Paraná: setor leiteiro em tempo de vacas magras

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A urina de vaca, usada em hortas como repelente orgânico, comprada a R$ 0,23 no Noroeste do Estado do Paraná, vale mais que o preço do leite pago ao produtor: R$ 0,22 o litro. A embalagem do leite longa vida, monopólio de uma multinacional, também é mais cara. Custa em média R$ 0,25 a unidade. Entre o que o produtor recebe e o que o consumidor paga pelo leite, R$ 0,90, a diferença pode chegar a 350%. Quem fica com o lucro? Produtor, indústria ou supermercado? Essa é a resposta que a CPI do Leite está buscando e para isso está traçando a radiografia do setor.

Para alguns parlamentares já não há dúvidas: o problema da crise está na indústria e no comércio varejista. A afirmação é do presidente da CPI, deputado Orlando Pessuti (PMDB). Os laticínios recebem o leite do produtor a R$ 0,21 o litro e o entregam no pacote (embalagem plástica) a R$ 0,60 a unidade. Há uma diferença de R$ 0,40. "A indústria tem que explicar seus custos", desafia o parlamentar. Na base da cadeia produtiva, os pecuaristas se queixam dos preços pagos pelos laticínios. Eles não cobririam nem o custo da produção, entre R$ 0,22 e R$ 0,35.

O presidente da Cooperativa Central do Sudoeste (Sudcoop), Walter Vanzela, defende a indústria láctea, atacando o varejo. "As grandes redes de supermercados se aproveitam da abundância das marcas para puxar os preços para baixo", declara. Nas audiências, a CPI acusa os supermercadistas de ausentes, mas em Maringá representantes do setor garantiram que mantêm margens de lucro de apenas 10% sobre o preço final ao consumidor. A indústria, por sua vez, reclama da má qualidade do leite e das péssimas condições das estradas vicinais.

Insumos

Pesquisa do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura demonstra que, enquanto o preço pago ao produtor desde 1995, subiu apenas 15%, o custo dos insumos chegou a 60%. A saca de milho para semente, por exemplo, passou de R$ 20 para R$ 60, aumento de 200%. A ração teve reajuste de 89%, passando de R$ 7,40, em 1994, para R$ 14, em 2001. Por isso, o presidente da CPI não poupa críticas: "é uma brutal transferência de rendas do produtor para laticínios, fabricantes de insumos, medicamentos veterinários e de embalagens. Também ganham muito supermercados e indústria de derivados".

O produtor ponta-grossense Ubirajara Fustemberger garante que a atividade está em decadência no país. Ele diz que em 1995 havia 1,8 milhão de pecuaristas de leite no Brasil, em 2001 esse número caiu para 1,2 milhão. Para 2005 já existem previsões de que existirão apenas 400 mil produtores no segmento da pecuária leiteira (no Paraná, atualmente, existem 36 mil produtores).

Preço mínimo

Os produtores querem garantia de preço mínimo para o leite. Essa proposta deve constar do relatório final da CPI que será concluído em abril. A idéia foi apresentada à comissão pelo produtor da Sociedade Rural de Maringá, Neri Fabri, com o seguinte argumento: se o milho e a soja são produtos que têm garantia de preço mínimo, por que o mesmo não pode acontecer com o leite?

O objetivo é pré-fixar os preços do produto e o presidente da Comissão Técnica de Pecuária de Leite da Federação da Agricultura (Faep), Ronei Volpi, garante que "vamos nos mobilizar em âmbito nacional para o leite ser incluído no programa de preços mínimos do governo. Queremos pelo menos R$ 0,35 pelo litro". As audiências foram realizadas em Ponta Grossa, Guarapuava, Francisco Beltrão, Cascavel, Maringá e Londrina.

As conclusões da CPI serão discutidas pelos paranaenses com os representantes das CPI's do Leite dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás. Depois irão integrar um documento único que será apresentado à Comissão de Agricultura da Câmara Federal, em Brasília. O deputado federal Moacir Micheletto quer a criação de uma CPI nacional. Para ele existem três alternativas para o setor: "ou aumentamos o consumo interno, ou diminuímos a produção, ou partimos para a exportação".

Alternativas

O consumo de leite no Brasil é de 140 litros de leite per capita (23 bilhões de litros), baixo em comparação com a Itália ou a França, que consomem 400 l/ per capita, ou com a Argentina, cujo consumo é de 250 l/ per capita. Especialistas acreditam que existe campo para crescer no mercado interno de laticínios.

Já o presidente da Associação Norte Paranaense dos Produtores de Leite, Louiz Baudraz, defende a redução da produção. Segundo ele, o País produz mais do que consome.

O Brasil também pode se tornar competitivo no mercado internacional. Para isso, o presidente da Cooperativa Agropecuária de Cascavel (Coopavel), Dilvo Grolli, entende que o Estado precisa desburocratizar as exportações.

Fonte: Gazeta do Paraná (por Rodney Caetano), adaptado por Equipe MilkPoint
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