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Em rusga entre Brasil e China, quem pode ganhar são os EUA

O agronegócio americano pode vir a ser o principal beneficiário do curto-circuito nas relações diplomáticas entre Brasil e China iniciado pela provocação do deputado federal Eduardo Bolsonaro de que a culpa pela pandemia do coronavírus era dos asiáticos. Esse é o principal temor de setores do governo brasileiro envolvidos em desfazer as tensões.

As exportações brasileiras para a China foram muito beneficiadas, tanto em volume quanto em preço, pela guerra comercial deste país com os Estados Unidos ao longo de 2018 e 2019. Com o acordo de janeiro último, o mercado chinês voltou a se abrir para os americanos, em condições que analistas consideraram desvantajosas para a China - seja pela promessa de volume acertado, seja pelas condições sanitárias que nenhum país jamais conseguiu estabelecer em patamar tão favorável quanto os americanos.

Com a guerra de tuítes, fontes do governo brasileiro temem que a China acabe por dar prioridade à soja dos EUA em detrimento da brasileira, se os produtores americanos oferecerem preços competitivos. A esperança das autoridades brasileiras é que o pragmatismo dos chineses não leve o país a uma dependência excessiva do mercado americano. Já dão como certo, no entanto, que o Brasil perderá cacife na arbitragem dos preços cobrados aos chineses.

Além da soja, o frango é o segundo produto que mais pode vir a ser afetado. Para analistas, a China não tem como abrir mão da carne brasileira - de porco, principalmente -, nem que o deputado Eduardo Bolsonaro esgote seu estoque de petardos contra aquele país.

A busca de uma nova tentativa de diálogo entre o presidente Jair Bolsonaro e o presidente chinês Xi Jinping, a ser pautada pelo pedido de ajuda em insumos hospitalares, não deixa de ser uma rendição brasileira à diplomacia do coronavírus com a qual a China vem estreitando relações em todo o mundo. Dessa diplomacia participam, inclusive, grandes empresários como Jack Ma, fundador do grupo Alibaba, que doou centenas de milhares de kits de testes e milhões de máscaras para a Europa e os Estados Unidos.

A primeira tentativa de diálogo entre o presidente brasileiro e o chinês esbarrou na muralha erguida por Xi Jinping, que respaldou a agressiva condução do episódio por seu embaixador. A tentativa foi confirmada pela nota da Embaixada da China no Brasil: “A parte chinesa não aceitou a gestão feita pelo embaixador Ernesto Araújo à noite do dia 18”. Na nota, Pequim diz que só aceita as desculpas do filho do presidente como ponto final para o imbróglio: “O deputado federal Eduardo Bolsonaro tem que pedir desculpa ao povo chinês por sua provocação flagrante”. A tentativa de abrir diálogo com o pedido de ajuda busca contornar esse condicionante.

Até agora, Eduardo Bolsonaro se limitou a dizer que jamais ofendeu o povo chinês e apenas compartilhou a crítica à atuação de Pequim na prevenção da pandemia. Acrescentou que não teve a pretensão de falar pelo governo brasileiro, mas o fez ao apelar ao plural majestático “não desejamos problema com a China”. A nota com a qual o deputado busca se retratar, quando diz que não quis ofender o povo chinês, mas criticar o governo daquele país, foi considerada ainda mais danosa.

Com os tuítes que precederam a nota, o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, que tem experiência na América Latina e senioridade suficiente no corpo diplomático do país para agir como porta-voz do governo na questão, deu seu recado e alcançou seu objetivo. O deputado Eduardo Bolsonaro ficou isolado. Os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, do Senado, Davi Alcolumbre, e do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, pediram desculpas. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Frente Parlamentar da Agricultura também soltaram notas em desagravo.

A guerra de tuítes entre o chanceler brasileiro Ernesto Araújo e o embaixador Yan Wanming alinha-se mais ao tom da diplomacia chinesa do que à tradição brasileira. “É inaceitável que o embaixador da China endosse ou compartilhe postagem ofensiva ao Chefe de Estado do Brasil e a seus eleitores”, disse o chanceler sobre compartilhamento de mensagem pelo embaixador em que um seguidor chamava a família Bolsonaro de “veneno”.

Yan Wanming desfez o compartilhamento, mas não baixou o tom de suas respostas a Eduardo Bolsonaro. A linguagem agressiva para os padrões da diplomacia ocidental - “Suas palavras são extremamente irresponsáveis e nos soam familiares. Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizades entre os nossos povos” - não destoa do tom com que a China se dirige à diplomacia canadense no caso da prisão de Meng Wanzhou, da Huawei, daquele usado para se dirigir à diplomacia sueca por ocasião do Prêmio Nobel ao ativista chinês Li Xiaobo ou da maneira como todas as representações diplomáticas têm sido tratadas em Pequim.

Em nota recente, o ministério das relações exteriores chinês acusou os diplomatas em Pequim de estarem se valendo da imunidade legal para não cumprirem a quarentena na volta de viagens. As atividades na capital chinesa já estão normalizadas, à exceção da tomada de temperatura, que continua a ser feita na entrada dos prédios públicos e privados e da intensa e histórica vigilância dos vizinhos em relação a comportamentos que se oponham às determinações do governo.

O conflito é o mais grave entre as relações bilaterais desde a posse de Jair Bolsonaro. Depois de uma campanha marcada por animosidade, o presidente rendeu-se ao peso da China nas relações bilaterais e optou pelo pragmatismo.

Em um dos momentos da troca de tuítes, o embaixador diz: “A história nos ensina que quem insiste em atacar e humilhar o povo chinês, acaba sempre dando um tiro no próprio pé”. Há 55 anos, logo depois da deposição de João Goulart, a polícia do governador do Rio, Carlos Lacerda, prendeu nove cidadãos chineses que estavam no Brasil para dar curso à aproximação entre os países iniciada pelo presidente deposto.

A polícia os acusou de serem agentes da “revolução comunista”. Foram torturados e tiveram suas contas confiscadas. Condenados a dez anos de prisão, foram expulsos e recebidos como heróis em Pequim. A condenação nunca foi revogada e o governo brasileiro nunca se posicionou sobre o assunto, como contam os jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Mello em “O Caso dos Nove Chineses” (Objetiva, 2014).

As informações são do Valor Econômico.

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