No primeiro artigo desta série, sugerimos uma fórmula que estima o consumo de água com base na produção de leite, consumo de matéria seca, temperatura e ingestão de sódio. Com esta fórmula, você poderá estimar o consumo de água do seu rebanho em lactação. Mostramos também como poderá ser feita a medição do consumo de água: através de um hidrômetro do tipo daqueles que medem o consumo de água em residências.
Agora, iremos discutir alguns pontos que devem ser avaliados caso o consumo medido seja inferior ao esperado. Onde buscar as prováveis causas de um problema de consumo de água ? Vamos começar pelas causas mais óbvias, fáceis de resolver e cuja solução seja de baixo custo.
MANEJO
1) Espaço de bebedouro por vaca: as recomendações variam, mas sugere-se entre 10 e 12 cm/vaca de espaço de bebedouro em climas tropicais. Para um lote de 100 vacas, são 10 a 12 metros de bebedouro. Pode funcionar com metragem menor (ex: 6 cm/vaca), mas é importante verificar se há frequentemente vacas aguardando para utilizar o bebedouro. Normalmente, o consumo de água está associado ao consumo de alimento e as vacas vão em grupos ao bebedouro.
2) Número de pontos de água/vaca: é aconselhável trabalhar com no máximo 1 ponto de água para cada 25 vacas. Assim, se tivermos um lote de 100 vacas, uma solução é ter 4 pontos de água (bebedouros) de 2,5 metros lineares cada. É importante ter água disponível na saída da sala de ordenha, uma vez que, após esta, os animais tendem a procurar água.
3) Vazão de água: o consumo de água pelo animal varia de 5 a 25 litros/minuto, dependendo do tipo de bebedouro, ao passo que o tempo total de ingestão de água varia de 2 a 8 minutos/vaca/dia, igualmente dependendo do tipo de bebedouro. Em bebedouros de livre acresso, aproxima-se mais do valor superior. Isto mostra que, individualmente, o consumo de água ocorre de maneira rápida. É importante verificar se, nos momentos de pico de consumo, os bebedouros ficam sem água. Neste caso, é interessar ou aumentar os pontos de água ou aumentar a vazão da tubulação.
4) Localização do bebedouro: especialmente em clima quente, é interessante que o bebedouro fique à sombra e perto do alimento, no máximo a 15 a 20 metros de distância. A razão disto é que, sob alta temperatura, as vacas ficam mais prostradas e tendem a não se deslocar muito. Mesmo que o consumo de água seja de interesse e necessidade do próprio animal, este poderá não ser maximizado nestas condições.
5) Limpeza: é fundamental que não haja acúmulo de algas, esterco, terra e outras impurezas. Deve haver uma rotina de limpeza cuja freqüência será dita pela avaliação do local, normalmente ficando ao redor de 1 semana no máximo.
6) Temperatura da água: as vacas parecem não gostar de água nem muito fria, nem muito quente. A temperatura adequada fica entre 15 e 25 ºC.
7) Teor de umidade da dieta: quanto mais úmida a dieta, menor o consumo de água. Supondo um animal a pasto ingerindo 10 kg de MS de pastagem com 84% de umidade, são cerca de 52,5 kg de água só via pasto. O consumo previsto para este animal, supondo 16 kg de MS de consumo e produção de 15 kg/dia, seria de 85 kg de água/dia, ou seja, o pasto estaria suprindo 63% da exigência diária de água. Um animal confinado, ingerindo 20 kg de MS/dia, com dieta com 50% de MS, estaria bebendo 20 kg de água via alimento. Estas diferenças precisam ser sempre consideradas.
8) Stray voltage: é o escape de voltagem, muitas vezes imperceptível ao ser humano, mas que afeta os animais. Ocorre especialmente em bebedouros, divisórias de ordenha, canos de metal, etc. Em um estudo, as vacas foram adaptadas a receber corrente alternada de 3 V no bebedouro. Ao passarem para 6 V, vários animais passaram a não ingerir mais água.
ANÁLISE FÍSICO-QUÍMICA
1) pH: há certa controvérsia a respeito do efeito do pH no consumo de água. De forma geral, considera-se que entre 6 e 8, o consumo não é afetado. Em fazendas que utilizam cal nas paredes do bebedouro, é possível que o pH passe de 8, podendo ocasionar queda no consumo de água. Neste caso, esta prática deve ser aplicada com critério.
2) Dureza da água: representa os íons cálcio e magnésio. Ao que se sabe, não afeta muito consumo ou desempenho dos animais, a não ser talvez em níveis de dureza excessiva, segundo a classificação abaixo:
* Mole: < 60 ppm
* Moderada: 61-120 ppm
* Dura: 121-180 ppm
* Muito dura: > 181 ppm
3) Sólidos totais dissolvidos, STD: inclui cloreto de sódio (sal comum), carbonatos, sulfatos, nitratos, K, Ca e Mg. Ver a tabela 1 para recomendações. Há menções que até 2.000 ppm o consumo de água é inclusive mais alto (embora sem efeitos positivos na produção). Água salina no verão pode ter efeito altamente negativo. Considerando sulfatos e cloretos, o limite é de 1.000 ppm ou mg/litro (HARRIS, JR. 1994), sendo que a presença de sulfato deve ser de menos de 500 ppm (LINN et alii, 1994). Valores mais altos reduzem consumo e podem causar diarréia.
Tabela 1: Guia para uso de águas salinas para rebanhos leiteiros (BEEDE, 1993)

Há outros fatores ligados à qualidade da água que podem afetar o seu consumo: nitratos, ferro, minerais tóxicos e bactérias, que serão abordados em outra oportunidade.
fonte: Water for Dairy Cattle (Large Herd Dairy Management, 1992)