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Preço de leite e custo de vida

POR PAULO DO CARMO MARTINS

PANORAMA DE MERCADO

EM 10/02/2005

7 MIN DE LEITURA

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Acredite! O órgão do Governo mais presente na sua vida é o IBGE. Suas estatísticas definem o quanto dos impostos retorna ao seu município, o percentual de reajuste de contratos e é parâmetro para o Banco Central, na definição de política de câmbio e taxa de juros. Uma das tarefas do IBGE é calcular a inflação. Afinal, com base no IBGE, os preços de leite e derivados ganharam ou perderam do Custo de Vida nos últimos doze meses?

O IBGE calcula mensalmente a variação de preços por diferentes índices. Um dos que o Banco Central dá mais atenção para aferir como está o comportamento do Custo de Vida das famílias é o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado - 15, mais conhecido como IPCA-15. Este Índice mede o comportamento de preços de produtos consumidos por famílias brasileiras com renda até 40 salários mínimos e cobre a variação de preços do dia 15 do mês anterior até o dia 15 do mês seguinte. Daí o termo "15". Para completar, a coleta de preços de um número imenso de produtos e serviços é feita nas seguintes regiões metropolitanas: Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além de Brasília e Goiânia. Esse Índice é tão importante que, quando é divulgado mensalmente pelo IBGE, ocupa grande espaço no noticiário.

Também é bom esclarecer que Leite e Derivados pesa cerca de 10% no cálculo do item alimentação que, por sua vez, pesa cerca de 40% no cálculo da do IPCA-15. Trocando em miúdos, se nenhum preço se alterar em um mês, e se os preços de Leite e Derivados se elevarem em 100% no varejo, a Fátima Bernardes informará no Jornal Nacional que o Custo de Vida daquele mês sofreu elevação de 4%. Ou seja, o custo de vida terá se elevado somente por elevações de preços de Leite e Derivados. Pesa muito, não?

Desde a década de oitenta os ministros da área econômica são avaliados pelo controle da inflação. O Custo de Vida é a parte mais perceptível da inflação. Portanto, é obvio que há um forte estímulo para adotar políticas que minimizem ao máximo a variação de preços de produtos que impactam seu cálculo. Leite e Derivados é o principal subgrupo, ou seja, o que mais peso tem no grupo Alimentação.

Até 1991, com a vigência do tabelamento de preços, a ação das autoridades econômicas era no sentido de postergar, ao máximo, a autorização para reajustes de preços destes produtos. Com o fim do tabelamento, a estratégia foi facilitar a importação de produtos lácteos que, sabidamente, chegam por aqui com preços artificialmente baixos. Sem tabelamento, há duas estratégias possíveis e não excludentes para o Governo reduzir o preço de lácteos (e outros produtos). O primeiro é manter o câmbio sobrevalorizado, ou seja, valendo mais do que seria natural em relação a outras moedas. Isso torna o produto importado mais barato. A outra é reduzir os impostos e as taxas, além das exigências burocráticas para a importação. Nos anos noventa, o Brasil adotou as duas. Portanto, é sempre bom ter claro que as autoridades econômicas monitoram os preços de Leite e Derivados no Brasil, dado seu impacto no IPCA-15, e agem visando reduzir seus preços.

Bom, mas qual foi o comportamento dos preços dos principais derivados lácteos nos últimos meses? Os gráficos que estão a seguir retratam dados do IPCA-15, que estão disponíveis no site do IBGE (www.ibge.gov.br). São dados oficiais, portanto. Todos estes gráficos cobrem o período de fevereiro de 2004 a janeiro de 2005 e são apresentados em forma de números-índices, ou seja, o preço de janeiro de 2004 foi considerado 100 para todos os produtos. Isso é necessário para permitir comparação na variação de preços de produtos que, enfim, têm valores diferentes. O Gráfico 1 compara a evolução do IPCA-15, do preço do grupo Leite e Derivados que compõe o IPCA-15 e todos os alimentos que são comprados para serem consumidos em casa (arroz, pão, tomate...). Como se percebe, o grupo Alimentação segurou o Custo de Vida das famílias (IPCA-15) nos 12 meses analisados. Já Leite e Derivados...

Gráfico 1. Evolução de Preços de Leite e Derivados, do Custo da Alimentação no Domicílio e do IPCA-15 entre Fevereiro/2004 e Janeiro/2005.
 


Fonte: Com Base no IPCA-15 (IBGE, 2005)

Pelo Gráfico 2 verifica-se que o Iogurte esteve permanentemente abaixo do IPCA-15. Juntamente com o Leite em Pó, contribuíram para reduzir o custo das famílias. Na prática, perderam para os demais preços. O mesmo não se pode dizer do Leite Pasteurizado (que, no caso da pesquisa do IBGE, é sinônimo de leite fluído).

Gráfico 2. Evolução de Preços de Leite Pasteurizado, Leite em Pó e Iogurte e do IPCA-15, entre Fevereiro/2004 e Janeiro/2005.

 


Fonte: Com Base no IPCA-15 (IBGE, 2005)

O Gráfico 3 retrata o comportamento de preços dos queijos Prato, Mussarela e Parmesão. Todos estiveram abaixo do Custo de Vida. Surpreendente foi o comportamento errático do preço do queijo parmesão.

Gráfico 3. Evolução de Preços de Queijo Prato, Parmesão e Mussarela e do IPCA- 15, entre Fevereiro/2004 e Janeiro/2005.

 


Fonte: Com Base no IPCA-15 (IBGE, 2005)

Também os Leites Fermentado e Com Sabor perderam para o IPCA-15, conforme Gráfico 4. Já pelo gráfico 5 percebe-se que o Creme de Leite e o Doce de Leite tiveram preços gravitando em torno do IPCA-15, enquanto que Leite Condensado teve evolução de preços abaixo do Custo de Vida.

Gráfico 4. Evolução de Preços de Leite Fermentado e Com Sabor e do IPCA-15, entre Fevereiro/2004 e Janeiro/2005.

 


Fonte: Com Base no IPCA-15 (IBGE, 2005)

Gráfico 5. Evolução de Preços do Creme de Leite, Doce de Leite e Leite Condensado e do IPCA- 15, entre Fevereiro/2004 e Janeiro/2005.

 


A Tabela 1 apresenta o número de meses em que cada produto lácteo teve variação de preços abaixo da variação apresentada pelo IPCA-15. Portanto, define quantos meses em doze, cada produto perdeu para o Custo de Vida. Como se verifica, o grupo Leite e Derivados esteve abaixo em sete dos doze meses. De quinze produtos lácteos pesquisados, nove perderam a maior parte dos doze meses para o Índice de Custo de Vida.

Tabela 1. Número de meses em que a variação mensal de preços de produtos lácteos selecionados superou a variação mensal do IPCA-15. Brasil. Fevereiro/2004 a Janeiro/2005

 


Fonte: com base em IBGE (2005)

Com base nas informações apresentadas, algumas conclusões podem ser tiradas. A primeira é que a grande maioria dos derivados lácteos contribuiu para reduzir o custo de vida mês a mês, no período analisado (Tabela 1). Os produtos que foram exceção têm peso relativo muito baixo no cálculo do Índice.

A segunda conclusão é que o Leite Fluído (Pasteurizado), perdeu sete em doze meses para a média de preços dos produtos e serviços pesquisados. Mas, nos cinco meses que ganhou, o acumulado mais que compensou estas perdas. Compare a Tabela 1 com o Gráfico 2. Em grande parte, é isso que explica o Grupo Leite e Derivados ter ganho do IPCA-15, no Gráfico 1, ou seja, Leite Fluido tem peso tão elevado no cálculo do grupo Leite e Derivados, que mascarou o desempenho dos demais itens.

A terceira conclusão é que os produtos lácteos que ganharam do IPCA-15 são produtos difíceis de serem importados. Por outro lado, os produtos exportáveis, como Leite em Pó e Leite Condensado, não contribuíram para elevar o IPCA-15, nem na análise mês a mês (Tabela), nem no acumulado (Gráficos). Portanto, as exportações não atrapalharam o Índice de Custo de Vida. Isso é bom. Se os preços de produtos típicos de mercado interno (como Leite Fluido, que é exemplo de produto não transacionável no mercado internacional) se elevam mais que o IPCA-15 e os transacionáveis têm comportamento contrário, não há motivo para o Governo facilitar importações.

Uma conclusão frágil é considerar que os produtos lácteos que tiveram variação de preços abaixo que o IPCA-15 levaram a perdas para quem os comercializou ou produziu. É importante considerar que cada produto tem sua estrutura particular de formação de preços, que depende da sua estrutura de custos, que é, portanto, própria para cada produto. Além disso, cada produto tem suas formas de comercialização entre indústria e varejo (margens de comercialização diferenciadas). Visando obter informações de preços no atacado, a OCB, a CBCL, o Cepea/USP e a Embrapa Gado de Leite criaram o SIMLEITE. Com o passar do tempo, teremos uma série histórica que permitirá afirmar se as oscilações do atacado e do varejo são coincidentes.

Voltando ao risco de se concluir erradamente que setor foi mais rentável, é importante ter claro que comparação de preços diz muito pouco ou nada, se o propósito é analisar rentabilidade (o que não foi o nosso caso). Portanto, pode ser que Leite em Pó e Leite condensado, por exemplo, tenham apresentado maior rentabilidade para quem os produziu que o Leite Pasteurizado, que "ganhou" do IPCA-15.

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JOÃO CARLOS TELLES PEREIRA

OUTRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/02/2005

Artigo claro, sintético e didático.

Parabéns ao articulista!
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