Como caminharão os preços ao produtor?
Faz comentários sobre a demanda e oferta, bem como sobre o movimento da indústria para baixar os preços aos produtores no Brasil
Publicado por: MilkPoint
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Com o agravamento da situação econômica e de desemprego nos países desenvolvidos, especialmente os da zona do euro ocorrida no segundo trimestre, é de se esperar uma redução na demanda de lácteos nesses países, de certa forma compensada pelo crescimento da demanda nos países emergentes, onde qualquer aumento no consumo per capta representa um volume significativo pela elevada concentração da população mundial nesses países.
A minha avaliação é que no global a demanda mundial por lácteos continuará crescendo embora a taxa pequenas.
O comportamento dos preços aos produtores dependerá naturalmente do crescimento da oferta, que me parece que também será pequeno em função das incertezas da economia que desestimulam investimentos, dos custos de produção elevados e das próprias limitações dos preços aos produtores.
Assim creio que em termos do comércio mundial continuaremos a ver os preços oscilando numa gangorra, ora um pouco para cima, ora um pouco para baixo, em torno de um valor médio, como tem mostrado os leilões internacionais. Segundo o Robobank os preços devem ficar estáveis no terceiro trimestre, recuar um pouco no último semestre de 2012 com recuperação no primeiro trimestre de 2013.
No Brasil a indústria desde o começo do ano tem colocado que é preciso reduzir o preço aos produtores em função da redução das margens que tiveram, e pode haver um movimento nesse sentido no segundo semestre, mas se isso ocorrer não acredito seja sustentável pois:
1) A indústria perdeu margem para o varejo e não para os produtores;
2) A participação do produtor no preço final dos produtos ao consumidor praticamente não se alterou nos últimos 4 anos;
3) O custo dos insumos e da mão de obra para produzir leite está elevado;
4) A maioria dos produtores tem uma realidade de margem muito estreita ou enfrenta prejuízos.
Se uma indústria de automóveis está com margem pequena seria um despropósito querer, para elevar sua margem, reduzir os preços que paga aos seus fornecedores de aço, pneus, plásticos, etc, a menos que esses fornecedores estivessem com margens excessivamente elevadas. Despropósito semelhante é a indústria de lácteos querer reduzir o preço que paga a seus fornecedores de leite alegando que está com margem reduzida, quando está careca de saber que os produtores de leite tem margens menor que a indústria. A prova evidente que a produção de leite não é um negócio atrativo é que não se vê, por parte dos produtores grupos, se expandindo como se tem visto na indústria nos últimos anos.
O que a indústria de lácteos deve fazer, aliás como qualquer indústria, é concentrar sua produção em produtos onde não perca margem para o varejo ou lançar novos produtos onde possam mais margem.
Se no leite fluido a grande perda da indústria para o varejo foi no UHT que concentra cerca de 80% do mercado, por que não aumentar a produção de leite pasteurizado? Se perdera muita margem para o varejo no leite em pó, porque não aumentar a produção de queijo onde tiveram aumento da margem?
A Nestle lançou aqui o iogurte grego e a Vigor também colocará esse produto no mercado, e com certeza não estão fazendo isso para perder margem para o varejo, mas por estes produtos lhes possibilitarem maior margem.
Se não quisermos aumentar as importações de leite e lácteos e não perder espaço no mercado interno para a indústria de fora, é hora da indústria nacional ter seus fornecedores como parceiros e desenvolve-los para que possam produzir com preços mais baixos de forma sustentável economicamente, e parar de pensar que sempre pode resolver seus problemas simplesmente reduzindo preços aos produtores por estes serem a parte mais fraca da cadeia produtiva. Uma cadeia produtiva tem a força de seu elo mais fraco. Se os produtores são fracos a cadeia produtiva será fraca e perderá espaço para outras cadeias mais fortes.
Marcello de Moura Campos Filho
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BARBACENA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 25/07/2012
Sobre a alta da fim de 2011, não acredito que bem uma "generosidade" da Indústria. Todos trabalhavam com uma expectativa de um ano sem percalços financeiros, investiram pensando em aumentar a captação de leite e deu no que deu, uma crise de consumo.
O aumento do pasteurizado ao meu ver não deve começar com um investimento industrial, mas sim um com uma capacitação técnica dos produtores, via indústria ou não, que possibilite uma matéria prima de baixa contagem bacteriana em média nos caminhões que adentram as plataformas. Esse leite teria que ser captado diariamente, como aliás é uma tendência futura, refrigerado em boas condições de transporte.
Digo isso porque como você evidenciou, o pasteurizado não seria aquele barriga mole que fura, solta tinta do rótulo e fica todo melado nos frezzers, sujando as mãos dos consumidores, mas sim um produto com embalagem diferenciada, seja a garrafa de polietileno, tetra rex ou sacos de polietileno rígidos (base rígida tipo "maionese"). Essa evolução parte da indústria, mas ter um pasteurizado com Shelf Life de 10/12 dias como nos EUA, tem que partir do ganho de qualidade na matéria prima e isso afirmo com certeza, é o maior entrave.
O leite produzido no Brasil é extremamente desuniforme quanto a qualidade e padrões de produção. Para comprovar isso é só visitar todos os produtores de um laticínio para visualizar as discrepâncias.
Sobre o custo de produção Marcello, admito que tecnicamente não há muito mais a ser feito pelos produtores eficientes. Essa redução tem que partir de um programa de desoneração da cadeia como um todo. Vemos políticas isoladas de incentivos fiscais nos estados, muitas absurdas como acontece no RJ que incentiva a produção interna e onera a externa, mas não consegue anteder 20% do seu mercado consumidor com a sua produção. O todo da cadeia é cheio de insumos altamente tributados e as vezes até bi-tributados.
O cenário ideal seria uma desoneração nos insumos de produção primários: milho, soja, concentrado, minerais, medicamentos, material genético, energia dentre outros além da mão de obra rural que já está ficando escassa. Uma vez fiz uma estimativa meio grosseira mas que dá uma idéia da importância dessa desoneração. Estava em um bate papo com um produtor, pegamos um papel e uma caneta e simulamos essa desoneração que exemplifiquei acima.
Reduziria na realidade dele o custo de R$ 0,72 para R$ 0,6156, quase 15%. Na época, sem a crise de hoje, ele havia recebido R$ 0,80, um produto caro para os padrões mundiais. Na realidade que estimamos ele poderia ter recebido R$ 0,70, um preço que se não é competitivo pelo menos não permitiria a entrada de leite de fora.
Sobre a guerra fiscal, existe uma tendência cada vez mais clara de uniformização do ICMS. Porém o cenário ideal seria de ICMS 0, com certeza.
Abraço

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 23/07/2012
Continuação do comentário anterior:
No meu ver, salvo um breve período em que a situação cambial favoreceu a exportação, o Brasil a décadas é importador de leite. Para termos custo competitivo na pecuária de leite precisamos de uma indústria que seja realmente parceira dos produtores, que invista na capacitação e assistência técnica de seus fornecedores.
Penso que pelo que representa em termos de geração de trabalho e renda no interior deveria-se zerar o ICMS dos lácteos produzidos no País, o que acabaria com a famigerada guerra fiscal e favoreceria o aumento real da competitividade dos produtores e da indústria.
Concordo que precisamos urgentemente de unir lideranças da indústria e de produtores para formatar um projeto coerente para apresentar ao Governo, que possa tornar a nossa indústria e nossa pecuária leiteira competitivas para poder abastecer nosso grande mercado interno e nos tornar exportadores efetivos no contexto mundial.
Grande abraço
Marcelloi de Moura campos Filho

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 23/07/2012
Agradeço os comentários, muito pertinentes.
Penso que a partir do final de 2011 a indústria não aumentou o preço aos produtores num ato de generosidade . O preço na gôndola pode não ter aumentado, mas o volume comercializado deve ter aumentado, a oferta de leite cru crescido menos do que a demanda, levando a indústria na disputa pelo leite ter aumentado o preço aos produtores
Com relação a migração do leite UHT para o pasteurizado, concordo que não é uma ação simples de executar, e no meu ver a maior dificuldade é o atraso da indústria do leite pasteurizado. Os grandes mercados naturalmente tem interesse em vender leite, carne e pão, principalmente para não deixar fugir o consumidor para o varejo menor, e obviamente o leite barriga mole, em embalagem de 1 litro, é um entrave para o consumidor levar o produto.
Entendo ser um atraso a indústria de leite pasteurizado não ter desenvolvido uma embalagem melhor e, para manter o baixo custo de embalagem que é uma grande vantagem, para uma quantidade maior, por exemplo, 2,5 litros.
Agora mesmo, no episódio de terem banido o leite tipo B da IN 62, a reação da indústria de leite pasteurizado foi tênue, aceitando a re-inclusão mas por um prazo determinado. Se a ideia é ficar com apenas 2 tipos de leite pasteurizado, o tipo A processado na granja leiteira, e um outro processado na indústria, deveria se brigar para o produzido na indústria ser o tipo B, com uma associação de qualidade construída ao longo de anos, e não um leite que o público associará a um leite inferior. A indústria do leite pasteurizado deveria trabalhar para que o leite que produzisse tivesse a denominação de tipo B, produto de alta qualidade, diferenciado do A pelo local de beneficiamento.
É um absurdo que, num país de renda per capita limitado como o Brasil, praticamente 80% do leite fluido no Brasil seja UHT! Aumentar a participação do leite pasteurizado depende da indústria querer isso, isso modernizar, investir em plantas modernas para esse envase, melhorar a embalagem, melhorar a qualidade do leite que processam, Será que a maior margem que possam ter nesse produto não motiva a indústria para isso?
Continua no comentário seguinte
Marcello de Moura Campos Filho
BARBACENA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 23/07/2012
A questão não é somente a redução das margens das indústrias, mas sim da fatia comercial na cadeia. Parte desse redução se deu por um erro estratégico da própria indústria no final de 2011 em diante. Foi adotada uma estratégia em cadeia de aumentos especulativos de preços aos produtores uma vez que não houve qualquer reação nas gôndolas no mesmo período.
É bem claro que os custos de produção no campo estão altíssimos e essa não é uma realidade só do leite. O arrefecimento da economia européia tem causado grande redução de consumo, que na realidade do Agronegócio nacional temos cadeias produtivas até mais atingidas que o leite, como a suinocultura e agora mais recente a avicultura de corte.
Sobre a forma de produtos que o leite é rateado no nosso mercado, você evidencia que o ideal seria uma migração do UHT ao Pasteurizado. Concordo que essa saída promoveria uma quebra na concentração que se apresentou no varejo, mas não é uma ação simples de se executar. O consumidor tem optado por fazer suas compras em grandes mercados cada vez mais e esse fator dificultaria a migração da produção de volta ao pasteurizado. Ainda sobre esse assunto, as plantas industriais de envasamento de pasteurizado estão muito reduzidas, ultrapassadas e muitas já foram inclusive desativadas.
Os produtos especiais, como o iogurte grego, queijos finos dentre outros, dependem de grande fidelização às marcas mais famosas, como são a Nestlé e a Vigor e mesmo assim tem seus volumes muito reduzidos na participação total, principalmente nesse cenário de crise e alto endividamento da população onde são eleitas prioridades menos sofisticadas.
O Brasil precisa de um leite com custo e qualidade competitivos. Precisamos exportar leite e não mais importar, somos auto-suficientes em produção e toda vez que temos déficit na balança comercial de lácteos estamos trazendo excedentes para o nosso mercado, portanto uma oferta constantemente maior que a procura.
Interferências governamentais visando a redução na tributação dos lácteos entre estados (guerra do ICMS), redução na tributação dos insumos de produção principais, cotização de importação por produtos e por parceiro do mercosul e interferência tecnológica imediata visando um ganho de qualidade e uniformidade entre regiões do país, são mais que urgentes e precisam ser reivindicadas.
Assisti uma entrevista do Ministro Guido Mantega nesse sábado na Band, onde o mesmo diz que o governo está aberto a ouvir qualquer setor que tenha interesse em reduzir sua carga tributária e discutir suas questões fundamentais. Precisamos de lideranças como o senhor engajadas em aglutinar cabeças da indústria e dos produtores afim de formar um projeto coerente a ser apresentado para o governo.
Se isso não for feito, crises setoriais como essa que estamos passando se repetirão de tempo em tempo, com um intervalo cada vez menor entre uma crise e outra. Passamos por uma realidade de excesso constante: Produção/importação.
Cordial abraço,