A cetose é uma desordem metabólica que afeta vacas leiteiras de alta produtividade durante o período de transição. Essa condição é marcada por um desequilíbrio no metabolismo dos carboidratos e lipídios. A elevada exigência energética imposta pelo final da gestação e início da lactação, voltada para o crescimento fetal e a produção de leite, muitas vezes não é suprida pela ingestão alimentar, resultando em um estado de balanço energético negativo (BEN) e mobilização de reservas corporais de gordura para geração de energia. Quando esse quadro metabólico se intensifica, ocorrem alterações nos níveis de glicose no sangue e aumento da concentração de corpos cetônicos nos líquidos corporais, caracterizando um estado patológico (LEAN et al.,2022; FUTIA et al., 2023).
Durante o início da lactação, a vaca leiteira entra em um estado de balanço energético negativo (BEN). A produção de leite aumenta drasticamente, enquanto a ingestão alimentar é limitada, resultando na lipólise do tecido adiposo e liberação de ácidos graxos não esterificados (AGNE) no fígado (LEBLANC, 2010). O fígado, sobrecarregado, converte parte dos AGNE em corpos cetônicos — BHB, acetoacetato e acetona — utilizados como fontes alternativas de energia.
Quando a produção de corpos cetônicos excede a capacidade de sua utilização, ocorre hipercetonemia, caracterizando a cetose. Esta condição pode ser classificada como clínica ou subclínica.
- A forma clínica manifesta sintomas como anorexia, perda de peso, queda na produção leiteira, hálito cetônico e letargia.
- Já a forma subclínica não apresenta sinais evidentes, porém afeta negativamente o desempenho produtivo e reprodutivo (MULLIGAN; DOHERTY, 2008).
A cetose está associada ao aumento da incidência de outras doenças, como deslocamento de abomaso, retenção de placenta, metrite/endometrite, mastite, além de contribuir para atraso na concepção e aumento dos descartes (MARTINS; GUSTAVO; et al., 2023).
Diagnóstico
O diagnóstico pode ser clínico, baseado nos sinais observados, ou laboratorial, por meio da detecção de corpos cetônicos no leite, sangue ou urina.
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β-Hidroxibutirato (BHB) no sangue é o método mais preciso. Níveis superiores a 1,2 mmol/L indicam cetose subclínica, enquanto valores acima de 3,0 mmol/L indicam cetose clínica (OETZEL, 2007).
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Acetona no leite pode ser detectada por fitas reagentes ou analisadores automáticos.
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Nitroprussiato de sódio em tiras é utilizado para avaliar corpos cetônicos na urina, sendo mais acessível, mas menos específico.
O diagnóstico precoce é fundamental para evitar perdas produtivas e reprodutivas associadas à cetose (LEBLANC, 2010).
Prevenção
A prevenção da cetose começa no período seco, com manejo adequado da dieta da vaca em pré-parto. Estratégias incluem:
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Dieta controlada em energia no pré-parto (densidade energética moderada) para evitar o excesso de condição corporal;
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Suplementação com propilenoglicol no pré e pós-parto para fornecer energia de rápida utilização;
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Inclusão de fontes de glicose (milho moído fino, melaço) na dieta de vacas em lactação;
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Ração balanceada com adequado teor de fibra efetiva e proteína degradável para manter a saúde ruminal e produção de propionato.
Manter o Escore de Condição Corporal (ECC) entre 3,0 e 3,5 no pré-parto reduz o risco de mobilização excessiva de gordura. Animais muito magros ou muito gordos têm maior propensão à cetose.
A adoção de programas de monitoramento com análise de BHB em animais de alto risco (multíparas, com histórico de distúrbios) ajuda a detectar precocemente a cetose subclínica.
O tratamento da cetose clínica é sintomático e visa reverter a hipoglicemia com administração intravenosa de glicose (5.000 mL a 50%), renovação do fluido ruminal e uso de tranquilizantes em casos de excitação. A glicose oral deve ser evitada, pois é fermentada no rúmen, gerando compostos que agravam a cetose. O principal objetivo do tratamento é elevar os níveis de oxalacetato para estimular a gliconeogênese, o que pode ser feito com infusão oral de propilenoglicol (PG) ou glicerol via sonda ruminal. (GONZÁLEZ; CORRÊA; da SILVA, 2014; BONADIMAN, 2018).
Considerações finais
A cetose bovina continua sendo um dos principais desafios metabólicos na bovinocultura leiteira intensiva. Seu impacto é significativo sobre a produção de leite, a fertilidade e a longevidade das vacas no rebanho. Estratégias de prevenção baseadas no manejo nutricional adequado, monitoramento metabólico e diagnóstico precoce são fundamentais para minimizar os prejuízos associados. O sucesso na mitigação da cetose depende de ações integradas entre o técnico responsável e o produtor, com foco na saúde e bem-estar do animal.
Referências bibliográficas
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