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Porque continuar produzindo leite ?

ESPAÇO ABERTO

EM 23/01/2004

3 MIN DE LEITURA

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Orlando Fittipaldi Junior1

Pode parecer um absurdo a frase, mas na verdade é mais um questionamento ao mundo atual.

Cada vez que alguém fala que vai parar com a atividade leiteira, sempre aparecem os que culpam o produtor por não ter a tecnologia adequada, não investir na produtividade, não seguir os ditames do mercado, não ter paciência para que haja melhora do setor.

No entanto, este é um setor muito interessante mesmo. Para que possamos produzir o leite, há necessidade de pelo menos uma vaca, de uma área onde esta vaca deve estar, de um volumoso [ ou plantado ou comprado ], de uma certa quantidade de ração. Além disso precisamos seguir as orientações da casa da agricultura para as vacinas diversas, de possuir um conhecimento sobre saúde animal ou então contratar um veterinário, de mantermos nossa vaca e respectivo bezerro livres dos carrapatos, da tristeza, da mosca do chifre, etc.

É de se imaginar que tudo que foi citada deve ter algum custo. Podemos procurar no mercado, mas sempre teremos um valor a ser pago pelo quilo da ração, pelo aluguel do pasto, pelo medicamento e pela vacina, pelo preço da vaca.

Some se a isto as intempéries como a falta ou o excesso de chuva, a ocorrência de granizo ou de geadas. Pensemos ainda nas regulamentações que vão surgindo como o uso de balões refrigeradores, ordenhadeiras mecânicas, impostos novos.

Quando se faz a conta na ponta do lápis, tem se que o valor que se gasta para produzir o leite invariavelmente acaba ficando num valor próximo ao da venda. Em alguns meses, por imposição do mercado o preço que o produtor recebe acaba ficando abaixo do que se gasta para a produção do mesmo.

É justo um mercado onde se trabalha o mês inteiro, gasta-se um valor fixo [ funcionários, luz, óleo diesel, ração, medicamentos, vacinas, escritório] sem se saber qual vai ser o valor que vão pagar pelo litro do seu leite?

Aí vem aquela desculpa esfarrapada - ah! O mercado está ruim, estamos na safra e o preço precisa abaixar pois não há compradores suficientes.....-

E o coitado do produtor fica lá no seu canto torcendo para que no próximo mês o preço melhore para que ele possa saldar as suas dívidas.

Ele não pode parar, porque ou é o dono e sua renda vem daí, e a sua família precisa dela, ou então tem funcionários que dependem do retiro para sobreviver, e a sua desistência simplesmente irá largar mais um desempregado no país.

Fica então a pergunta.

Como é possível que uma garrafa de 300 ml de água possa custar mais do que 1 litro de leite?

Concordo que a água é um bem imprescindível. Mas ela não tem proteína, não tem vitaminas, não tem um custo de produção e nem de elaboração que tem o leite!

Algo muito errado está ocorrendo.

E a culpa é nossa mesmo. Pois continuamos a produzir o leite, aceitando a remuneração baixa, e aceitando o que a industria dos laticínios vivem dizendo - é.... o mercado não está comprador.... o preço do leite vai ter que baixar....

Não há justificativa no investimento para que produzamos mais e mais leite no país, se não existe o mercado consumidor. A desculpa é que em algumas épocas temos mais leite do que outras e por isto existe a variação brutal de preço.

Podemos até entender algum grau de variação. Mas está acontecendo um erro de planejamento. Se já sabemos que não vai haver mercado comprador, vamos então produzir menos leite, de modo que a demanda leve a um aumento do ser preço.

Se isto não acontecer, isto é o preço não subir pela falta de leite, significa realmente que estamos num mercado totalmente impróprio, e que devemos mesmo sair dele o mais rápido possível.
_______________________________________________________
1Produtor de leite em Promissão (SP)

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DIAN HENRIQUE FILHO SPESSATTO

TEUTÔNIA - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 14/02/2004

Precisamos variar mais nossos produtos e fazer mais propaganda, como fazem as cervejarias.
RAPHAEL MANDARINO JR

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/01/2004

Caro Orlando,

Reforço suas posições, com as quais concordo plenamente, lembrando que assim - gerenciando a produção e a demanda - agem as empresas que controlam a produção de diamantes no mundo. Infelizmente no nosso caso, são os laticínios que detem o poder de barganha já que nós, produtores, somos muitos e desarticulados. Precisamos qe o Poder Público intervenha para assegurar nossos direitos e sobrevivência. Ficamos esperançosos, no ano passado, quando vimos muito barulho por todo o Brasil a respeito do assunto. Assistimos a criação de CPI´s; a pronunciamentos duros; a críticas contundentes, mas de prático continuamos aguardando as promessas. Cadê contrato de fornecimento com ajuste prévio dos preços? Cadê a fiscalização rigorosa das contabilidades dos laticínios? Cadê a atuação pró-ativa das "casa de agricultura" nos 3 níveis? Etc, etc,etc....

Nos resta buscar 3 objetivos: 1 - a união dos produtores a qualquer preço. 2 - dar ampla divulgação a estas práticas de abuso de poder econômico 3 - e o caminho da justiça. Sei que aponto caminhos longos, caros, cheio de defeitos e desvios, mas não vejo outra saída a não ser lutar para fazer valer nossos direitos.
R. Mandarino Jr
ANDRÉ DE MORAES ROSSI

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/01/2004

Dizem que a produção de leite é um setor cooperativista...será? Se é então porque não somos orientados para diminuirmos a oferta de leite até uma reação de preços favoraveis ao produtor?

Precisamos de uma grande mobilização de todos os produtores (pequenos, médios e grandes), com o objetivo único de romper o cartel do laticínios e outros compradores de leite que ditam o valor que querem pagar sem se preocupar com o custo de cada produtor, que infelizmente não podem aplicar a mesma regra para os seus fornecedores de
insumos, medicamentos , etc (estes sim fazem o seu preço).

Vamos citar um exemplo: a OPEP. Quando o preço do barril de petróleo um valor desfavorável, vários países de cultura, costumes e religiões diferentes, se unem e reduzem a oferta de óleo até que o mesmo alcance os valores desejaveis.

Não dá para entender como nós produtores até hoje não nos mobilizamos com o objetivo de MUDARMOS AS REGRAS DO JOGO!

Fica aqui a minha pergunta: será que o fabricante de embalagens do longa vida fica na mesma situação dos produtores aguardando que o laticínio determine o valor a ser pago pela embalagem?

André Rossi


VICENCIO LOMBA LIMA

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO

EM 26/01/2004

Congratulações ao colega pelo artigo muito apropriado. Apropriado não à realidade de hoje e sim ao cenário histórico do mercado de leite, aparentemente sem solução.

Fala-se muito da falta de união dos produtores... O problema é que, na maioria das vezes, quando há união e um movimento torne-se forte no Brasil, quem se beneficia dele são as pessoas que o coordenam, haja vista os vários casos de cooperativas onde os diretores enriquecem e a entidade vai falência.
RONALDO AUGUSTO DA SILVA

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/01/2004

Essa é a realidade do setor, sem subterfúgios e absolutamente imparcial. A solução passa, inexoravelmente por uma exigência legal, institucionalizada, da qualidade do produto e o consequente esclarecimento dos consumidores, que no dia a dia estão bebendo gato como se fosse lebre. O leite tirado da vaca ao ar livre, na chuva, no sol, pelo produtor sem camisa, suando e pingando esse suor no balde não pode ter preço linearizado com o leite que é produzido em ordenha mecânica, com rigoroso acompanhamento da sanidade do rebanho, que vai diretamente para o tanque e é resfriado a 4º c de imediato. Essa é a solução. A indústria do longa vida tem que ser colocada sob exigências. O consumidor tem que saber o que está bebendo. Nos níveis atuais de custo, a atividade leiteira profissionalizada moderna é economicamente inviável. Veja os 15 casos analisados no livro Os Melhores do Leite, do concurso benchmarking realizado no RS.

Cordialmente,
Ronaldo Augusto
JOSÉ ALMEIDA DE OLIVEIRA

MAJOR ISIDORO - ALAGOAS - EMPRESÁRIO

EM 24/01/2004

Este comentário é fielmente o que ocorre entre nós produtores em Alagoas. Em razão dos últimos acontecimentos(baixa de R$ 0,09 em cada litro de leite, portanto, acarretando um prejuizo mensal da ordem de R$9.000,00), tentei e fiz diminuir 50% da ração do rebanho objetivando diminuir o custo e em consequência baixou a produtividade. Com essa medida, deixei de proporcionar maiores lucros à empresa (única vingança disponível).
JOSÉ ALBERTO DA SILVEIRA

MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/01/2004

Por que continuar produzindo leite? Cumprimento o colega Orlando Fitipaldi Jr. pela objetividade e lucidez do seu artigo! E a pergunta continua: porque continuo produzindo leite? Enquadro-me no segundo caso. Parando a atividade, são 7 ou 8 desempregados a mais no País. E, no meu caso, a perda do prazer que tenho de conviver com as "meninas", como chamo as minhas vacas. Entretanto este assunto é muito sério, e não sei como o governo não se adverte. Como médico, posso dizer ao colega Orlando que na área da saúde é a mesma coisa. Preciso fazer 3 consultas para pagar o corte do meu cabelo ! No fundo vivemos um momento de grandes transformações no mundo, com uma inaceitável inversão de valores. Daí que, como estudante de Logosofia, prevejo uma aceleração muito forte da decadência da atual cultura. As causas, na verdade, são muito mais profundas, e tem a ver com o objetivo da vida, com o conhecimento de si mesmo, das leis universais, com a importância da família, da cultura, enfim assuntos que não estão nas páginas dos jornais, nem na tela da TV. Enquanto isso, nós produtores de leite - alimento essencial para a saúde -vamos pagando a conta. Até quando ?!
ANTONIO PEROZIN

VALINHOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/01/2004

A terrível situação que vive o produtor de leite no Brasil, mas principalmente no estado de S. Paulo, tem um só culpado: o próprio produtor de leite.

Nós somos o burro de carga desta história. Temos uma força enorme, mas não sabemos que temos. Se houvesse união da classe, poderíamos ter um peso maior nas decisões da cadeia láctea.

Egoístas que somos, trabalhamos cada por si, e somos presa fácil para os demais elos dessa cadeia.

Portanto, o produtor de leite tem sempre data certa para reclamar dos preços do leite, na safra, quando deveria haver um planejamento maior da classe, para fazer frente as adversidades, que cada ano tem nome novo para um mesmo problema.

Antonio Perozin
Vice-presidente da Leite São Paulo
MilkPoint AgriPoint