A Paraíba possui atualmente 30 queijos com certificações que permitem a comercialização em qualquer ponto do território nacional, segundo levantamento do Paraíba Business no Cadastro Nacional de Produtos Artesanais (CNPA), do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Os registros estão concentrados em Soledade, Barra de São Miguel, Sumé e Taperoá, e pertencem a apenas quatro produtores. O número ganha relevância porque surge no momento em que o Ceará, segundo maior polo leiteiro do Nordeste, tenta ampliar a formalização das próprias queijarias para vender fora de suas fronteiras.
O que garante o Selo ARTE e o Selo Queijo Artesanal
O Selo Arte (Agroindústria de Registro Estadual, hoje ampliado para reconhecimento nacional) e o Selo Queijo Artesanal identificam produtos de origem animal fabricados de forma artesanal, desde que cumpram exigências de inspeção sanitária, boas práticas e características próprias de produção, conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária. Na prática, o selo resolve um gargalo econômico direto: permite que um produtor regularizado deixe de vender apenas no próprio município ou estado e passe a disputar consumidores em qualquer ponto do país.
Do total paraibano, 17 registros estão no Selo Queijo Artesanal e 13 no Selo Arte, segundo o cadastro federal. Os 17 produtos do Selo Queijo Artesanal pertencem à Agro Maracajá, marca Caprinno, de Soledade, todos vinculados ao Serviço de Inspeção Municipal do município e produzidos com leite de cabra e de vaca, incluindo versões tradicionais, com cumaru, ervas finas, ervas de Provence, orégano, maturadas, marinadas, boursins, zero lactose e maturadas de vaca, de acordo com o mesmo levantamento. É o maior grupo entre os quatro produtores paraibanos com certificação nacional.
Os outros 13 registros, no Selo Arte, se dividem entre três produtores. Em Sumé, no Cariri paraibano, a Agubel tem cinco produtos ativos, todos derivados do queijo de coalho de leite de cabra: a versão tradicional e as variações com orégano, pimenta calabresa, alecrim e canela, concedidos em 2026, segundo o cadastro do MAPA. Em Barra de São Miguel, o Queijo da Coruja mantém quatro registros de 2024: Lua Nova, Coroa de Frade, Chèvre e Boursin, também de leite de cabra. Em Taperoá, a Fazenda Carnaúba soma quatro registros concedidos em 2026: os queijos de cabra Arupiara, Cariri e Borborema, e o queijo de vaca Serra do Pico.
Queijo coalho do Cariri já está na mesma rota que o Ceará busca
A conexão mais direta com o movimento observado no estado vizinho aparece em Sumé. Os cinco registros da Agubel são justamente variações do queijo de coalho de leite de cabra, o mesmo tipo de produto que o Ceará tenta formalizar em maior escala. Isso significa que o queijo coalho produzido no Cariri paraibano já está formalmente enquadrado em uma certificação que permite venda em qualquer estado do país, mesmo que o cadastro não informe quanto desse volume efetivamente circula fora da Paraíba, quais estados recebem a produção, ou quanto essa ampliação de mercado representa em faturamento para os produtores.
O paralelo com o Ceará ajuda a dimensionar o tamanho da cadeia que está do outro lado dessa comparação. O estado tem mais de 100 mil produtores de leite e Valor Bruto da Produção de R$ 2,32 bilhões no setor leiteiro, volume que representa mais de 20% de toda a produção agropecuária cearense. Apesar disso, “a grande maioria das queijarias artesanais do sertão cearense ainda possui autorização limitada ao comércio local ou atua na informalidade”, segundo a mesma reportagem, que cita a queijaria Dona Vita, de Limoeiro do Norte, como uma das poucas já certificadas com Selo ARTE.
Essa assimetria aparece também no cadastro nacional: o MAPA lista atualmente cinco queijos do Ceará com Selo Arte, todos do mesmo estabelecimento em Limoeiro do Norte (um queijo de coalho e quatro queijos maturados), e nenhum registro ativo do estado no Selo Queijo Artesanal, segundo o cadastro atualizado em setembro. Ou seja, considerando exclusivamente essas duas certificações artesanais de alcance nacional, a Paraíba soma 30 registros ativos contra cinco do Ceará.
A comparação, porém, precisa de uma ressalva: esses números não captam toda a produção de queijo dos dois estados, nem todas as empresas autorizadas a vender fora de suas fronteiras: existem outros caminhos de formalização, como o Serviço de Inspeção Federal e os sistemas de equivalência sanitária entre estados, que não entram nessa contagem.
Concentração em quatro produtores limita o alcance do dado
Os registros pertencem a apenas quatro produtores ou estabelecimentos: Agro Maracajá/Caprinno, Agubel, Queijo da Coruja e Fazenda Carnaúba. A quantidade de selos, portanto, não equivale a 30 queijarias certificadas, mas a uma alta diversidade de produtos dentro de um grupo restrito de negócios já formalizados.
O cadastro do MAPA também não informa quanto esses produtores passaram a vender depois da certificação, quanto recebem pelo produto, quantos empregos estão associados a essas quatro queijarias, ou qual parcela do leite caprino e bovino produzido no estado é transformada em queijo artesanal certificado. São exatamente esses números, ainda não publicados por nenhuma fonte oficial, que permitiriam medir se o reconhecimento formal já está se convertendo em expansão econômica real da cadeia, e não apenas em habilitação regulatória.
Foto: Queijo tipo reino do Capril Encanto da Macambira, de São João do Cariri, e queijo de coalho de leite de cabra da Agubel, de Sumé
Próximo capítulo depende de mapear as queijarias fora do cadastro
A presença de 30 produtos certificados levanta uma pergunta mais ampla para a cadeia leiteira paraibana: quantas queijarias produzem hoje no estado e quantas ainda não têm registro que permita alcançar o mercado nacional. Separar produção bovina e caprina, identificar os principais municípios produtores e verificar qual fatia do leite do interior da Paraíba é vendida como matéria-prima, e qual parcela vira produto de maior valor agregado, como queijos, manteigas e doces, são os próximos dados que definirão o tamanho real dessa oportunidade.
A discussão levantada pelo setor cearense, nesse sentido, também expõe uma transformação já em curso no Cariri paraibano: parte da produção artesanal deixou de depender só do mercado local e já tem autorização para disputar consumidores em qualquer estado do país. Resta agora medir quanto dessa autorização está, de fato, virando venda.
As informações são do Paraíba Business, adaptadas pela equipe MilkPoint.
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