Competitividade no agronegócio do leite: é preciso que cada macaco no seu galho faça sua parte
Comenta o que precisamos para nosso agronegócio do leite ser mais competitivo
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Voltando ao Brasil depois de 22 dias no exterior li no Milkpoint os artigos "Brasil deve ficar de fora da exportação de lácteos esse ano" e "CNA: alto custo de produção e importações são os vilões da pecuária leiteira", onde os seguintes pontos me chamaram a atenção:
1) Bruno Barcelos Lucchi, em audiência pública sobre a cadeia produtiva do leite na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado, apresentou estudo mostrando que o aumento do custo de produção e o crescimento das importações de leite e lácteos, e a falta de perspectivas de exportação face ao real muito valorizado no câmbio são os fatores responsáveis pela diminuição da renda dos produtores de leite nos últimos anos no Brasil, e que a elevação dos custos de produção sem ser acompanhada de aumento nos preços recebidos pelos produtores compromete a quantidade produzida. Bruno mostrou que a produção nacional de leite, depois do breve período de 2004 a 2008 onde a produção nacional foi suficiente para abastecer o mercado externo e ter algum saldo para exportar, voltou a apresentar deficit.
2) A preocupação com a redução oferta de leite no mercado interno é compartilhada por Laercio Barbosa, que disse que a importação de leite é uma "variável a ser monitorada" pois pode desestimular a produção e derrubar preços. Laercio, citando dados do CEPEA/Esalq, coloca o preço ao produtor no Brasil, de R$ 0,85/litro representa US$ 0,53/litro enquanto que na Nova Zelândia e Argentina estaria entre US$ 0,35 a US$ 0,40 por litro ( na minha avaliação mesmo corrigindo os preços para ser equivalente ao nosso teor de sólidos e CCS o que produtor receberia na Argentina ou Nova Zelândia não seria inferior a US$ 0,41/litro ).
3) Jacques Gontijo, da Itambé, avaliou que "em três a quatro anos, o Brasil não vai voltar a exportar".
Como tenho dito repetidamente em vários artigos, o Brasil é um País importador de leite: nos últimos 20 anos, descontado o saldo exportado no período de 2004 a 2008, importamos o equivalente a quase 30 bilhões de litros!
É evidente que essa situação revela uma politica leiteira completamente inadequada, resultando em falta de competitividade da nossa pecuária leiteira e da nossa indústria ( não é imaginável que possamos ter uma indústria altamente competitiva e uma pecuária leiteira com competitividade muito baixa, mesmo por que o desenvolvimento de seus fornecedores é fundamental para uma indústria competitiva ).
Nenhuma política pode ser melhor do que as premissas na qual ela se baseou. A nossa política leiteira não nos leva a ser competitivos por falta de premissas adequadas.
Uma premissa fundamental na política de uma cadeia produtiva é que cada elo tem que ser economicamente sustentável. Se hoje o preço pago ao produtor para que haja estimulo à produção for de R$ 0,85/litro, que hoje, com o Real supervalorizado face ao dólar ( câmbio de R$ 1,60/US$ ) representaria US$ 0,53, mas que eliminada essa sobrevalorização ( câmbio de R$ 2,10/US$ ) representaria US$ 0,40/litro. Para poder ter sustentabilidade recebendo US$ 0,40/litro ao câmbio atual da ordem de R$ 1,60/US$ produtor teria que receber R$ 0,25/litro, o que naturalmente é uma premissa inadequada e inviabilizaria a produção de leite no Brasil.
Não é uma premissa adequada colocar que o produtor de leite tenha que ser tão competitivo a ponto que compensar distorções cambiais que não tem nada a ver com sua atividade e sobre a qual não tem nenhuma ação. Cada Macaco no seu galho. As premissas relativas à questão cambial, para que a cadeia produtiva de leite e derivados seja competitiva, tem quer ser discutidas pela cadeia produtiva com o Governo.
Agora, se para sermos competitivos precisamos melhorar a produtividade e reduzir custos de produção, para que o preço ao produtor passe, por exemplo, de R$ 0,85/litro para 0,70/litro, sem reduzir a oferta de leite, as premissa adequadas envolvem viabilizar recursos para assistência técnica e investimento dos produtores, e certamente exigirão parcerias público-privadas envolvendo Governo, indústria e produtores.
Se para o mercado interno e para exporta precisamos melhorara a qualidade do leite precisamos que a indústria realmente pague de forma justa por qualidade do leite e proporcione o treinamento aos produtores e o Governo viabilize financiamentos com juros e prazos compatíveis com esse objetivo.
Para que sejamos competitivos para abastecer de leite e lácteos o mercado nacional e exportar, precisamos de política leiteira adequada, baseada em premissas adequadas e dentro do princípio de cada macaco no seu galho fazendo bem a sua parte, para que o todo seja competitivo. Se isso não acontecer o futuro será uma repetição do passado e continuaremos importando leite e assistindo outros assumirem no mercado mundial um papel que poderia ser nosso.
Marcello de Moura Campos Filho.
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CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 01/06/2011
Agradeço o comentário.
A cadeia existe e o que acontece é que o produtor não força na cadeia por que se omite, se aliena, não cobra de suas lideranças para que realmente representem seus interesses.
É evidente que não se pode pretender que o produtor de leite vá compensar uma situação cambial absurda, mas as colocações simplistas de representantes das indústrias convertendo preços ao produtor ao câmbio atual dão entender que esperam que o preço ao produtor em reais compensem essas distorções para poder exportar.
É por isso que o Brasil é um grande importador de leite a muitos anos, e assim deverá continuar, se as lideranças dos produtores não forem capazes de levar e resolver nossos reais problemas junto à cadeia produtiva e ao Governo, e os produtores aceitarem passivamente que essas lideranças os representem.
Se não temos voz junto à cadeia produtiva e ao Governo, é por nossa culpa, é por que produtor não percebe que precisa trabalhar um pouco da porteira para fora para se assegurar que suas lideranças vão representar seus legitimos interesses e possam agir para resolver seus problemas.
Abraço
Marcello de Moura Campos Filho

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 01/06/2011
como não existe cadeia de lácteos(existe , mas o produtor está de fora), a sua avaliação é perfeita, pois não podemos corrigir o problema de câmbio com nosso sangue e suor. O que está acontecendo é um abandono geral da atividade e o Brasil se tornará um dos maiores importadores de leite. E o governo não liga, pois com a venda de carne, soja e milho dá para importar os produtos da cesta básica(arroz, feijão e leite) e continuar com o assistencialismo para se perpetuarem no poder.
Abraço
Antônio Carlos

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 31/05/2011
Agradeço o comentário.
Realmente se cada macaco não ficar no seu galho e fazendo o que é preciso para acontecer uma hora a arvore cai e a macacada toda vai para o chão. Mas parece que a maioria das lideranças dos macacos daqui não percebe isso e macacos de fora vão tomar conta das nossas árvores.
Abraço
Marcello de Moura Campos Filho

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 31/05/2011
Tomo a liberdade de completar que além de outros assumirem o mercado mundial, já estamos vivendo o que os neozelandeses nos avisaram na decada de 80 - 90. Se você não fizerem, nós vamos fazer aqui no Brasil. E, o que vemos, primeiro a entrada de produtores neozelandeses para produzir no Brasil, depois uma joint-venture com a Nestlé e ultimamente as notícias que a Fonterra já adquiriu uma fazenda em Goias para iniciar produção própria ...
E, quando vamos para o governo ou instituição financeira para buscar recurso específico, não encontramos e sim, temos aos montes para o pequeno produtor (dito familiar) que sequer tem capacidade para crescer (e digo não desistimulando não, mas esse coitado não tem amparo para crescer e progredir na atividade), não passando de uma politicagem e voltamos ao antigo "voto de cabresto" - paro aqui para não despresar alguns.
Mas, é isso aí meu amigo ... cada macaco no seu galho, e fazendo acontecer, senão não vamos a lugar nenhum e, vamos novamente terminar numa macacada só ... e uma hora a árvore cai, pois os galhos não aguentam ...
Forte abraço,
Samuel Oliveira
(11) 9606 4370