Cuidado com as verdades universais

Publicado em: - 4 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Marcelo Pereira de Carvalho

Há certos chavões que são repetidos à exaustão por técnicos e produtores e que, pela própria ausência de contra-argumentação consistente e por uma lógica por vezes até óbvia, são aceitos como verdades universais sem maiores questionamentos.

É evidente que nada surge do acaso; muitas vezes estas verdades universais tiveram origem em experimentos bens conduzidos antes de serem aceitas pela comunidade científica e técnica, para então serem aplicados na prática e difundidos no mundo inteiro através de palestras e artigos. Em outros casos, a origem é mais difusa, resultando do bom senso de técnicos reconhecidos pelo mercado, cujas colocações são via de regra aceitas sem que sejam refutadas. Ainda, há informações cujas origens se encontram em trabalhos específicos, conduzidos sob determinadas circunstâncias não aplicáveis de forma generalizada.

Na prática, nem tudo que é propalado como verdade universal se aplica a todas as situações, como muitos querem fazer. Mais ainda, muitos destes "dogmas" carecem de embasamento científico, sendo sustentados por evidências empíricas ou, pior, por uma suposta lógica intrínseca. O resultado é que, ao aceitar estas supostas verdades, perdemos a oportunidade de questionar aspectos importantes da nossa atuação diária que, em última análise, contribuem para a não otimização da performance.

Esta situação não é característica do meio agrário; pelo contrário, vemos na própria medicina humana verdades antes inatingíveis sendo derrubadas por novas evidências que, ao virem à tona, suscitam dúvidas sobre os dados anteriores, a sua interpretação, o delineamento experimental ...

No nosso caso específico, podemos citar alguns exemplos que caem na categoria de verdades universais. O conceito de ração completa ou ração total, à qual tem todos os ingredientes da dieta misturados de forma homogênea, garantindo "cada bocada igual à outra", tem sido promovido como verdade universal. Desta forma, se a dieta estiver bem balanceada, as condições ruminais serão otimizadas uma vez que a ingestão de cada ingrediente é controlada. Com o rúmen em perfeito funcionamento, o aproveitamento de nutrientes é elevado, a perda de condição corporal é mínima, o sistema imune do animal tende a ser mais eficiente, a reprodução se processa sem grandes sobressaltos (há outros pontos envolvidos, claro).

Porém, será mesmo que cada bocada é igual à outra ? Será que não há seleção por parte dos animais ? Será que o pH fica mesmo controlado ? Basta olharmos para um rebanho que recebe dieta total para vermos que há seleção, que os animais procuram ingerir primeiro o concentrado, a não ser que o volumoso seja de qualidade estupenda e que o concentrado contenha alimentos poucos palatáveis. Em trabalho recente realizado nos EUA (com volumoso de ótima qualidade), isto foi comprovado: nas primeiras horas após o trato, uma quantidade ínfima de fibra é consumida, fazendo com que a dieta efetivamente ingerida naquele período seja carregada em carboidratos não estruturais, levando à condição de acidose ruminal (é provável que este trabalho seja abordado na Seção de Nutrição oportunamente). Se o volumoso for de má qualidade, a situação fica ainda mais crítica. Em resumo, a verdade universal de que a utilização de ração completa leva ao consumo equilibrado das frações de nutrientes simplesmente precisa ser reconsiderada, o que não invalida a recomendação do uso de ração completa, que fique claro !

Querem outra verdade universal ? Ganhos de peso acima de 800 gramas para novilhas em idade pré-púbere acarretam em acúmulo de gordura na glândula mamária, prejudicando a lactação do animal para sempre. Avaliando melhor esta informação, nota-se que tais trabalhos foram realizados na Dinamarca, há 20 anos, com animais de baixo tamanho corporal, recebendo dieta com reduzido teor protéico. Trabalhos recentes sugerem que, com genética americana e canadense e dieta bem balanceada, este problema inexiste mesmo a ganhos superiores.

Querem mais outra ? Vacas de alta produção necessitam de 35 a 40% de proteína bypass. Inúmeros pesquisadores e técnicos repetiram à exaustão esta outra verdade, para, agora, admitirem que, dependendo da composição de aminoácidos das fontes empregadas e do restante da dieta, o resultado pode ser pior do que se utilizarmos fontes degradáveis, muito mais baratas.

A lista é interminável. Não se trata, evidentemente, de colocar a informação disponível no limbo, muito menos de aceitar que a evolução da ciência é feita justamente pelas novas evidências, derrubando antigos conceitos. Ocorre que, em certos casos, informações com origem no mínimo frágil são tão divulgadas que, com o tempo, passam a ser incorporadas ao conhecimento geral de todos, como verdades universais. E nem sempre são, como visto nos exemplos acima. Ligado à esta constatação, está o fato de, por vezes, notarmos resultados práticos positivos com a aplicação de conceitos não convencionais.

Como podemos reduzir o aprisionamento de verdades universais ? Nós, técnicos, precisamos ser mais críticos em relação ao que lemos e ouvimos. É preciso observar mais, procurar conversar com especialistas, questionar mais. Use as informações disponíveis a seu favor, mas não seja escravo delas. Os produtores, por sua vez, devem procurar complementar as informações que recebem com observações de campo: é preciso monitorar o que acontece, mas por monitorar entende-se medir, não simplesmente "achar".

Há, claro, um risco embutido ao se questionar o lugar comum e procurar caminhos alternativos, mas atrás de todo risco está uma possibilidade de retorno que pode significar a diferença. E, no atual momento, em que se exige competitividade, esta diferença pode ser sinônimo de garantia de sobrevivência.

********


fonte: MilkPoint
Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?