A respeito da força e representatividade das associações
Parabéns ao Marcelo Carvalho pelo editorial “Um pouco sobre associações fortes e representativas”
O Marcelo Carvalho tem razão, o setor de açúcar e álcool é bem organizado, tem prestígio e força política. Também tem razão quando mostra que ao se comparar o setor leiteiro com o de açúcar e álcool, em tamanho econômico e geração de empregos, a balança pende para o setor leiteiro. E pergunta: o que faz a diferença entre o setor de açúcar e álcool e o setor leiteiro?
E também tem razão quando responde: uma boa relação da indústria com seus fornecedores e arrendatários, relação comercial regida por contrato e regras transparentes através do Consecana, e entidades fortes, representativas e atuantes.
Vou fazer as minhas considerações a partir dessa resposta, com a qual concordo, e de algumas cartas de leitores.
No setor leiteiro pode-se contar nos dedos os contratos entre produtores e indústrias e não existem regras justas e transparentes estabelecidas por um órgão similar ao Consecana. Isso torna de forma geral o relacionamento comercial da indústria com os produtores muito ruim. E também penso que deixa a desejar o relacionamento das cooperativas com os produtores. Não há confiança dos produtores nas indústrias e nas cooperativas.
Também falta confiança dos produtores nas suas entidades representativas. Há motivo para isso? Penso que sim. Existe um verdadeiro abismo entre os dirigentes dessas entidades e os produtores.
Vou citar um exemplo. Que produtor não desconfiaria de uma entidade que se posicionasse a favor de um regulamento de identidade e qualidade que permitisse adicionar 20% de soro ao leite fluido e ao leite em pó para um produto que usasse o nome de leite? Pois a CNA e a Leite Brasil fizeram isso, como citou a Daniela Rodrigues Alves em entrevista ao Milkpoint, e que tive oportunidade de ver o documento que ela citava assinado por representantes dessas entidades. E o que é pior, um assunto como esse não foi amplamente debatido com os produtores por essas entidades. Vejam bem, não estou afirmando que a entidades que assinaram esse documento tiveram segundas intenções. Acredito mesmo que julgassem naquele momento que isso poderia trazer, de alguma forma, uma contribuição positiva para os produtores. A crítica é que a decisão do posicionamento dessas entidades para um assunto da maior importância foi tomada a portas fechadas, sem ampla discussão com os produtores. São situações como essa, que ao longo do tempo, vão estabelecendo o abismo entre dirigentes e produtores, e fazem o produtor perder a confiança nas entidades.
Considero que a Associação dos Produtores de Leite B foi uma entidade representativa e atuante, com a maioria dos associados de São Paulo e alguns de Minas e do Rio. Mas quando se transformou em Leite Brasil, sem efetiva representatividade nacional, se enfraqueceu, e perdeu a confiança muito dos produtores de leite B que a ela eram filiados. Na época, um grupo de produtores paulista discutindo em dois seminários realizados em anos consecutivos, no auditório de CEPEA, concluíram que era preciso a Leite Brasil realmente ter dimensões nacionais, com entidades estaduais filiadas, e estas com agências regionais, para que fosse forte e representativa. Uma comissão foi criada e encaminhou sugestões para alterações no Estatuto da Leite Brasil para que isso pudesse acontecer. O José Humberto lembrou disto numa de suas cartas, citando a mim e a Leite São Paulo, e incitando a me manifestar. Um esclarecimento importante é que a Leite São Paulo – Associação dos Produtores de Leite do Estado de São Paulo só foi criada depois dessas duas tentativas frustradas de transformar a Leite Brasil numa entidade efetivamente de abrangência nacional.
Quero deixar claro que reconheço que a CNA e a Leite Brasil contribuíram fortemente para muitas conquistas para os produtores de leite, e essas colocações que fiz foi por acreditar que havendo mais confiança e maior aproximação dos produtores com a direção das entidades elas poderão fazer muito mais.
O Roberto Jank Jr. Numa de suas cartas sugere, para fortalecer as entidades, começar pelo orçamento, pela vontade individual de contribuir: “no money, no music”. Mas acho que o José Humberto numa das suas cartas teve uma percepção maior da realidade: “no trust, no money, no music”. Sem confiança não haverá entidade de produtores fortes. E é preciso lembrar que confiança não se impõe, se conquista. E essa conquista de confiança dependerá das atitudes dos dirigentes das entidades e não será conseguida de um momento para outro.
O relacionamento na cadeia produtiva do açúcar e álcool não aconteceu de uma hora para outra, foi construído ao longo do tempo. Por isso não concordo que no setor leiteiro estamos a um passo do setor de açúcar e álcool, estamos a quilômetros de distância.
Mas eu não tenho dúvidas que se dermos os primeiros passos nessa direção, trabalhando para construir um bom relacionamento entre indústrias, cooperativas e produtores de leite, que seja justo e transparente, para superar o abismo entre dirigentes e produtores, para fortalecer e tornar atuantes nossas entidades, chegaremos lá, teremos um setor leiteiro com a força que tem o setor de açúcar e álcool.
Para finalizar, quero manifestar que vejo enorme dificuldade no desenvolvimento de entidades só de produtores. Penso que é fundamental entidades que congreguem técnicos e produtores para que a confiança e o relacionamento dos produtores com as entidades seja fortalecido, a exemplo do que aconteceu nos USA, e de certa forma aqui mesmo no setor de açúcar a álcool.
Por esse motivo, depois de um ano de discussão entre produtores e técnicos, a Leite São Paulo deixou, no final do ano passado, de ser uma associação só de produtores, para ser a Associação dos Técnicos e Produtores de Leite do Estado de São Paulo, congregando técnicos e produtores, passo considerado fundamental para a fortalecimento representatividade e da atuação da entidade. No Estatuto da Leite São Paulo consta como um dos seus objetivos incentivar a formação de associações de técnicos e produtores de leite em outros estados, e havendo uma massa critica de associações similares em outros estados, incentivar a formação de uma confederação nacional dessas associações.
Marcello de Moura Campos Filho
Presidente da Leite São Paulo
Parabéns ao Marcelo Carvalho pelo editorial “Um pouco sobre associações fortes e representativas”
O Marcelo Carvalho tem razão, o setor de açúcar e álcool é bem organizado, tem prestígio e força política. Também tem razão quando mostra que ao se comparar o setor leiteiro com o de açúcar e álcool, em tamanho econômico e geração de empregos, a balança pende para o setor leiteiro. E pergunta: o que faz a diferença entre o setor de açúcar e álcool e o setor leiteiro?
E também tem razão quando responde: uma boa relação da indústria com seus fornecedores e arrendatários, relação comercial regida por contrato e regras transparentes através do Consecana, e entidades fortes, representativas e atuantes.
Vou fazer as minhas considerações a partir dessa resposta, com a qual concordo, e de algumas cartas de leitores.
No setor leiteiro pode-se contar nos dedos os contratos entre produtores e indústrias e não existem regras justas e transparentes estabelecidas por um órgão similar ao Consecana. Isso torna de forma geral o relacionamento comercial da indústria com os produtores muito ruim. E também penso que deixa a desejar o relacionamento das cooperativas com os produtores. Não há confiança dos produtores nas indústrias e nas cooperativas.
Também falta confiança dos produtores nas suas entidades representativas. Há motivo para isso? Penso que sim. Existe um verdadeiro abismo entre os dirigentes dessas entidades e os produtores.
Vou citar um exemplo. Que produtor não desconfiaria de uma entidade que se posicionasse a favor de um regulamento de identidade e qualidade que permitisse adicionar 20% de soro ao leite fluido e ao leite em pó para um produto que usasse o nome de leite? Pois a CNA e a Leite Brasil fizeram isso, como citou a Daniela Rodrigues Alves em entrevista ao Milkpoint, e que tive oportunidade de ver o documento que ela citava assinado por representantes dessas entidades. E o que é pior, um assunto como esse não foi amplamente debatido com os produtores por essas entidades. Vejam bem, não estou afirmando que a entidades que assinaram esse documento tiveram segundas intenções. Acredito mesmo que julgassem naquele momento que isso poderia trazer, de alguma forma, uma contribuição positiva para os produtores. A crítica é que a decisão do posicionamento dessas entidades para um assunto da maior importância foi tomada a portas fechadas, sem ampla discussão com os produtores. São situações como essa, que ao longo do tempo, vão estabelecendo o abismo entre dirigentes e produtores, e fazem o produtor perder a confiança nas entidades.
Considero que a Associação dos Produtores de Leite B foi uma entidade representativa e atuante, com a maioria dos associados de São Paulo e alguns de Minas e do Rio. Mas quando se transformou em Leite Brasil, sem efetiva representatividade nacional, se enfraqueceu, e perdeu a confiança muito dos produtores de leite B que a ela eram filiados. Na época, um grupo de produtores paulista discutindo em dois seminários realizados em anos consecutivos, no auditório de CEPEA, concluíram que era preciso a Leite Brasil realmente ter dimensões nacionais, com entidades estaduais filiadas, e estas com agências regionais, para que fosse forte e representativa. Uma comissão foi criada e encaminhou sugestões para alterações no Estatuto da Leite Brasil para que isso pudesse acontecer. O José Humberto lembrou disto numa de suas cartas, citando a mim e a Leite São Paulo, e incitando a me manifestar. Um esclarecimento importante é que a Leite São Paulo – Associação dos Produtores de Leite do Estado de São Paulo só foi criada depois dessas duas tentativas frustradas de transformar a Leite Brasil numa entidade efetivamente de abrangência nacional.
Quero deixar claro que reconheço que a CNA e a Leite Brasil contribuíram fortemente para muitas conquistas para os produtores de leite, e essas colocações que fiz foi por acreditar que havendo mais confiança e maior aproximação dos produtores com a direção das entidades elas poderão fazer muito mais.
O Roberto Jank Jr. Numa de suas cartas sugere, para fortalecer as entidades, começar pelo orçamento, pela vontade individual de contribuir: “no money, no music”. Mas acho que o José Humberto numa das suas cartas teve uma percepção maior da realidade: “no trust, no money, no music”. Sem confiança não haverá entidade de produtores fortes. E é preciso lembrar que confiança não se impõe, se conquista. E essa conquista de confiança dependerá das atitudes dos dirigentes das entidades e não será conseguida de um momento para outro.
O relacionamento na cadeia produtiva do açúcar e álcool não aconteceu de uma hora para outra, foi construído ao longo do tempo. Por isso não concordo que no setor leiteiro estamos a um passo do setor de açúcar e álcool, estamos a quilômetros de distância.
Mas eu não tenho dúvidas que se dermos os primeiros passos nessa direção, trabalhando para construir um bom relacionamento entre indústrias, cooperativas e produtores de leite, que seja justo e transparente, para superar o abismo entre dirigentes e produtores, para fortalecer e tornar atuantes nossas entidades, chegaremos lá, teremos um setor leiteiro com a força que tem o setor de açúcar e álcool.
Para finalizar, quero manifestar que vejo enorme dificuldade no desenvolvimento de entidades só de produtores. Penso que é fundamental entidades que congreguem técnicos e produtores para que a confiança e o relacionamento dos produtores com as entidades seja fortalecido, a exemplo do que aconteceu nos USA, e de certa forma aqui mesmo no setor de açúcar a álcool.
Por esse motivo, depois de um ano de discussão entre produtores e técnicos, a Leite São Paulo deixou, no final do ano passado, de ser uma associação só de produtores, para ser a Associação dos Técnicos e Produtores de Leite do Estado de São Paulo, congregando técnicos e produtores, passo considerado fundamental para a fortalecimento representatividade e da atuação da entidade. No Estatuto da Leite São Paulo consta como um dos seus objetivos incentivar a formação de associações de técnicos e produtores de leite em outros estados, e havendo uma massa critica de associações similares em outros estados, incentivar a formação de uma confederação nacional dessas associações.
Marcello de Moura Campos Filho
Presidente da Leite São Paulo