A queda do leite em Goiás

Compara o que está acontecendo em Goiás com o que aconteceu em São Paulo e alerta que seno setor leiteiro não se não houver entendimento e organização, pode ocorrer em outras regiões.

Publicado por: MilkPoint

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Em 1990 Goiás era apenas o 6º produtor de leite, mas no final da década de 90 passou a ser o segundo produtor, só perdendo de Minas Gerais, e agora parece que retornoupara 6ª posição no ranking nacional
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José Mário Schreiner, presidente da FAEG/SENAR diz que a queda está associada ao desistímulo em que se encontram os produtores goianos atualmente, e entre as causas do desistímulo aponta: faltam políticas que permitam maior transparência entre produtor e indústria, falta de maior combate às importações, muitas vezes feitas por prática de comércio desleal, instabilidade dos preços e falta de pagamento por qualidade. Aponta que também contribui para a queda da produção de leite a concorrência do milho, soja, algodão, eucalipto e cana de açúcar (Goiás é o segundo produtor de etanol, só perdendo para São Paulo ), com o que concorda Paulo do Carmo Martins. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite.

Leonardo Vilela, deputado federal e Secretário Estadual de Meio Ambiente preocupado diz que não são apenas os pequenos produtores que estão deixando a atividade, mas médios e grandes também.

Paulo Martins adverte: “Ou o setor leiteiro se organiza ou vamos multiplicar a triste realidade de Goiás para as regiões mais tradicionais”.

Esse quadro me lembra a situação de São Paulo, que em 1994 era o segundo produtor de leite do País, só perdendo para Minas Gerais, e despencou para a 6ª posição e hoje, se Goiás é o 6º, deve ter caído para a 7ª posição do ranking nacional.

A trajetória descendente de São Paulo, com leilões de liquidação de plantéis praticamente todas as semanas, coincide com a ascendente de Goiás, que era o maio comprador das vacas leiteiras nos leilões paulistas.

Em maio de 2000 escrevi no “Ponto de Vista” do Balde Branco o artigo “Enigma do Leite e o Fator Organização”, onde procura explicar o crescimento da produção de leite em Goiás, e que transcrevo a seguir.

“Os lacticínios interessados em aumentar a produção de leite UHT queriam uma matéria prima mais barata, sem maiores preocupações com a qualidade. Ofereceram entã, preços iniciais atrativo, ao mesmo tempo que o governo local abriu financiamentos vantajosos para a atividade.
O que se viu foi um crescimento vertiginoso da produção de leite em Goiás, sendo que seus produtores se tornaram os maiores compradores de liquidações de plantéis em tradicionais bacias leiteiras. Mas agora que já existe um grande número de novos produtores naquele Estado, o quadro começa a mudar. Os dois grandes lacticínios, que concentram a captação de leite na região, reduziram os preço pagos, enquanto que os produtores começam a ter que liquidar as amortizações e juros dos financiamentos feitos. A consequência desse desencontro se mostrou na safra do último ano, que apontou uma redução de 7% na produção do Estado.
Será que os novos produtores goianos estão atualmente satisfeitos com o leite? Provavelmente eles tentarão permanecer na atividade por mais alguns anos para provarem a realidade do setor, a qual irá mostrar que, por mais que se aumente a eficiência, os peços recebidos não irão cobrir seus custos de produção. É bem provável que, passado algum tempo, não suportando mais os prejuízos, começarão a fazer seus leilões de liquidação de plantel.”

Não sou Nostradamus, mas parece que cerca de 10 anos depois o quadro em Goiás está próximo do que caracterizei no meu artigo.

E naquele artigo de 2000 eu dizia que osprodutores de leite no Brasil só poderão atender as necessidades de leite do País, em termos de quantidade e qualidade se receberem um preço justo, e que esse preço justo só será alcançado se os produtores se mostrarem bem organizados e informados.

E se o setor leiteiro, especialmente a pecuária de leite, não se organizar, o triste quadro que está acontecendo hoje em Goiás, e que aconteceu antes em São Paulo, vai se repetir em outras regiões, como preconiza Paulo Martins hoje, e, infelizmente, o Brasil continuará sendo importador de leite para atender ao mercado interno e perdendo a oportunidade de se tornar um exportador significativo para o mercado mundial.

Desde a criação da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados do MAPA que eu aponto a necessidade de criação de um mecanismo adequado permanente para estabelecimento da política e planejamento do setor leiteiro nacional, sem o que a organização do setor fica muito a desejar, e o Paulo Martins que foi Secretário dessa câmara setorial testemunhou meu empenho nessa direção. Mas infelizmente preguei no deserto ou não fui um bom pregador. Espero que o Paulo Martins, que hoje adverte sobre a necessidade do setor leiteiro se organizar, seja melhor pregador do que eu.

Marcello de Moura Campos Filho
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