Conforto para vacas leiteiras em pastejo
A questão do conforto de vacas leiteiras sempre foi estudada em sistemas de confinamentos e pouco sabe-se sobre o conforto das vacas em sistemas de pastejo. Em muitos casos, apenas focando naquilo que é mais simples já se consegue ganhos bastante expressivos em eficiência. Por Alexandre M. Pedroso (Pesquisador - EMBRAPA Pecuária Sudeste)
Publicado em: - 6 minutos de leitura
Sempre que se fala em conforto de vacas em pastejo, a primeira coisa que vêm à mente é sombra, principalmente por causa dos efeitos do calor sobre os animais. É de conhecimento geral que calor excessivo prejudica a produção de leite e o desempenho reprodutivo das vacas, e esses efeitos são em parte explicados pela redução na ingestão de alimentos dos animais sob stress calórico, mas o calor também afeta o status endócrino das vacas, reduz o tempo de ruminação e a absorção de nutrientes, além de elevar os requerimentos para mantença dos animais, o que resulta em menor disponibilidade de nutrientes e energia para as funções produtivas e reprodutivas.
Para não ter nenhum prejuízo no seu desempenho, uma vaca leiteira precisa de, no mínimo, 8-10 horas diárias de descanso em local fresco, seco e confortável. E em sistemas de produção a pasto isso muitas vezes é negligenciado. É muito comum vermos vacas sem 1 m2 de sombra disponível nas áreas de pastagem, ou com áreas de descanso mal drenadas, com grande acúmulo de barro. Se na área de descanso uma vaca permanece em pé, ou fica agitada balançando a cabeça, isso é um sinal claro de stress. Certamente esse local não está proporcionando as condições adequadas de conforto para esse animal, e, certamente também, isso vai pesar no bolso do produtor.
Para se ter uma ideia do que isso significa, é de conhecimento geral que a produção de leite tem relação direta com o fluxo de sangue que chega na glândula mamária. Quando as vacas estão deitadas, descansando, o fluxo de sangue que chega ao úbere é de aproximadamente 342 litros/hora, mas quando as vacas estão em pé, esse fluxo é de apenas 228 litros/hora. Isso significa que vacas em pé produzem muito menos leite do que quando estão deitadas.
Além das questões já citadas, em ambientes desconfortáveis as vacas podem apresentar diversos problemas, como aumento na contagem de células somáticas e maior incidência de problemas de casco. Um sinal claro de que estão sofrendo nas áreas de descanso é vermos vacas se deitarem ao entrar num piquete novo, cheio de forragem fresca. Quando vacas famintas preferem deitar a pastejar, elas estão demonstrando claramente a importância que dão ao descanso, mesmo à custa do consumo de alimentos.
Para ter uma boa ideia do que isso significa, tente se colocar no lugar das vacas. Imagine uma situação onde os animais são espremidos num lugar de terra vermelha, embaixo de uma árvore com as raízes expostas, formando verdadeiras armadilhas para quem anda por ali, junto com 50-100 "companheiras de trabalho", num dia de sol escaldante, depois de 3-4 dias de chuva. Dificilmente alguma delas vai querer deitar no barro, por cima das raízes das árvores.
Animais mantidos em condições como as descritas acima certamente vão ficar estressados, e ao retornarem para os piquetes, onde há espaço suficiente e um piso macio e confortável, há uma grande chance de preferirem deitar a pastejar, pelo menos por um tempo, mas isso já será suficiente para reduzir o consumo e, consequentemente, a produção de leite. Se somarmos a isso a possibilidade de aumento na contagem de células somáticas e na incidência de problemas de casco o quadro piora bastante.
Para não sofrerem stress por falta de conforto as vacas precisam de áreas de descanso com espaço suficiente, piso seco e macio, e sombra, de preferência natural, para se abrigarem do calor. Pelo menos 5 m2 por vaca são necessários para garantir o conforto em áreas de descanso. O piso precisa ser macio, e o local não pode estar sujeito a inundações ou formação de barro. Ou seja, as áreas de descanso precisam de manutenção constante, principalmente no verão.
Atualmente sistemas silvipastoris estão se tornando cada vez mais populares, e também podem ser uma alternativa interessante para dar mais conforto para animais em pastejo. No entanto trata-se de sistemas integrados, onde manter o equilíbrio entre os componentes (árvores, plantas forrageiras e animais) e suas interações, além da relação com os fatores ambientais disponíveis, tornam a atividade mais complexa e dependente de um planejamento rigoroso. Para ter sucesso na implantação e condução de sistemas silvipastoris é necessário conhecimento específico das espécies de árvores a utilizar, e de manejo das planta forrageiras em ambiente mais sombreado.
É preciso ter conhecimento adequado para planejar e gerenciar um sistema silvipastoril, pois é preciso mensurar a quantidade de árvores em relação às perdas na produção de forragem, incluindo nesse processo o conhecimento de fisiologia de plantas forrageiras para que o manejo do pastejo seja feito de forma a garantir a perenidade da pastagem e, consequentemente, a economicidade do sistema. Infelizmente, ainda não dispomos de informações ou estudos em número suficiente para termos uma sólida base de dados que nos dê sustentação para fazermos recomendações sobre as condições de conforto de vacas leiteiras nesse tipo de sistema.
Se a solução for construir áreas de sombra artificial, é preciso atenção para que a orientação da construção seja no sentido norte-sul, para que a sombra possa se deslocar ao longo do dia, o que ajuda a prevenir a formação de barro, pois as vacas não ficarão sempre no mesmo local, elas vão acompanhar o deslocamento da sombra. O mesmo princípio vale para disposição de árvores em linha.
Se as vacas permanecem em galpões entre as ordenhas, o que é comum em muitas fazendas, no mínimo deve haver uma preocupação com a limpeza do piso, que deve ser mantido seco, e também com a lotação da área. Deve-se garantir os mesmos 5 m2 por vaca. Sempre as vacas vão preferir locais macios para deitar, e o concreto está longe disso, mas se não houver outro jeito, é imprescindível que o piso seja mantido em boas condições para permitir que as vacas se deitem com um mínimo de conforto.
Outro ponto que deve ser lembrado é o estado de conservação dos corredores de circulação, pois caminhar por corredores cheios de pedra ou cobertos de lama não é tarefa fácil para animais de 400-500 kg ou mais. Vacas podem sofrer injúrias sérias em corredores mal cuidados. Piso uniforme, com boa drenagem, livre de pedras é o mínimo que podemos oferecer às nossas vacas.
Assim, uma ótima alternativa é ficar atento aos sinais que sempre recebemos de vacas que não têm boas condições de conforto em sistemas de produção em pastagens:
- Balançam as cabeças, permanecem em pé e têm aparência de cansadas nas áreas de descanso;
- A contagem de células somáticas e a incidência de problemas de casco aumentam;
- Preferem deitar a pastejar quando entram num piquete novo.
Dar conforto às vacas não custa caro, e pode economizar muito dinheiro ao produtor. Verifique as condições das áreas de descanso, galpões e corredores, e faça a manutenção preventiva permanentemente. Com certeza isso vai ajudar bastante as vacas a manterem bom desempenho, o que por sua vez garante a rentabilidade da fazenda.
Material escrito por:
Alexandre M. Pedroso
Doutor em Ciência Animal e Pastagens, CowSignals Expert, especialista em nutrição, manejo e bem-estar de bovinos leiteiros.
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PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 08/01/2014
Att,
Alexandre
MIRACEMA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 07/01/2014
No meu pequeno rebanho leiteiro, estou tirando o leite somente pela manhã. Gostaria também de iniciar a retirada na parte da tarde, porém nesse período o sol é intenso dentro da área onde as vacas ficam esperando serem conduzidas para a ordenha, bem como o local para onde elas vão depois.
Estou começando o plantio de árvores em volta do curral, porém é para daqui a 2-4 anos.
Qual a solução de resultado imediato que eu poderia realizar ?
Grato e parabéns pela matéria.
QUIXERAMOBIM - CEARÁ
EM 16/02/2013

JABOTICABAL - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 13/02/2013
SANTA QUITÉRIA - CEARÁ - ESTUDANTE
EM 20/09/2012
Para:
Wellington Brito Jeronimo
Gostaria de saber se na região do sertão central do ceara vc tem visto a utilização de sistema de confinamento Loose housing, pois prentendo confinar para da melhor conforto e o free stall é muito caro. gostaria de recebe informações dos amigos produtores de leite que interage atraves do milkpoint.
Abraço
Fernando Muniz
QUIXERAMOBIM - CEARÁ
EM 18/09/2012

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 11/09/2012
Excelente artigo, estou prestes a implantar um sistema e ficarei alerta a estas questões...
Muito bom!!
QUEDAS DO IGUAÇU - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS
EM 29/08/2012
A manutenção das areas de circulação é essencial e tão bem feito forem os corredores menos manutenção eles darão. Alguns passos são:
Dimensionar bem o corredor. Corredores estreitos degradam rapidamente. Corredores principais pelo menos 5m de largura.
Retirar a camada superficial, grama, lama, etc, antes de iniciar a construção do corredor. Depois disso compor uma boa base com material apropriado, cascalho, brita grossa ou outros materiais que garantam uma base rigida compactando muito bem . Em seguida uma camada suave o suficiente para que as vacas andem confortavelmente abaulando esta base em 5 a 8%. Valores inferiores a este não permitem uma boa drenagem, superiores as vacas vão evitar o centro do corredor e andar pelas laterais. O uso de cal e cimento seguido de agua e compactação sobre o solo cria uma base rigida o suficiente para que não haja formação de lama e que a agua escoe, mas sem obstaculos como pedras que possam machucar os animais.
Garantir um bom sistema de drenagem nas laterais do corredor para que a agua escoe e vá embora e não fique umdecendo o corredor. É importante isolar das vacas os drenos para que elas não o danifiquem criando poças ou desestruturação das laterais do corredor.
Abraço
Michel Kazanowski
RIO BRANCO - ACRE - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 28/08/2012
Forte abraço.
TERESINA - PIAUÍ - PESQUISA/ENSINO
EM 03/08/2012

READING - BERKHIRE - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 29/06/2012
um grande abraco
Darlan La Rocca
PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 25/06/2012
Luiz, como dito pelos colegas, me parece que o problema está com a distribuição das sombras, e talvez drenagem de alguns locais. Dê uma olhada nisso.
Att,
Alexandre

FORTALEZA - CEARÁ - ESTUDANTE
EM 24/06/2012
ainda sou estudante de veterinária, mas acredito que esteja relacionado com a distribuição das sombras e a quantidade disponível por animal, ou seja, se a sombra concentra-se em um único local, ocorrerá uma maior troca de calor entre os animais (convecção), elevando a temperatura daquele microclima. Procurar distribuir mais os sombrites e fazê-lo em locais mais elevados, já que o problema maior aqui no nosso ceará é a umidade. E como tratado muito bem pelo Dr. Alexandre, deve-se respeitar a quantidade mínima por animal de 5m2.
Murilo Torres de Melo Pedrosa

PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO
EM 22/06/2012
FORTALEZA - CEARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 22/06/2012
CAMPO BELO - MINAS GERAIS - INSTITUIÇÃO PÚBLICA
EM 21/06/2012
BAGÉ - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 21/06/2012
Acredito que suas colocaçoes neste aspecto financeiro, atinge muito mais os produtores do que um simples artigo sobre bem estar animal...
Lhe dou novamente os parabens pela materia de novo...
Abraço!!!
PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 20/06/2012
Pelo exposto, fica evidente que conforto em pastejo não é algo tão simples assim, e que há demanda de investimentos que podem ser consideráveis, principalmente com rebanhos de maior produtividade e menos rusticidade.
PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 20/06/2012
Abraços a todos!
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 19/06/2012