Os cinco passos para a rentabilidade na produção leiteira - 4º Passo

Do ponto de vista técnico, as empresas produtoras de leite buscam a melhoria dos seus resultados zootécnicos, maximizando, com isso, o ganho econômico das suas explorações. Dentro desta linha, sabe-se atualmente que a variação das características de tipo, dentro de uma determinada raça, têm enorme influência na produção leiteira, conversão alimentar, fertilidade, desempenho reprodutivo e sanitário do rebanho leiteiro.

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4º passo: Tipo Funcional

Do ponto de vista técnico, as empresas produtoras de leite buscam a melhoria dos seus resultados zootécnicos, maximizando, com isso, o ganho econômico das suas explorações. Dentro desta linha, sabe-se atualmente que a variação das características de tipo, dentro de uma determinada raça, têm enorme influência na produção leiteira, conversão alimentar, fertilidade, desempenho reprodutivo e sanitário do rebanho leiteiro.

Cientes destas informações, a Holland Genetics (http://www.hg.nl) iniciou, a partir da década de 1990, um trabalho pioneiro para identificar o biotipo ideal de uma matriz leiteira e, a partir disto, permitir um incremento significativo na seleção genética dos bovinos leiteiros da raça Holandesa, nas suas variedades Preto e Branco e Vermelho e Branco.

Para tanto, inúmeros estudos científicos foram realizados de maneira inédita a partir do gigantesco banco de dados do NRS (http://www.nrs.nl), órgão responsável pelo controle zootécnico de 100% dos rebanhos da Holanda e da Bélgica, países que detêm o fantástico índice de possuírem a totalidade dos seus animais registrados e controlados.

Foram traçadas três linhas básicas de pesquisa, que se encontram descritas abaixo:

1)Definição do Biotipo Funcional Ideal da Vaca Leiteira;
2)Influência do Biotipo Funcional nas Características Produtivas;
3)Influência do Biotipo Funcional nas Características Reprodutivas e Sanitárias.

Na primeira delas, trabalhou-se com todas as características individuais da classificação linear para tipo e também com os seus respectivos compostos, correlacionando cada uma delas com a Taxa de Descarte das matrizes encontrada nestes animais, parâmetro técnico que possui a maior importância econômica e que é capaz de sintetizar os resultados técnicos, funcionais e produtivos das vacas leiteiras.

Para tanto, utilizou-se de informações provenientes de 560 mil animais classificados no NRS e dos quais já se dispunha de suas respectivas Taxas de Descarte.

Primeiramente, é importante conhecer as escalas utilizadas nas provas para tipo da Holanda para poder interpretá-las e compará-las com valores de provas realizadas em outras partes do mundo como, por exemplo, nos Estados Unidos, Canadá e Alemanha.

A figura abaixo mostra que a Holanda trabalha com uma média 100 e cada quatro pontos significam um desvio. Desta forma, de um modo geral, um valor 108 gerado na Holanda poderia ser comparado com + 2.00 PTAT (PTA Tipo) nos Estados Unidos ou + 10 de Conformação no Canadá ou 124 na Alemanha.

Pode-se também ver na distribuição destes índices para tipo que 95% dos touros estarão distribuídos em valores compreendidos entre 92 e 108. Portanto, um touro superior a 108 participa de um grupo seleto de animais composto pelos 2,5% dos animais superiores da raça.

Estes critérios são aplicados na provas holandesas para todas as características do perfil linear e os seus respectivos compostos, ou seja, força leiteira, úbere, pernas e patas e classificação final para tipo.

Eles também são utilizados nos parâmetros para durabilidade, sanidade de úbere, fertilidade e todas as demais características funcionais, tais como facilidade de parto, persistência, maturidade, temperamento, velocidade de ordenha, fertilidade materna, processo de parto, entre outros.

Figura 1. Comparações entre provas para tipo.

Figura 1

Onde:
NL = Holanda
USA = EUA
CAN = Canadá
DEU = Alemanha.

De modo geral, os compostos para tipo têm uma correlação linear inversa com a Taxa de Descarte, conforme pode ser visto nos gráficos abaixo, fornecidos pelo NRS.

Figura 2

Figura 3

Figura 4

Figura 5

Entretanto, quando se analisa individualmente cada característica do Perfil Linear, descobre-se que nem todas elas possuem correlação linear direta inversa com a funcionalidade. Isto quer dizer que, em boa parte delas, os valores extremados positivos são indesejáveis e prejudiciais.

Portanto, descobriu-se, com isso que, para muitos compostos, os melhores valores situavam-se próximos da média, ou seja, ambos os valores extremados (abaixo ou acima da média) geravam indivíduos inferiores do ponto de vista funcional.

Uma das grandes descobertas nessa área surgiu do estudo realizado entre o efeito do tamanho e a desempenho econômico na vida útil destes animais. Durante muito tempo, convencionou-se, erroneamente, que dentro de uma mesma raça os maiores indivíduos eram os mais produtivos.

Os resultados do NRS comprovaram que, dentro de uma mesma população de bovinos da raça holandesa, os animais mais eficientes são aqueles que apresentam estatura mediana, conforme pode ser observado no gráfico abaixo.

Efeito da Estatura na Taxa de Descarte das Matrizes da Raça Holandesa (NRS)

Figura 6

O gráfico acima mostra que o animal de estatura mediana (142-144 cm) é o que apresenta a menor taxa de descarte. Os animais pequenos são descartados, em sua grande maioria, pela baixa capacidade produtiva. Já os animais grandes apresentam elevada taxa de descarte, uma vez que não conseguem sobreviver por muito tempo dentro dos rebanhos leiteiros.

Desta forma, os estudos do NRS mostraram que a vaca leiteira funcional é aquela que apresenta uma estatura mediana, excelente conjunto de pernas e patas, aparelhos mamários bem aderidos ao corpo, com durabilidade positiva e portadores de ótimas características produtivas e funcionais mencionadas nas provas dos seus pais.

Desta forma, criou-se o conceito da "Vaca harmônica", ou seja, aquela vaca capaz de conciliar as características funcionais desejáveis de tipo.

Um perfil ideal da Vaca Funcional pode ser visto no gráfico abaixo:

Figura 7

O gráfico acima mostra que, do ponto de vista funcional, as características para tipo podem ser classificadas em três grandes grupos, a saber:

1) Que apresenta correlação direta entre tipo e funcionalidade:

Neste caso, quanto maior for o valor da característica, melhor a funcionalidade deste animal. Enquadram-se nesta categoria os quatros compostos para tipo (força, úbere, pernas e patas e tipo final), os perfis lineares para pernas vistas por trás, locomoção, altura de úbere posterior, ligamento suspensor médio, colocação de tetos anteriores e posteriores.

2) Que apresenta valores ideais em torno da média (100):

Busca-se com isso valores próximos da média, ou seja, oscilando entre 98 a 102, tais como: estatura, abertura de peito, capacidade corporal, ângulo de garupa, largura de garupa, característica leiteira, pernas traseiras vista lateral, diagonal de casco e comprimento de tetos.

3) Que apresenta valores ideais um pouco acima da média (106):

Neste caso, deseja-se trabalhar com valores acima da média, situados de maneira intermediária entre esses e aqueles resultados extremados. Como principais características, destacam-se a profundidade de úbere e a inserção de úbere anterior.

Isto quer dizer que o ideal é trabalhar com úberes bem aderidos ao corpo e inseridos fortemente ao ventre, mas não extremados nessas características, fato que permite aos animais apresentarem elevada capacidade produtiva de leite.

Desta forma, pode-se concluir que nem todas as características para tipo precisam apresentar elevado desvio positivo para serem consideradas desejáveis. Uma série delas se situar em torno da média e existe ainda um outro grupo, cujo ideal é trabalhar com um desvio médio positivo, porém não extremado em relação ao parâmetro médio 100.

Por fim, pode-se criar hipoteticamente o perfil do tipo indesejável das matrizes leiteiras, que pode ser visualizado no gráfico abaixo. Nele observa-se que, ao contrário do que se pensava antes, existem muitas características cujos desvios positivos extremados são indesejáveis e prejudiciais.

Podem-se citar dentro deste grupo as seguintes características para o perfil linear do tipo:

a)Estatura;
b)Capacidade Corporal;
c)Largura de Garupa;
d)Característica Leiteira;
e)Pernas traseiras vistas lateral;
f)Comprimento de tetos.

Figura 8

Os gráficos abaixo mostram os resultados do estudo do NRS para algumas características do perfil linear cujos desvios extremados, acima ou abaixo da média, são indesejáveis:

Figura 9

Figura 10

Figura 11

Figura 12

Estas importantes descobertas do NRS foram capazes de criar cientificamente o conceito da vaca funcional, norteando todo o sistema de seleção e melhoramento genético realizado pela HG na Holanda.

De posse dessas informações, consegue-se interpretar melhor as provas dos touros, buscando selecionar corretamente aquelas características para tipo que apresentam grande influência no desempenho técnico e econômico das matrizes leiteiras.

A Holanda é sabidamente o País que possui a melhor seleção genética de bovinos leiteiros para produção de sólidos do mundo, especialmente gordura e proteína. Com o domínio informacional do NRS, pôde-se desenvolver também na Holanda o conceito da vaca funcional de lucrativa.

O intenso uso desse conceito permitiu que se produzissem naquele País vacas tecnicamente mais eficientes e economicamente mais rentáveis. O melhoramento genético visando o incremento da rentabilidade deve atentar para a geração de vacas funcionais.

Quando se fala em aumento da lucratividade na produção leiteira, deve-se utilizar, prioritariamente, no programa de melhoramento genético o conceito da vaca funcional, através do conhecimento e uso do modelo de biotipo harmônico, ou seja, aquele que é capaz de maximizar a produção de leite e de sólidos na vida útil das matrizes, permitindo potencializar o resultado econômico da exploração.
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