O Salers é um dos queijos franceses com selo AOP (denominação de origem protegida), certificação que estabelece regras para todas as etapas de produção, desde a obtenção do leite até a maturação. O queijo é produzido principalmente na região de Cantal, onde as vacas pastam em áreas de altitude, alimentando-se de uma vegetação considerada fundamental para as características do produto.
Entre as exigências está a produção entre 15 de abril e 15 de novembro, com alimentação predominantemente baseada em pasto. A suplementação é limitada a 25% da matéria seca e os alimentos permitidos também precisam seguir critérios de origem. Com a seca, essas regras se tornaram um obstáculo adicional para os produtores.
Um dos produtores citados na reportagem precisou interromper a fabricação de Salers em julho e passou a produzir Cantal, um queijo semelhante, mas com exigências menos rígidas. O Cantal pode ser produzido durante todo o ano e permite maior flexibilidade na alimentação das vacas.
Diante da seca considerada histórica, o órgão francês responsável pelas denominações de origem autorizou mudanças temporárias nas regras de alimentação para alguns queijos, como Beaufort, Comté e Abondance. Produtores também discutem alterações permanentes nas exigências, incluindo maior flexibilidade no período de pastoreio e no uso de alimentação suplementar.
A preocupação não é apenas com a quantidade de leite disponível, mas também com a qualidade dos queijos. Um estudo realizado pelo instituto francês INRAE simulou diferentes condições de seca ao alimentar vacas com proporções variadas de pasto, feno e milho.
Os resultados indicaram que os queijos produzidos com leite de vacas alimentadas principalmente com pasto apresentaram maiores níveis de ômega 3 e foram melhor avaliados em sabor, aroma, odor e textura. Segundo os pesquisadores, a alimentação com pasto resulta em queijos mais macios, amarelados e aromáticos, enquanto a menor presença de forragem pode gerar produtos mais firmes, claros e com sabores menos intensos.
Além dos efeitos sobre o produto final, o clima também vem afetando a produtividade dos rebanhos. Segundo produtores, vacas submetidas ao estresse térmico estão produzindo cerca de 10% menos leite e enfrentando períodos menores de pastoreio devido às secas frequentes.
(Hemis/Alamy Stock Photo)
No caso do Salers, a produção caiu de uma média de 1.500 toneladas por ano no início da década de 2010 para aproximadamente 1.000 toneladas atualmente. A falta de pasto também tem levado produtores a utilizar as reservas de feno destinadas ao inverno e aumentar os gastos com alimentação.
Outros queijos tradicionais, como Roquefort e Abondance, também enfrentam dificuldades para cumprir as exigências de pastoreio estabelecidas pelas denominações de origem. Para os produtores, o desafio é encontrar um equilíbrio entre adaptar as regras às novas condições climáticas e preservar as características que diferenciam cada produto.
(BROKER.com/Alamy)
Assim, as mudanças climáticas começam a pressionar não apenas a produção de leite e a rentabilidade das propriedades, mas também uma tradição que depende diretamente da relação entre animal, alimentação, território e produto final.
As informações são da CNN Portugal, resumidas pela Equipe MilkPoint.
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