Comportamento na parição em ovelhas - Parte 1
Por uma questão de sobrevivência, os ovinos desenvolveram características comportamentais únicas. O produtor de ovinos de sucesso aprende a compreender essas características, e aplica esse conhecimento em todas as fases do sistema de produção. Uma das horas mais importantes do dia é aquela em que o responsável pára e observa o rebanho a procura justamente de animais que não estão apresentando comportamento "normal" da espécie. Nessa primeira parte iremos abordar o comportamento pré-parto e durante o parto, e na segunda parte abordaremos o comportamento após o parto da ovelha e do cordeiro após o nascimento e suas implicações na ligação mãe-filho.
Publicado em: - 4 minutos de leitura
O que leva uma ovelha a ter um comportamento peculiar na época da parição? Lembrando-se sempre do que é primordial para uma espécie - sobreviver e reproduzir, entendemos que todo o comportamento da ovelha serve para garantir essa perpetuação da espécie ao máximo.
Durante o parto, tanto a mãe quanto sua cria estão muito vulneráveis e suscetíveis a ataques de predadores, por isso é importante que a ovelha tome alguns cuidados para diminuir essa suscetibilidade.
Cuidados como encontrar lugares seguros, encurtar o tempo de parição, proteção, minimizar as evidências de que haverá ou de que está havendo um parto e recuperar-se rapidamente incluem alguns passos que garantem o sucesso da parição.
Mortalidade de cordeiro na casa dos 10-15% são facilmente observadas no estado de São Paulo, sendo que alguns rebanhos têm taxas até maiores, como 25% de perdas de cordeiros até o desmame. Ao redor do mundo, altas taxas também são observadas, como 9,2% em Tennesse (E.U.A.) e taxas de 5 a 15% em outros estudos. Grande parte dessas mortes ocorre logo após o nascimento, e muitas das causas de mortalidade estão diretamente ligadas ao comportamento.
Comportamento no pré parto
É extremamente importante que fiquemos atentos aos primeiros sinais que a ovelha dá ao aproximar-se a hora do parto. Dois fenômenos são reportados no pré parto de ovelhas: o isolamento e a busca de proteção, ambos vantajosos para os cordeiros.
O primeiro deles é a tendência da ovelha de separar-se do rebanho, porém isso nem sempre acontece. Alguns pesquisadores encontraram resultados bastante diferentes. Esse isolamento ocorre com maior ou menor intensidade de acordo com a raça, e também sofre influência de algumas técnicas de manejo, como tamanho de piquete, taxa de lotação e outros. Pesquisas com ovelhas selvagens demonstraram que todas se isolaram para parir, enquanto outro trabalho com ovelhas da raça Merino levantou que 90% das ovelhas pariram onde quer que estivessem. Outro estudo com Merinos e ovelhas de raças britânicas encontrou que 2/3 das ovelhas afastaram-se do rebanho.
A procura por abrigo (proteção) no pré parto também é um sinal, e pode ser importante para melhorar as condições do parto, sobretudo em condições adversas de clima, porém também há diversidade nos resultados encontrados em diversos trabalhos. Alguns estudos na Austrália com Merinos mostraram pouca tendência das ovelhas procurarem abrigo mesmo no frio, enquanto em estudos com ovelhas Lacaune a procura por abrigos aumentou com frio e vento.
Ovelhas tosquiadas têm maior propensão a procurar abrigo, e esse fato leva a uma adaptação no manejo, tosquiando as ovelhas 6 a 8 semanas antes do parto. Nos Estados Unidos, tem sido observado também que ovelhas tosquiadas antes do parto são mães mais atentas, além da tosquia diminuir o espaço necessário por ovelha confinada. Porém não devemos esquecer que tosquiar o rebanho 2 vezes ao ano apresenta um acréscimo na mão de obra e redução no crescimento da lã, com perda de seu valor.
Caso as ovelhas estejam confinadas em baias, provavelmente irão procurar os cantos para parir.
Comportamento durante o parto
A parição pode ocorrer a qualquer hora do dia ou da noite, porém resultados de pesquisas demonstraram que há uma concentração dos partos em alguns horários, como das 09:00 da manhã até o meio dia e das 15:00 às 18:00. Alguns estudos também encontraram relação entre as parições e a hora do trato, demonstrando que quando o trato é oferecido de manhã, as parições se concentraram mais no período noturno.
Conforme o parto se aproxima, a ovelha fica inquieta, começa a caminhar em círculos, vocaliza e abaixa-se e levanta-se repetidamente. Geralmente esse comportamento ocorre 60 a 90 minutos antes do parto, e algumas ovelhas nem demonstram todos eles. A ruminação e apreensão de alimentos geralmente cessam, e esse período de inquietação é menor em ovelhas mais velhas.
Algumas ovelhas podem apresentar interesse em cordeiros neonatos nas duas semanas que antecedem o parto, chegando em alguns casos a 21% de casos, porém geralmente as taxas de "furto" de cordeiro variam de 0-2,2% em ovelhas mais velhas até 10-15% em borregas primíparas. Em um estudo, metade das ovelhas que roubaram outro cordeiro no pré parto abandonaram seu próprio cordeiro após o parto.
O trabalho de parto em si é curto, geralmente leva menos de uma hora após a primeira protusão. Ovelhas de primeiro parto podem passar de uma hora de trabalho de parto, e ovelhas mais velhas podem encurtar por até meia hora.
Caso o parto esteja demorando mais de uma hora em ovelhas maduras ou mais de 2 horas nas borregas, geralmente é necessário intervir. Elas normalmente deitam nas últimas horas do parto, mas podem ficar em pé no momento da saída do cordeiro.
Outro comportamento típico, que serve para manter a ovelha próxima ao local de parição é o interesse delas pelo líquido amniótico que sai de sua vagina. Constantemente elas cheiram e lambem esse fluido. Um trabalho levantou que essa atração pelo "ninho" pode ser suficientemente forte para mantê-la no local mesmo se o cordeiro é retirado de lá.
Esse fato tem uma grande implicação no manejo, levando-nos a evitar qualquer manejo que faça com que o cordeiro saia de perto da mãe nas primeiras horas pós parto.
Referências bibliográficas
Gill, Warren - Applied Sheep Behavior - Agricultural Extension Service , The University of Tennessee
Fernandes, Simone - Comportamento Materno - O Ovelheiro - nº92, janeiro/fevereiro, 2008.
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Material escrito por:
Déborah Assis Barbosa
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Gente preciso de um ajuda de vocês da farmpoint, tive até hoje 5 parições sendo 3 parições foram normais e 1 com feto morto gemeos e outra com feito morto porém a matriz está otima .Ambos animais com otimo escore corporal.
O que será que está acontecendo?o sistema é semi confinamento, durante o dia pasto e a noite concentrado de cevada e mineralização.
abraço a todos

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 30/06/2011
Não vejo como o fornecimento do milho ao reprodutor poderia inibir a monta nas ovelhas, a menos que esteja sendo dado em grandes quantidades e em dietas desbalanceadas e causando distúrbios metabólicos como acidose ou urolitíase (cálculo urinário), ou se o carneiro estiver obeso.
Um abraço,
Déborah

RIO GRANDE DO SUL
EM 30/06/2011

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 29/10/2008
Aparentemente a tosquia pré parto tem dado resultados positivos, como citado em carta do Prof. Luiz A. O. Ribeiro. Isso provavelmente porque a tosquia funciona como um flushing, ou seja, a ovelha aumenta a ingestão de alimentos e acaba engordando, na tentativa de termorregulação - o que aumenta o peso do cordeiro ao nascer, além de levar a fêmea a procurar abrigo na hora do parto.
Acredito que a tosquia apenas da cabeça da ovelha seja para facilitar o contato visual com o cordeiro, e não uma forma de forçá-la a procurar abrigo.
Um abraço,

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 29/10/2008
Alguma situação de stress durante ou logo após o parto, como presença de cães ou outros predadores, ou até mesmo humanos, manejo incorreto do pós parto ou até mesmo um início de mastite, podem ser algumas das causas, além da desnutrição ou doença, entre outras, que levam uma ovelha a rejeitar a cria.
Procure verificar se nenhuma dessas situações ocorreu!
Um grande abraço,

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 29/10/2008
Realmente conseguimos entender os comportamentos atuais dos animais quando olhamos para a vida selvagem! E conseguimos melhorar e viabilizar as condições da atividade com pesquisas como essa sobre a Mortalidade Perinatal dos Cordeiros
No caso da tosquia pré parto acredito que é realmente por aí... a ovelha tosquiada sente mais frio, então tem que procurar um abrigo na hora da parição, o que acaba sendo benéfico para a cria!
Muito interessante essa troca de informações que o site possibilita!
Agradeço a participação de todos!

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE
EM 01/10/2008