Cruzamentos entre raças podem funcionar em seu rebanho?

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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Marcelo Pereira de Carvalho

Mesmo em países de clima temperado, a tradicional escolha genética de se trabalhar com raças puras, um dos pilares da produção de leite moderna, vem sendo questionada, dando espaço a proposições em direção ao uso de cruzamentos entre as raças.

O tema é importante e precisa ser bem discutido, pois, uma vez tomado um caminho, a reversão é difícil, demorada e cara. Além disto, é preciso lembrar que a utilização de mestiços entre raças não termina na geração F1 e que o mestiço não é a solução para manejo de má qualidade (embora alguns cruzamentos sejam mais tolerantes a condições inferiores de exploração). A seguir, comentamos algumas questões colocadas em artigo do Prof. Bennet Cassell, extensionista em genética e manejo da Virginia Tech (EUA).

1. Que rebanhos devem se interessar pelos cruzamentos entre raças? A utilização de animais Pardo Suíço ou Jersey em rebanhos holandeses deverá aumentar o teor de componentes do leite, o que pode ser economicamente interessante em mercados que paguem por isso. Também, rebanhos cuja preocupação maior reside na saúde animal e na fertilidade, não havendo pressão para aumento da produção de leite (ex: rebanhos a pasto), podem considerar os cruzamentos como uma alternativa interessante.

2. Quais são os benefícios esperados? Problemas como a consangüinidade nas raças puras passam a não existir nos mestiços entre raças. As bezerras geralmente são vigorosas, crescem bem, são férteis e provavelmente irão parir mais cedo. Uma vez vacas, a saúde e a reprodução devem ser mais eficientes, resultando em animais mais longevos.

3. O que se perde através dos cruzamentos? As vacas mestiças irão produzir mais do que a média parental, mas não irão suplantar o animal da raça de produção mais alta, como exemplo o holandês. Esta perda de produção deverá ser compensada pelos benefícios para que haja compensação econômica nesta estratégia.

4. O que é necessário para levar adiante um programa de cruzamentos? É possível utilizar touros de raças puras em um esquema alternado ou então utilizar touros mestiços. É possível utilizar 2 ou mais raças no esquema alternado. Atualmente, a indústria de inseminação artificial oferece mais opções no caso de touros de raças puras, uma vez que dá acesso a um grande número de animais geneticamente superiores, provados. Ainda nos próximos anos, touros mestiços serão minoria, o mesmo ocorrendo com raças novas, como girolando (embora já existam opções). Embora, programas sustentáveis de cruzamentos precisem gerar a reposição, de forma que os animais F1 precisam ser acasalados com algum touro - ou a raça de um dos pais, ou uma terceira raça, ou ainda um animal mestiço, há a opção de compra no mercado de animais F1. Já há fazendas que estão se especializando em colocar no mercado animais F1 frutos do cruzamento de vacas holandesas de desempenho superior, acasaladas com touros gir provados.

5. Como escolher as raças? Há muita especulação e pouca definição, afinal o uso de mestiços entre raças puras ocorre mesmo em algumas regiões do planeta (Nova Zelândia, por exemplo, e países de clima tropical, com animais de sangue indiano). Mesmo por aqui (Brasil), há ainda mais dúvidas do que soluções, sendo necessários mais trabalhos para comprovar a eficácia dos cruzamentos nas condições que encontramos por aqui, embora pareça cada vez mais evidente que em sistemas a pasto, sob clima tropical, animais com algum grau de rusticidade sejam mais rentáveis.

6. A geração F1 é sempre um problema. Há boas alternativas ? O uso de uma terceira raça pode ser uma alternativa interessante uma vez que mantém a heterose em níveis mais altos do que o cruzamento retroativo com uma das raças parentais.

7. Qual seria a lógica de cruzar a geração F1 de volta com animais holandeses ou Jersey (no caso do F1 ser obtido por estes cruzamentos)? O cruzamento de volta com animais holandeses favoreceria o aumento da produção, ao passo que a volta ao Jersey resultaria em teor de sólidos mais elevados, fertilidade e facilidade de parto. Em teoria, nenhuma destas opções irá gerar tanta heterose na geração F2 como se obteve na F1. Embora seja difícil ser taxativo, há dados sugerindo que a perda de heterose na geração F2 e gerações seguintes não tenha um efeito tão negativo assim.

8. A adoção maciça de cruzamentos faz realmente sentido para o produtor comercial? Não há resposta única para esta questão. Mas com certeza há um caminho que não deve ser seguido: a substituição de um programa bem conduzido de inseminação artificial com touros provados, pela utilização de monta natural por touros de outras raças. Os resultados provavelmente serão desapontadores. A seleção para produção nas raças puras deve ser parte de qualquer programa de cruzamentos.

Considerações finais: condições nas quais a decisão pelo uso de cruzamentos tende a ser favorável

- Quando a produção é alta o bastante para afetar a saúde animal e a reprodução. Animais mestiços são mais vigorosos e férteis do que os pais, mas é difícil dar um número exato neste quesito. Se estes problemas resultam de stress ou alta produção, a geração F1 pode produzir menos leite - mas lembre-se que o problema do stress induzido pela alta produção pode ser solucionado de outras formas.

- Você tem utilizado touros provados no seu rebanho, mas não tem informação suficiente sobre o pedigree das vacas individualmente no rebanho. Você teme que a ocorrência de consangüinidade seja muito alta. Neste caso, a utilização de outras raças evita o problema. É claro que um sistema eficiente de identificação resolve sem precisar usar outras raças, mas certamente você terá animais sob suspeição de consangüinidade por muitos anos no rebanho.
- Se as condições de exploração não forem as mais adequadas, por exemplo em clima quente e úmido, animais puros (especialmente da raça holandesa) podem desapontar, caso não se atue na melhora destas condições.

- Sua fazenda opta por um sistema de produção sem grandes investimentos, o chamado "low input system", onde prioriza-se a reprodução rápida das vacas e onde a produção por vaca não vale tanto assim. Estamos falando de sistemas a pasto, onde se conjuga a disponibilidade de forragem com a necessidade de alimento pelo animal.

Há ainda outros aspectos a considerar. É preciso admitir que muitas das colocações ainda são baseadas em poucos dados científicos. Nos países de clima temperado, via de regra a opção pelos cruzamentos caiu no esquecimento há 50 anos atrás, sendo poucas as informações recentes para consulta, com exceção de sistemas específicos, como o neozelandês. Por aqui, embora vários trabalhos tenham sido feitos, é preciso aliar informações econômicas aos dados obtidos e procurar transportá-los às várias situações de clima, topografia, disponibilidade de forragens, sistemas de pagamento de leite e outras mais antes da recomendação generalizada. Uma tarefa que não é fácil, embora a discussão mais embasada em torno dos cruzamentos já esteja acontecendo.

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fonte: Escrito a partir de artigo de Bennet Cassell, para a revista Hoard's Dairyman, 12/00
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Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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Marcos Jomas B Almeida
MARCOS JOMAS B ALMEIDA

EM 26/01/2019

Posso cruzar jersey com pardo suíço
emílio cintra iovino
EMÍLIO CINTRA IOVINO

JAÍBA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/12/2016

muito bom assunto, gostaria de receber mais informações deste tipo.
david ghizzi
DAVID GHIZZI

FLOR DA SERRA DO SUL - PARANÁ

EM 26/09/2015

bom dia quero saber qual pode ser a quantidade de leite produzida por uma vaca 1/2 pardo suiço 1/2 gir leiteiro

Wagner Pires Vaz
WAGNER PIRES VAZ

RIO GRANDE - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/06/2008

Boa tarde, quero saber os benefícios do cruzamento entre gado holandês PO com Gado Pardo Suíço leiteiro e os benefícios da F1 para produção de leite e aproveitamento dos machos para corte.
Muito boa a matéria.
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