Câmbio faz o leite argentino ser competitivo

Peso argentino vale 22% do que valia em janeiro de 2000 (comparado ao real) e torna leite argentino competitivo no Brasil.

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Não é a diferença entre as eficiências produtivas dos setores lácteos argentino e brasileiro que explica a recente enxurrada de leite “hermano” no mercado brasileiro. O que explica é o câmbio. Com câmbio equilibrado, neutro, natural, o leite argentino estaria mais caro que o leite brasileiro. Cheguei a esta constatação lançando mão do Índice Big Mac, em substituição ao câmbio oficial.

Houve um tempo em que as moedas de todos os países eram conversíveis em ouro, numa proporção específica. Atualmente, os Bancos Centrais podem emitir ou retirar moeda de circulação em função de seus interesses e não em função da disponibilidade de ouro em depósito. Antes, não podiam. Atualmente, questões pessoais de governantes podem interferir na cotação da moeda. Por exemplo, situações íntimas vividas pelo então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, com uma estagiária, levaram à desvalorização da moeda americana, que interferiu na competitividade em todo mundo. Portanto, hoje moeda é um ativo, uma commodity, que tem cotação variável em função da sua oferta e demanda, e que recebe forte impacto de fatores especulativos e também de expectativas quanto ao futuro. Por conseqüência, a paridade de uma moeda em relação às demais interfere profundamente na competitividade e na vida de todos.

Hoje é mais difícil estabelecer quais seriam as taxas de câmbio naturais, de equilíbrio de uma economia, pois não temos mais a conversibilidade com o ouro. É aí que surge o índice Big Mac. Os economistas acreditam que, na ausência de barreiras ao comércio, sem subsídios e impostos, um produto terá o mesmo preço em diferentes mercados. O hambúrguer Big Mac é um produto que resulta da participação das cadeias produtivas do pão, da carne, do alface, do queijo. Também recebe impacto dos mercados da mão-de-obra e de gerência, publicidade, imóveis, transporte, energia, dentre outros. Portanto, sofre influência de diferentes preços reais da economia do país em que é produzido. Além disso, o Big Mac é produzido em mais de 120 países, com a mesma formulação. Na prática, ouro é ouro em qualquer lugar, não é mesmo? Big Mac, também. Logo, você concorda que o Big Mac pode substituir o ouro na conversibilidade das moedas?

A conceituada revista inglesa The Economist todo ano divulga o Índice Big Mac, que é o preço desse hambúrguer em diferentes países, em Dólar americano, comparado com o seu preço nos Estados Unidos. Se o preço é maior que nos Estados Unidos, a moeda daquele país está sobrevalorizada. Se é menor, está depreciada. O índice Big Mac, então, permite você fazer a conversão da moeda pelo valor de um Big Mac e não pela cotação do Banco Central.

O jornal argentino “La Nacion” divulgou que os produtores de leite estariam irados, ameaçando greve, ávidos por receber US$ 0,44 por litro de leite. No último dia 22 de julho o Dólar Americano estava cotado a R$ 1,5547. Portanto, o produtor argentino deseja receber R$ 0,6841 por litro de leite, de acordo com o câmbio oficial. Então, vamos adotar o índice Big Mac para verificar se a paridade da moeda brasileira frente ao dólar está correta. É provável que nas próximas semanas a revista The Economist divulgue o Índice Big Mac 2011. Enquanto isso não ocorre, vamos considerar os dados de 2010. Um Big Mac custava US$ 4,91 no Brasil e US$ 3,73 nos Estados Unidos. Logo, a moeda brasileira estaria 31,6% sobrevalorizada em relação ao dólar. Voltando ao preço do leite argentino ao produtor, o correto seria considerar que, em Real, os US$ 0,44 valem R$ 0,9002 (=R$ 0,6841 X 1,316), que é o valor em Dólar convertido para Real, ajustado pela valorização espúria do câmbio, tendo por base o Índice Big Mac.

Então, a este preço, o leite argentino está mais caro na porteira que o leite brasileiro posto no laticínio, já que, de acordo com o Cepea, o preço do leite ao produtor está em R$ 0,8645, incluso frete e funrural. Portanto, está incorreto o discurso daqueles que tem dito que a avalanche de leite argentino que tem chegado ao Brasil é resultante da ineficiência dos produtores brasileiros. Não conheço nenhuma mudança estrutural que tenha melhorado significativamente a eficiência produtiva argentina nos últimos anos. Ao contrário, mudanças em curso estão acontecendo é do lado de cá. Mas, o que mudou mesmo, foi a cotação da nossa moeda frente ao Dólar e à deles, com repercussões perversas na competitividade da cadeia do leite.

Outro dia, revendo um livro que publiquei em 2003, encontrei um registro muito oportuno. Quando tivemos uma desvalorização cambial de quase 40% em 1999, os argentinos não nos perdoaram e adotaram medidas compensatórias contra o nosso ganho de competitividade via câmbio. Ocorre que, naquele momento, a desvalorização foi feita pelo mercado, para corrigir falhas de governo. Refiro-me à desastrosa passagem de Chico Lopes pela presidência do Banco Central e a sua “banda cambial administrada”, lembra? Agora, veja o gráfico a seguir. Ele mostra o valor do Peso argentino frente ao Real. Atualmente, o Peso vale 21,9% do que valia em janeiro de 2000. Nossa moeda está artificialmente valorizada em relação à deles. Estamos distante do ponto de equilíbrio. Isso torna artificialmente barato os bens e serviços argentinos. Faz um final de semana em Buenos Aires mais barato que em São Paulo, Fortaleza ou Recife. Faz, também, nosso leite ficar artificialmente mais caro. E ainda tem brasileiro declamando a eficiência da produção argentina...
Figura 1Figura 2
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Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 31/07/2011

Caro Guilherme,

Creio que mão-de-obra não é decisivo para a tomada de decisões em empreendimentos rurais.
Guilherme Alves de Mello Franco
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 31/07/2011

Prezados Paulo e Mário Sérgio: Quando cabeças inteligentes se juntam para uma análise profunda, o resultado é este mesmo - ganha toda a estrutura. Assim, a troca de informações entre vocês - expoentes nesta seara - é de capital importância para nós, produtores, que queremos entender a situação em que vivemos e produzimos neste território nacional. Com relação à mão de obra, a única maneira de levar a mesma em consideração, quando se trata de mercados internacionais, reside em situações como as dos neozelandeses, que possuem projetos de produção leiteira espalhados pelo mundo e que, portanto, navegam por diversas legislações trabalhistas e por díspares condições mercadológicas de utilização da força de trabalho. Por isso, entendo que, em alguns casos, esta exportação de projetos para outras terras globais - mormente no que pertine à América do Sul - leva em conta, também, o preço deste implemento. Note-se que, em território próprio, a utilização de mão de obra alheia à estrutura familiar é bastante limitada, eis que cara e difícil de ser encontrada, o que é um forte limitante à expansão da produção da Nova Zelândia. Daí entendermos o interesse, por exemplo, da Fronterra em produzir na China, onde a população ativa encontra-se ociosa, face ao grande número de habitantes, o que barateia seu custo, abstraída desta consideração o problema do mercado emergente que, por óbvio, também representa objeto de estudo. Com uma das mãos de obra mais baratas do mundo, o Brasil é a "menina dos olhos" dos grandes investidores internacionais, não só em relação ao leite, mas, também, nas outras modalidades de produção em larga escala, como o é a indústria automobilística. Veja o caso da Daymler Chysler, em Juiz de Fora, Paulo, que, de vinte em vinte anos, ameaça cerrar suas portas e consegue subsídio de impostos para outros vinte. O grosso da mão de obra sem especialização é brasileira, mesmo com a nossa legislação obreira protecionista que conhecemos, porque, ainda que em grau de penalização judicial, sai mais barato contratar trabalhadores domésticos do que pagar o preço europeu pelo exercício profissional prestado. Por tais fatores é que entendemos, "verbis gratia", o elevado gasto da "Leitíssimo" em infraestrutura (escolas, energia, estradas) na Bahia: os fins justificam os meios e fixar o homem no campo é um dos mais capitais, apesar da baixa produção individual do rebanho.
Um abraço,


GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 30/07/2011

Prezad Mário,

Estarei aguardando com ansiedade seu trabalho.
Mário Sérgio Ferreira Zoni
MÁRIO SÉRGIO FERREIRA ZONI

PONTA GROSSA - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 30/07/2011

Caro Paulo

Assim que terminarmos a tabulação disponibilizarei o material para o Milkpoint. Esta iniciativa surgiu pelo mesmo motivo que você escreveu o artigo, ou seja, a pecha de suposta ineficiência brasileira frente aos vizinhos.

Antes que perguntem o porquê da não inclusão do Farelo de Soja na avaliação, isto se deveu a características peculiares de cada país, já que a Argentina prefere trabalhar com pellets de Soja moída, e o Chile praticamente importar todo o seu Farelo da Argentina.
Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 30/07/2011

Caro Guilherme,

Quando tivemos tabelamento, o produtor não se viu forçado a evoluir. Não vejo condições de subsidiar e, ao mesmo tempo, o produtor e indústria se tornar mais responsável. Temos que estar expostos à competição para continuarmos a melhorar a eficiência do setor. Sou favorável à adoção de uma política compensatória e temporária com a Argentina e nda mais que isso. E não é pouca coisa. Com o superavit comercial que temos acumulado em relação a este país, e com o quadro de tecnicos que temos nos ministérios da fazenda e Indústria e Comércio brasileiros, que tradicionalmente não conhecem e são pouco sensíveis ao agronegócio, temo que até esta cota seja difícil de ser mantida enquanto vigorar esta situação perversa do câmbio, situação que não mostra luz no fundo do túnel.
Guilherme Alves de Mello Franco
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/07/2011

Prezado Paulo: Mas você não acha que, do jeito que está, nós não poderemos competir, nunca, com o leite subsidiado de outros Países, a nivel internacional, e o nosso crescimento produtivo vai muito lento em relação a eles, a ponto de inviabilizar a ideia de sermos um Estado exportador em larga escala, como hoje o é a Nova Zelândia, melhorando, assim, toda a nossa cadeia produtiva?
É evidente que todo este apoio, todavia, de nada nos serviria se não houver, em paralelo, uma modificação de mentalidade do produtor, que tem que se voltar, de forma indene de dúvidas, para a qualidade do leite, aplicando técnicas rigorosas de higiene, posto que, se assim não for, o produto será rejeitado pela comunidade internacional, muito mais exigente, em tudo, que o mercado doméstico. Por isso, a implantação - já muito tardia - da Instrução Normativa 51, é de capital importância no cenário escolhido para este quadro e dela depende nosso futuro como produtores, a todos os níveis. Por lado outro, os laticínios têm que ser fiscalizados, com rigor hoje inexistente, para que não possam aproveitar, como tem sido até então, o leite desprovido de condições mínimas de higiene, deixar, finalmente, o famigerado latão de lado (a falta de fiscalização do setor é tão grande, que aqui, em nossa região, o imprestável leite quente ainda circula livremente pelas estradas, sem quaisquer pudores, você bem o sabe) e passar a ter uma análise muito mais confiável deste leite, com a ajuda inestimável da EMBRAPA, como já se anuncia, tanto na coleta das amostras - que hoje é realizada pelos caminhoneiros e por pessoas, em regra, despreparadas para o ato, quanto na realização.das análises, tal como ocorrre com o "Laboratório do Leite", experiência interessante que leva ao campo todo o procedimento, sem riscos de contaminação das amostragens, o mais grave de todos os percalços do atual sistema (a oscilação de resultados é o grande entrave na lisura e na confiança do produtor em relação ao procedimento. Eu mesmo estou começando a fazer um trabalho paralelo - análise própria, já que minhas taxas sempre são baixas - muito inferiores, até mesmo, às exigidas pela Normativa, mas há meses em que os valores aparecem bastante alterados, sem que haja nenhuma modificação no manejo ou explicação técnica para tanto, o que gera uma insegurança, vinda, com certeza, da coleta irregular das amostras).
Alie-se a este estado de coisas, a necessidade, em contrapartida, de uma remuneração mais aguda relativa ao leite de qualidade, gerando um diferencial tamanho que seja muito mais auspicioso produzir com ela do que ao leite sem condições técnicas de consumo (cabe aqui mais um parênteses - sou favorável à punição, com perdas de valores, para aqueles que produzem sem qualquer norma de higiene e controle sanitário de rebanho, porque não é justo nem pedagógico, manter. nos mesmos patamares, o que faze a lição de casa e o que não faz).
Um abraço,

GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 30/07/2011

Prezado Mário,

Você escolheu corretamente as variáveis. Para se fazer comparações internacionais sobre competitividade, o correto é esclher produtos "tradables" ou seja, que sejam trasacionados no mercado internacional, o que ocorre com milho, leite e diesel. Mão-de-obra é "non-tradable", ou seja, não pode ser efetivamente comparável, pois eu não tenho chance de subsitituir a mão-de-obra do meu país, se ela for mais cara, pela do vizinho. Isso vale também para construções.

Quando seu trabalho estiver pronto, se não for confidencial, gostaria muito de ter acesso ao seu conteúdo. Também lhe encorajo a reproduzi-lo, pelo menos em parte, aqui neste portal.
Mário Sérgio Ferreira Zoni
MÁRIO SÉRGIO FERREIRA ZONI

PONTA GROSSA - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 30/07/2011

Bom dia Paulo

Parabéns pelo artigo e pelas considerações sempre tão pertinentes.

Estou envolvido em um trabalho junto com profissionais da Argentina, Uruguay e Chile no sentido de estabelecer paramêtros pertinentes de comparação entre custos de produção para um litro de Leite.

Optamos por três parâmetros comparativos que são:

Kg de Milho Moído/Litro de Leite
Litros de Leite/Litro de Diesel
Litros de Leite/Kw de energia

Os números atuais da argentina apontam um custo de produção baseado no COE de $ 1,25 pesos para um preço de venda ao redor de $ 1,60. A relação de troca atual está em :

2 Kg de milho moído/Litro de Leite
2,3 Litros de Leite/Litro de Diesel

Ou seja os custos para produzir possuem a mesma relação de troca que a do Brasil, comprovando o impacto das distorções do câmbio no relativo folego de nossos vizinhos.
Outros indicadores que poderiam ser interessante como força de trabalho, custo de prestadores de serviços não tem como ser extrapolados devido as disparidades entre as legislações trabalhistas e fiscais, já que possuímos a pior relação trabalhista e a maior carga fiscal entre os países comparados.

Abraços

Mário Sérgio Zoni
Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 29/07/2011

Guilherme,

Neste mês de julho completamos 21 anos sem Governo internferindo em tudo que diga respeito ao leite. E o balanço é favorável. Somente quando o Governo se afastou é que o setor cresceu. Trazer de volta o Governo é risco certo. Começa protegendo e termina punindo...
Guilherme Alves de Mello Franco
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/07/2011

Prezado Paulo: O "post" anterior foi repetido. Desculpe-me. A tentativa de impor uma reserva de mercado, como a que atualmente limita a importação de leite em pó a 40 mil toneladas, em relação à Argentina, somente aconteceu depois de muita batalha e, a meu ver, foi ineficiente porque escorregou pelas esferas políticas que a minimizaram, quando deveria ser imposta, em primeiro plano, a absorção do potencial produtivo nacional para, somente depois, permitir a importação, apenas do que não for coberto pela produção doméstica, evitando-se, com isto, a queda do valor interno ao produtor. Mas, a tradição petista de política externa, que prima pelo jogo de cintura no sentido de não desagradar a ninguém, a não ser ao cidadão brasileiro, evitou este estado de coisas e o limite restringe a adoção de um preço justo ao que aqui se dedica à produção de leite. Nossa imagem no exterior é ótima, mas entre os membros da sociedade brasileira produtora, nula. Se não houver mudanças, a zona cinzenta, em que nos encontramos imersos, não se dissipará nunca.
Um abraço,


GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 29/07/2011

Prezado Guilherme,

Não precisamos de subsídios, a meu ver. Temos melhorado nossa eficiência ao correr dos anos. O que precisamos é de políticas compensatórias, como a manutenção dos patamares de 40 mil toneladas como volume máximo de leite em pó que anualmente a Argentina pode exportar para o Brasil e que está vencendo nestes dias.
Guilherme Alves de Mello Franco
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/07/2011

Prezado Paulo: Você não acha que está na hora de, na esteira dos grandes produtores mundiais de leite, o Governo brasileiro iniciar à subsidiar ao produtor nacional, fazendo com que o nosso produto não sofra tanto com as oscilações mercadológicas e o incentivo à produção seja maior?
Um abraço,


GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 29/07/2011

Caro Walter,

Você uma análise muito precisa. Quando temos a moeda nacional valorizada, na prática estamos taxando a produção interna e subsidiando a produção externa. A soja fica mais barata para os que nos compram, o que dá competitividade às cadeias produtivas que dela dependem. Por outro lado, os insumos estrangeiros que importamos chega aqui mais caro, reduzindo a competitividade das cadeias que as utilizam.

Bons tempos aqueles que tínhamos Dólar a R$ 2,30. Com esse valor, fatalmente voltaríamos a ser exportadores de leite. Mas, não sou favorável às medidas que foram adotadas na Argentina, proibindo exportações. No longo prazo, isso desestimula os produtores, que ficam com o sentimento de estarem sendo roubados". Quanto a adoção de medidas compensatórias, creio ser o melhor caminho.
Walter Jark Flho
WALTER JARK FLHO

SANTO ANTÔNIO DA PLATINA - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 29/07/2011

Prezado Paulo ! Permita-me fazer uma reflexão baseado no seu artigo. Pelo índice Big-Mac ( pelo menos tenho lido ) o valor de 1 dolar deveria ser de R$ 2,30 . Como consequencia,nossos produtos de exportação seriam valorizados . A soja não valeria
R$ 40,00 (cambio atual ) e sim em torno de R$60,00. O mesmo cálculo valeria para o milho . De R$25,00 (cambio atual ) 0 exportador receberia R$ 48,00 . No caminho da volta ,como nossos principais insumos como fertilizante são importados haveria um aumento nos custos de produção. A meu ver ,no momento atual, como não somos grandes exportadores o grande problema é a entrada de produtos da Argentina e Uruguai paises com os quais não podemos competir no câmbio atual .Este problema , se o governo quizer pode resolver com cotas e taxas de importação. A pergunta que faço é: Será que continuaremos tão competitivos se a soja ,o milho, principais componentes de ração (não só para as vacas ) forem exportados com o nosso real valendo R$2.30 por 1 dolar ? Acredito , e ai só um economista para ajudar a esclarecer,
que poderia acontecer aqui , o que aconteceu na Argentina ,com governo taxando fortemente as exportações, para evitar um aumento muito grande dos alimentos aqui dentro. É evidente ,por não ser economista, que é uma reflexão simplista . Por isso gostaria de ouvir tua opinião .O que pode acontecer se o real for valorizado pelo índice do Big-Mac .
Walter
Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 29/07/2011

Olá Guilherme,

Estou ciente de sua condição de produtor eficiente. Procurei registrar que, na Zona da Mata e Vertentes os preços pagos são menores e os custos são maiores que as regiões Central, Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, todas em MG. Isso significa que é provável que você teria melhor margem se estivesse nestas regiões.
Guilherme Alves de Mello Franco
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/07/2011

Prezado conterrâneo Paulo Martins: A situação dos produtores de leite da Zona da Mata e Vertentes, de Minas gerais, tem sido preocupante. Mas, creio que, para os melhores organizados (nos quais, ouso incluir-me), temos a possibilidade, pelo grande volume produzido (mais de 1500 litros/dia), bem como, pela qualidade do produto, de manter, através de contratos de preço mínimo, nosso valor um pouco estável e acima das maiores médias nacionais (ou, pelo menos, nelas). Com relação aos demais, temo que a situação tenha sido deixada em nível de desespero e desesperança. Quanto aos custos, pelo menos para os organizados, estes têm sido mantidos em patamares razoáveis, ante a busca de componentes alimentares em outras regiões, a preços menores, e à contabilidade enxuta ao extremo que mantemos dentro de nossas porteiras. Mas, ainda assim, como você mesmo disse, há meses em que isto não é nada fácil e o esforço torna-se hercúleo. Mas, pelo menos, temos logrado êxito, o que serve de alento, embora não nos seja possível ficar ricos com a atividade, mas sem prejuízos.
Um abraço,

GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 28/07/2011

Olá Guilherme,

Minha principal motivação para escrever esse artigo foi o fato de estar começando a ouvir com muita frequência que o produtor de leite brasileiro é ineficiente, quando o problema maior está fora do setor. Fico imaginando você e os produtores da Zona da Mata e Vertentes, que tem o custo mais elevado e o preço menor que as médias brasileiras, que esforço têm de fazer para se manterem competitivos.
Guilherme Alves de Mello Franco
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/07/2011

Prezado conterrâneo Paulo Martins: Usando seu excelente (como de praxe) artigo, apenas em paralelo, a valorização de nossa moeda frente ao dólar, extremamente artificial, gera um verdadeiro caos no agronegócio brasileiro, principalmente, na produção de leite, eis que nosso produto, enriquecido com a roupagem blindada da "moeda forte", passa a ser visto, internacionalmente, como caro. Assim, os volumes exportados são, cada vez mais, reduzidos e o leite de outros lugares - como, por exemplo, da Argentina - passa a ser mais atrativo que o nosso, até mesmo para os laticínios domésticos. Isto é um desastre, que se anuncia anualmente, toda vez que o câmbio da moeda americana desce a ladeira em relação à nossa. Por isso, a enxurrada de leite alienígena em nosso mercado, baixando o valor do produto interno e decepando o futuro do pequeno e do médio produtor, que não pode, com isto, manter as contas em dia. Alie-se a isto, ainda, o preço das commodities da soja e do milho, utilizados em grande escala na alimentação do rebanho brasileiro, que ampliam seus valores no mercado internacional e causam falência múltipla de órgãos na pecuária leiteira nacional. Somos heróis, caro amigo, teimosos ao tentar sobreviver neste ambiente ácido e pouco convidativo.
Parabéns pela análise tão segura e consciente do mercado.
Um abraço,


GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 28/07/2011

Olá Wilson,

O Dr. Eliseu Alves, ex-presidente da Embrapa, é daqueles que eu aprendo sempre quando o ouço. Neste 27/07 participei de um painel com ele num evento tecnico-científico, aí mesmo na sua terra, em Belo Horizonte, em que ele tocou nesta questão da rentabilidade. Ele entende que os empréstimos dados aos produtores de leite descapitalizam o produtor, pois o prazo e o juro cobrado não permitem que o empréstimo seja pago pelo próprio investimento. Um exemplo que ele dá é trator. Se a previsar é de durar pelo menos 20 anos, o prazo para pagar deveria ser 20 anos.
Wilson Mendes Ruas
WILSON MENDES RUAS

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 28/07/2011

Dr. Paulo Martins, parabens por este artigo, pela sua abrangência e pela clareza com que aborda um tema tão complexo. Sou produtor de leite de vaca há mais de 12 anos e
penso seriamente, em abondanar a atividade, exatamente por esses desequilíbrios. O produtor de leite no Brasil é visto como incompetente, quando na realidade ele paga o preço de uma política cambial altamente desfavorável à sua atividade. Veja o absudo; hoje não estamos tendo condições de competir, internamente, com o produto externo, como bem mostra o seu artigo. Nossas propriedades estão sucateadas, pois não temos condições, até mesmo fazer investimentos em recuperação de pastagens, quando o setor exige investimentos em tecnologias para melhorar a produção. Hoje em nosso País, existe uma grande quantidade de médio produtor, que ordenha as vacas, manualmente, enquanto esse procedimento é predominante entre os pequenos produtores. Não por falta de linha de crédito e sim por falta de geração de receitas suficientes para honrar esses compromissos financeiros. Foi lançado pelo Governo uma linha de crédito para compra de matrizes, exatamente para contrapor o gerande volume de fêmeas abatidas no Pais. Essa e outras linhas de crédito são bem vindas, mas antes disso precisamos de políticas que nos garantam rentabilidade nessa atividade, pela sua própria caracteristica, de não permitir ao produtor estocar o seu produto para aguardar melhor preço. A produção de leite é uma atividade que precisa de proteção, pelas suas peculiaridades, pois da porteira pra fora não temos nenhum poder de barganha com nosso produto. Os laticínios pagam o preço que lhe bem convierem. Estou convicto, de que se não houver mudança, o médio produtor, que mais liquida plantel hoje, desaparecerá; e muitos grandes produtores, que tem o leite como principal atividade, estão altamente endividados e tendem a deixar a atividade.

Wilson Mendes Ruas
Produção de leite de Vaca

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