Definição de metas e prazos é importante até para decidir parar

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Marcelo Pereira de Carvalho

Decisão sobre parar ou não com a atividade leiteira não deve se prolongar por vários anos

Neste semana, a mídia divulgou amplamente dados informando que o número de produtores de leite no Brasil caiu para 800 mil nos últimos anos, comparado a cerca de 1,2 milhão anteriormente. Uma queda de 33%. Independentemente da fonte destes números e de como se chegou neles (isto não foi divulgado nos jornais), o fato é que existe a tendência de redução do número de produtores e aumento da produção por produtor. Dados da Itambé ilustram este fato, assim como nos sugere a história de outros países nos quais o módulo de produção é significativamente maior.

Desta forma, faz sentido sob o ponto de vista da competitividade necessária para crescer no atual mercado que teremos cada vez menos produtores para produzir uma quantidade de leite que tende a crescer. Isto quer dizer que muitos irão sair da atividade. Isto também quer dizer que a decisão por parar ou continuar deverá fazer parte da realidade de boa parte dos produtores. Embora tenhamos preferência de escrever sobre como crescer e como lucrar mais com a atividade, é preciso também informar sobre o outro lado da moeda: como e quando desistir da atividade.

Pois bem, vale a pena parar ? Em caso positivo, quando parar ? São decisões sem dúvida complexas (há fatores ligados às tendências de mercado, aspectos econômicos e pessoais que as influenciam) e que estão sujeitas a arrependimentos mesmo que sejam bem planejadas. Porém, se não houver planejamento, tanto a decisão por continuar a produção quando pelo seu término têm mais chance de se mostrarem equivocadas - e gerar desgaste desnecessário ou prejuízo.

Há, por exemplo, um número significativo de propriedades que estão no meio do caminho: não param, mas estão sempre considerando esta possibilidade. Basta, porém, uma perspectiva melhor, do tipo uma entressafra com preços melhores, ou uma safra sem queda de preços, para que se animem e comecem a tirar a fazenda da inércia em que se mantinha no momento de desânimo: chamam a consultoria de volta, passem a considerar investimentos... Do mesmo modo, basta a situação de mercado se reverter para que o ânimo e os investimentos sejam diminuídos e o produtor passe novamente a considerar a venda do rebanho e a mudança de atividade.

O resultado desta inconstância de propósitos é evidente: fica a sensação de tudo ser provisório, retardando-se a evolução, algo perigoso ao analisarmos a crescente necessidade de eficiência. A aquisição de determinada máquina que irá reduzir custos operacionais é adiada, o mesmo ocorre com o reparo de uma instalação que prejudica o desempenho. A contratação de pessoal mais especializado, idem, e assim por diante. Passados os anos, o fato é que se havia alguma dúvida sobre a viabilidade da atividade nesta propriedade, agora não resta alguma: ela se tornou inviável, ficando definitivamente para trás. É como uma morte lenta, ou melhor, um suicídio lento. Não houve um propósito contínuo de evoluir e crescer e, ao mesmo tempo, a decisão por parar não foi suficientemente prevalente que fosse de fato executada.

Sabemos que a decisão por parar é difícil. Há sentimentos envolvidos, há um patrimônio criado ao longo do tempo. Há, ainda, uma possibilidade de melhoria do mercado. Mesmo assim, se sua fazenda não apresenta os resultados que você considera satisfatórios, é preciso ter frieza para fazer as perguntas certas e, conforme for, colocar metas e prazos para atingir os objetivos que você considera adequados. Algumas perguntas que podem ser feitas são (há outras, claro):

- É possível traçar uma tendência de mercado para os 5 ou 10 anos futuros ?
- Como sua propriedade se encaixa em termos competitivos neste cenário ?
- Caso a resposta para a questão acima não o agrade, é possível reverter a situação ?
- O que precisa ser feito: mudanças gerenciais/operacionais ou investimentos (quanto) ?
- No caso da necessidade de investimentos, você tem como obtê-los a um custo viável ?
- Pessoalmente, você quer conduzir este processo (se acha capaz, tem vontade, etc.) ?

Você já deve ter percebido que não são respostas fáceis. É preciso ter auxílio de profissionais da área, estar bem informado sobre o setor e suas tendências, visitar outras propriedades e modelos de produção, avaliar alternativas de comercialização para, então, responder com embasamento, embora o imponderável ainda exista. A questão do mercado é um exemplo fácil: via de regra, previsões para 3 ou 4 meses viram pó dependendo de circunstâncias, o que diremos de 5 a 10 anos (se bem que, com um horizonte destes, talvez seja até mais fácil, pois não estamos procurando prever o dia seguinte, mas sim um cenário mais macro). A própria análise do setor no Brasil apresenta tendências distintas: PNMQL estimulando a qualidade e profissionalização; aumento do leite informal, indo na direção oposta, dúvidas sobre a redução de subsídios nos países desenvolvidos, etc. É mesmo difícil afirmar como estará o mercado daqui a 10 anos.

Dependendo desta avaliação, o mais sensato pode ser decidir por parar. Neste caso, avalie como isto deve ser feito e em que época. Fazendas de leite geralmente têm um patrimônio significativo em animais e equipamentos, de forma que planejar a retirada é essencial. Há regras básicas: evite vender os animais em épocas de preços baixos e, caso estes estejam em mau estado, procure recupera-los (o mesmo se deve fazer com equipamentos).

Mas, supondo que, após esta avaliação criteriosa, você conclua ser possível e viável tecnica e economicamente colocar a propriedade dentro daquilo que espera, procure planejar passo a passo a evolução (lembre-se: por mais difícil que seja, é sempre melhor do que não planejar nada) e defina metas e prazos consistentes.

As metas devem ser baseadas nos números e projeções que você levantou (lembre-se que foram os resultados desta análise que o motivaram a continuar). Se, decorrido determinado prazo, as metas estiverem longe de ser alcançadas, seja por alteração do cenário de mercado, seja por índices técnicos superestimados no planejamento, custos subestimados ou qualquer outra razão, talvez o melhor a fazer seja partir para outra e evitar a pior situação: levar a propriedade em banho-maria, vendo seu ânimo e seus recursos sendo corroídos. Assim como para alguns é preciso saber o momento de investir e crescer, outros devem saber a hora de parar.

Em ambos os casos, é preciso planejamento!

Fonte: MilkPoint
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Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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