideramos uma taxa de utilização bastante baixa, apenas 100 horas anuais, uma vez que a questão indicava esta situação. Se o uso for mais alto, o custo horário cai.

A tabela 2 traz os custos por hora de cada operação. No caso do custo de mão-de-obra da aração, considerou-se zero, uma vez que o custo já estava sendo considerado na operação do trator (é a mesma pessoa).

Na simulação abaixo, o custo final da operação aração, com o trator da fazenda, ficou em R$ 17,70/hora. Mesmo com a utilização relativamente baixa, o custo horário não subiu muito porque o equipamento já está, em grande parte, depreciado. Talvez o custo de reparos esteja sub-dimensionado em se tratando de um equipamento com vários anos de uso, mas o importante aqui é entender a metodologia e não procurar chegar em um valor aplicável.

Se a taxa de uso subir para 300 horas anuais, o custo horário cai para R$ 15,90; se subir para 1000 horas anuais, cai para R$ 15,27. Por outro lado, se cair para meras 50 horas anuais, o custo sobe para R$ 20,40/hora. Evidentemente, quanto maior a taxa considerada para os juros e para o alojamento, maior será o impacto da variação da taxa de uso no custo horário.

Tabela 2


Grosso modo, se o custo de aluguel for inferior a este e houver disponibilidade de prestadores de serviço confiáveis para esta operação, vale a pena descartar o equipamento. Há que se considerar, também, se o trabalho pode ser melhorado através do uso de um equipamento mais novo ou mais moderno. Neste caso, não se pode comparar apenas o custo, sendo preciso estimar o benefício advindo do uso do serviço terceirizado.

Fonte: MilkPoint
Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?