Um estudo realizado na Austrália com 66 fazendas analisou a relação entre o comportamento, produção de leite e taxa de concepção de vacas em função do tratamento e atitudes dispensados pelas pessoas que lidavam com elas. O objetivo foi verificar se tratar bem os animais de fato gera benefícios a ponto deste item ser considerado no treinamento dos funcionários.
O sistema de produção das 66 fazendas era o pastejo extensivo, com parto estacional no inverno, com 2 ordenhas diárias. Nestas 66 fazendas, foram avaliados 129 funcionários ao todo. As vacas eram predominantemente holandesas. Os locais-chave para observação do comportamento dos animais foram a sala de ordenha e um piquete experimental.
Os dados mostraram alguns resultados interessantes. Em primeiro lugar, a atitude positiva dos funcionários perante à atividade foi negativamente correlacionada com a percepção, por parte destes funcionários, quanto à necessidade de intervenções mais brutas junto aos animais (r = -0.27, P < 0,01), ou seja, pessoas mais positivas acreditavam serem necessárias menos intervenções forçosas para lidar com os animais (cutucar com força, gritar, etc) e, conseqüentemente, utilizavam menos intervenções. Já pessoas mais negativas entendiam que era necessário certa brutalidade para lidar com os animais.
Também, o número de intervenções forçosas foi negativamente correlacionado com a % de vacas aproximando-se 1 m ou menos das pessoas (r = -0.27, P < 0,05). Isto quer dizer que vacas que permitem maior aproximação exigem menos intervenção.
Apesar de não ter sido estatisticamente significativo, houve uma tendência de existir relação entre medo e produtividade: vacas que permitem maior aproximação (1 m foi o padrão) tendem a produzir mais leite.
Porém, mais importante foi a constatação de que o número de interações negativas entre as pessoas e as vacas afetou significativamente a produção de leite, gordura e proteína (r = -0.36, -0.35, -0.33, respectivamente, P < 0,01) e teve relação direta com a concentração de cortisol no leite (r = 0.34, P < 0,01), um indicador de estresse. O alto teor de cortisol pode resultar em aumento da concentração de células somáticas.
Um outro dado chamou a atenção neste trabalho. A % de vacas que permitem aproximação a 3 m foi relacionada com a taxa de concepção à primeira inseminação (r = 0.38, P < 0,01).
O comportamento humano foi responsável por 13 e 14% das variações encontradas na produção de leite e taxa de concepção, respectivamente.
Os autores admitem, porém, que não foi comprovada a relação causal de medo:produtividade, uma vez que não houve correlação estatisticamente significativa entre a aproximação das vacas e a produção de leite, embora tenha havido correlação entre produção de leite e o número de intervenções negativas. Ainda, argumentam que, para alterar o comportamento das pessoas, é preciso alterar a maneira como encaram a atividade e o seu trabalho com as vacas. Por fim, colocam que as observações foram relativamente empíricas, sendo necessários mais trabalhos para comprovação.
Comentário MilkPoint: é importante considerar que este trabalho foi realizado em um sistema de produção no qual o contato com os animais é relativamente baixo. Em sistemas confinados ou com 3 ordenhas diárias, o contato tende a ser maior e, portanto, os efeitos da interação homem:animal tendem a ser maiores, especialmente quando a produção de leite é maior (a média de produção por lactação/ano neste experimento foi 5142 kg). Também, fica a indagação sobre os efeitos desta interação em animais menos dóceis, como os nossos mestiços. Será que são ainda mais sensíveis a maus tratos ? Desta forma, uma hipótese interessante a ser testada é o efeito das atitudes das pessoas no comportamento e na produtividade destes animais. De qualquer forma, este trabalho é mais uma prova de que é possível melhorar a eficiência de produção e reprodução sem práticas que oneram significativamente a exploração.
fonte: Hemsworth, P.H.; Coleman, G.J.; Barnett, J.L.; Borg, S. Journal of Animal Science 2000, 78: 2821-2831.