De acordo com Válter Galan, sócio do MilkPoint Mercado, consultoria especializada no mercado leiteiro, alguns produtos do segmento, como queijo muçarela, leite em pó em lata ou sachê e, principalmente, o leite UHT, registraram maior procura na última semana. O litro de leite UHT, por exemplo, subiu quase R$ 0,60, chegando a R$ 3, em média, nas prateleiras.
Segundo o consultor, a redução do fluxo de pessoas nas ruas, em quarentena para evitar a propagação do vírus, reduziu a demanda pelo queijo muçarela para o comércio, como bares, restaurantes e pizzarias. Por outro lado, o movimento foi compensado pelo aumento da procura nos supermercados, no qual o muçarela representa 30% da venda de queijos.
No geral, explica Galan, os lácteos não tiveram uma demanda excessiva porque são produtos de consumo a curto prazo. "No caso da muçarela, a alta não foi maior porque não é possível estocar como o leite. O mesmo ocorre com o iogurte, já que o armazenamento é feito por uma ou no máximo duas semanas em casa", diz o analista, citando que a manteiga é outro item que tem sido mais procurado neste período de quarentena.
Preços no campo
Outro fator para a elevação dos preços é a valorização do produto no campo. Em fevereiro, o preço do leite pago ao produtor foi de R$ 1,4175 por litro, alta de 3,6% na comparação com janeiro, segundo indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP divulgado na semana passada. No ano, a valorização já soma 4,83%.
Entre os motivos para a elevação no valor, de acordo com o levantamento, estão o atraso das chuvas da primavera no Sudeste e no Centro-Oeste, a estiagem prolongada no Sul, a menor disponibilidade de milho, usado para ração animal, e o abate de matrizes, por conta do maior preço da carne.
Oscilação na indústria
A análise do Cepea apontou, ainda, que, entre 2 e 16 de março, os preços médios do UHT e da muçarela recebidos pelas indústrias em São Paulo tiveram alta acumulada de 2,1% e de 0,9%, respectivamente.
No entanto, as cotações do leite em pó caíram 2,5% da primeira para a segunda semana de março. “A grande dificuldade do setor está em conseguir, neste cenário de oferta restrita, fazer o repasse da alta da matéria-prima aos derivados”, cita a nota técnica.
Segundo Marcelo Martins, diretor-executivo da Viva Lácteos, entidade que reúne 39 dos principais fabricantes do país e soma 70% da produção do setor, o segmento tem acompanhado o ritmo da economia brasileira, com queda durante a crise iniciada ao final de 2014 e retomada da produção desde o último trimestre de 2019.
A produção vinha em ascensão até 2014, quando chegou a 35 bilhões de litros. A partir de 2015, com o recuo de 3,55% no Produto Interno Bruto (PIB), o volume de leite caiu e só voltou a crescer em 2018, com 33,8 bilhões de litros. Ainda não há dados oficiais de 2019, mas a estimativa de analistas é de que a produção foi de 34,3 bilhões de litros, 500 milhões a mais do que no ano anterior.
No entanto, a preocupação com o impacto da paralisia adotada em decorrência do coronavírus cresce entre as empresas lácteas. Com a reversão na projeção de crescimento do país de elevação de 2,1% para uma estagnação ou queda de até 0,4%, o entendimento é que os consumidores tendem a diminuir a compra dos produtos.
Preocupação com logística
A exemplo dos produtores de grãos, a cadeia de lácteos teme ser prejudicada com a restrição da circulação de veículos durante a crise. A preocupação não é só com o deslocamento de mercadorias, mas também com o fornecimento de insumos, como combustíveis usados nos caminhões ou embalagens para os produtos.
Na sexta-feira (20/3), o presidente Jair Bolsonaro publicou um decreto definindo 35 atividades essenciais ao país, entre elas o fornecimento de combustíveis. O texto cita, ainda, “a disponibilização de insumos necessários ao funcionamento da cadeia produtiva”.
Mesmo assim, entidades do setor reiteram a necessidade de garantias à produção leiteira. Na segunda-feira (23/3), a Associação Brasileira de Produtores de Leite (Abraleite) pediu ao governo que se comprometa com a viabilidade da produção nas propriedades.
"Nos últimos dois dias, prefeitos de diversas cidades do país e governadores publicaram decretos obrigando o fechamento de fábricas, comércio e restrição de transporte, o que nos preocupou muito porque isso pode inviabilizar o funcionamento de nossa cadeia do leite", afirmou a Abraleite. “É muito importante a definição da essencialidade dos alimentos, com a garantia de que não haja interrupção da cadeia, para que os produtos cheguem ao consumidor”, ressalta Martins, da Viva Lácteos.
As informações são do Globo Rural.