Houve um tempo em que as moedas de todos os países eram conversíveis em ouro, numa proporção específica. Atualmente, os Bancos Centrais podem emitir ou retirar moeda de circulação em função de seus interesses e não em função da disponibilidade de ouro em depósito. Antes, não podiam. Atualmente, questões pessoais de governantes podem interferir na cotação da moeda. Por exemplo, situações íntimas vividas pelo então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, com uma estagiária, levaram à desvalorização da moeda americana, que interferiu na competitividade em todo mundo. Portanto, hoje moeda é um ativo, uma commodity, que tem cotação variável em função da sua oferta e demanda, e que recebe forte impacto de fatores especulativos e também de expectativas quanto ao futuro. Por conseqüência, a paridade de uma moeda em relação às demais interfere profundamente na competitividade e na vida de todos.
Hoje é mais difícil estabelecer quais seriam as taxas de câmbio naturais, de equilíbrio de uma economia, pois não temos mais a conversibilidade com o ouro. É aí que surge o índice Big Mac. Os economistas acreditam que, na ausência de barreiras ao comércio, sem subsídios e impostos, um produto terá o mesmo preço em diferentes mercados. O hambúrguer Big Mac é um produto que resulta da participação das cadeias produtivas do pão, da carne, do alface, do queijo. Também recebe impacto dos mercados da mão-de-obra e de gerência, publicidade, imóveis, transporte, energia, dentre outros. Portanto, sofre influência de diferentes preços reais da economia do país em que é produzido. Além disso, o Big Mac é produzido em mais de 120 países, com a mesma formulação. Na prática, ouro é ouro em qualquer lugar, não é mesmo? Big Mac, também. Logo, você concorda que o Big Mac pode substituir o ouro na conversibilidade das moedas?
A conceituada revista inglesa The Economist todo ano divulga o Índice Big Mac, que é o preço desse hambúrguer em diferentes países, em Dólar americano, comparado com o seu preço nos Estados Unidos. Se o preço é maior que nos Estados Unidos, a moeda daquele país está sobrevalorizada. Se é menor, está depreciada. O índice Big Mac, então, permite você fazer a conversão da moeda pelo valor de um Big Mac e não pela cotação do Banco Central.
O jornal argentino “La Nacion” divulgou que os produtores de leite estariam irados, ameaçando greve, ávidos por receber US$ 0,44 por litro de leite. No último dia 22 de julho o Dólar Americano estava cotado a R$ 1,5547. Portanto, o produtor argentino deseja receber R$ 0,6841 por litro de leite, de acordo com o câmbio oficial. Então, vamos adotar o índice Big Mac para verificar se a paridade da moeda brasileira frente ao dólar está correta. É provável que nas próximas semanas a revista The Economist divulgue o Índice Big Mac 2011. Enquanto isso não ocorre, vamos considerar os dados de 2010. Um Big Mac custava US$ 4,91 no Brasil e US$ 3,73 nos Estados Unidos. Logo, a moeda brasileira estaria 31,6% sobrevalorizada em relação ao dólar. Voltando ao preço do leite argentino ao produtor, o correto seria considerar que, em Real, os US$ 0,44 valem R$ 0,9002 (=R$ 0,6841 X 1,316), que é o valor em Dólar convertido para Real, ajustado pela valorização espúria do câmbio, tendo por base o Índice Big Mac.
Então, a este preço, o leite argentino está mais caro na porteira que o leite brasileiro posto no laticínio, já que, de acordo com o Cepea, o preço do leite ao produtor está em R$ 0,8645, incluso frete e funrural. Portanto, está incorreto o discurso daqueles que tem dito que a avalanche de leite argentino que tem chegado ao Brasil é resultante da ineficiência dos produtores brasileiros. Não conheço nenhuma mudança estrutural que tenha melhorado significativamente a eficiência produtiva argentina nos últimos anos. Ao contrário, mudanças em curso estão acontecendo é do lado de cá. Mas, o que mudou mesmo, foi a cotação da nossa moeda frente ao Dólar e à deles, com repercussões perversas na competitividade da cadeia do leite.
Outro dia, revendo um livro que publiquei em 2003, encontrei um registro muito oportuno. Quando tivemos uma desvalorização cambial de quase 40% em 1999, os argentinos não nos perdoaram e adotaram medidas compensatórias contra o nosso ganho de competitividade via câmbio. Ocorre que, naquele momento, a desvalorização foi feita pelo mercado, para corrigir falhas de governo. Refiro-me à desastrosa passagem de Chico Lopes pela presidência do Banco Central e a sua “banda cambial administrada”, lembra? Agora, veja o gráfico a seguir. Ele mostra o valor do Peso argentino frente ao Real. Atualmente, o Peso vale 21,9% do que valia em janeiro de 2000. Nossa moeda está artificialmente valorizada em relação à deles. Estamos distante do ponto de equilíbrio. Isso torna artificialmente barato os bens e serviços argentinos. Faz um final de semana em Buenos Aires mais barato que em São Paulo, Fortaleza ou Recife. Faz, também, nosso leite ficar artificialmente mais caro. E ainda tem brasileiro declamando a eficiência da produção argentina...
