"Sempre que tenho que descartar alguma coisa, fico naquela dúvida "E se eu precisar disto no futuro ?", que critérios devo usar para saber se devo descartar ou não ? Vamos pensar na seguinte situação: Eu tenho um trator com mais de 15 anos que utilizo para aração e transporte de material/produção; como minha propriedade é pequena e a olericultura é uma atividade intensiva em mão de obra, este trator acaba ficando a maior parte do tempo ocioso, por isto estou sempre pensando em vendê-lo e eventualmente terceirizar as atividades que ele executa, mas sempre fico com medo de precisar do serviço e não encontrar um fornecedor confiável ou com preço razoável, ou ainda, mesmo que ache este fornecedor, em que escala vale a pena manter o trator ou terceirizar o serviço?"
Esta questão foi formulada no fórum online do Curso de Gestão Empresarial e Qualidade Total, realizado pelos sites MilkPoint e BeefPoint. Vamos tentar respondê-la sob a ótica da viabilidade econômica da decisão de descarte do trator e da terceirização da atividade.
A resposta passa pela avaliação do custo/hora de utilização do trator e do implemento na fazenda, comparado com o custo/hora de aluguel do mesmo conjunto.
Para o cálculo do custo/hora, vamos considerar 6 itens:
- Depreciação: é o custo de reposição do equipamento, diluído ao longo da vida útil do mesmo. O cálculo é baseado no valor atual menos o valor final, sendo o resultado dividido pela vida útil futura do bem.
- Juros: é a remuneração média do capital investido no equipamento, caso este fosse aplicado no mercado financeiro. Consideramos 8% ao ano, multiplicado pelo valor médio do bem e dividido pela taxa de uso anual do equipamento.
- Alojamento: é uma estimativa do custo de alojamento do equipamento na propriedade, baseada em 1% do preço atual por ano, dividido pela taxa anual de uso.
- Consumo de combustível: valor gasto em combustível, com a operação pretendida. Partimos da premissa do consumo de 0,12 litros/por CV. No caso de trator sem implementos, consideramos 40% da potência do motor.
- Reparos: valor gasto com a manutenção do equipamento. Estimamos o custo horário deste item como sendo o valor atual do bem, dividido pela sua vida útil, em horas.
- Mão-de-obra: custo horário da mão-de-obra do tratorista, com encargos utilizados.
Dos itens acima, é importante notar que os juros sobre o capital e o alojamento independem da utilização do equipamento. Isto significa que, quanto maior for a utilização do trator ou do implemento, menor será o custo horário destes 2 itens. Um equipamento sub-utilizado terá custos horários mais elevados em função dos juros e do alojamento, que são custos fixos. Já os demais custos não serão considerados quando a máquina estiver parada, ao mesmo em teoria.
No caso da pergunta do nosso leitor, o primeiro e fundamental passo é preencher os parâmetros básicos corretamente, especialmente o uso anual do implemento. Quanto menor for o uso, maior a viabilidade de ser descartado.
Em relação à depreciação, normalmente considera-se o valor inicial menos o valor de sucata, dividido pela vida útil total do bem. No entanto, como o bem já está na propriedade, a decisão deve partir da situação atual: vale a pena descartar hoje o conjunto trator + implemento, ou mantê-lo operando ? Para isto, estimamos o valor atual de cada bem, a vida útil futura e o valor de sucata. Os juros, o alojamento e os gastos com reparos consideraram também o valor atual e não o inicial.
A tabela 1 traz os dados básicos que assumimos:

Note que consideramos uma taxa de utilização bastante baixa, apenas 100 horas anuais, uma vez que a questão indicava esta situação. Se o uso for mais alto, o custo horário cai.
A tabela 2 traz os custos por hora de cada operação. No caso do custo de mão-de-obra da aração, considerou-se zero, uma vez que o custo já estava sendo considerado na operação do trator (é a mesma pessoa).
Na simulação abaixo, o custo final da operação aração, com o trator da fazenda, ficou em R$ 17,70/hora. Mesmo com a utilização relativamente baixa, o custo horário não subiu muito porque o equipamento já está, em grande parte, depreciado. Talvez o custo de reparos esteja sub-dimensionado em se tratando de um equipamento com vários anos de uso, mas o importante aqui é entender a metodologia e não procurar chegar em um valor aplicável.
Se a taxa de uso subir para 300 horas anuais, o custo horário cai para R$ 15,90; se subir para 1000 horas anuais, cai para R$ 15,27. Por outro lado, se cair para meras 50 horas anuais, o custo sobe para R$ 20,40/hora. Evidentemente, quanto maior a taxa considerada para os juros e para o alojamento, maior será o impacto da variação da taxa de uso no custo horário.

Grosso modo, se o custo de aluguel for inferior a este e houver disponibilidade de prestadores de serviço confiáveis para esta operação, vale a pena descartar o equipamento. Há que se considerar, também, se o trabalho pode ser melhorado através do uso de um equipamento mais novo ou mais moderno. Neste caso, não se pode comparar apenas o custo, sendo preciso estimar o benefício advindo do uso do serviço terceirizado.
Fonte: MilkPoint