Nos três primeiros artigos da série "Os cinco passos para a rentabilidade na produção leiteira", discorremos sobre a filosofia de melhoramento genético de bovinos leiteiros desenvolvido pela nossa matriz na Holanda, a Holland Genetics (HG), e tratamos, ainda, dos dois primeiros passos que influenciam no resultado técnico e econômico das matrizes leiteiras, tais como a Durabilidade, Sanidade de Úbere e fertilidade.
Falaremos, agora, do terceiro passo da rentabilidade, ou seja, daquele importante passo que determina a receita do fazendeiro. Trata-se, portanto, da produção de leite e de sólidos (gordura e proteína), que exerce enorme influência genética no aumento do volume de leite produzido e do seu respectivo nível e quantidade de sólidos (gordura e proteína).
Para tanto, as provas dos touros da HG exibem cinco parâmetros básicos relativos ao seu mérito genético para produção de leite e de sólidos, ou seja:
a)Quantidade de Leite (kg Leite);
b)Nível de Gordura (% de Gordura);
c)Nível de Proteína (% de Proteína);
d)Quantidade de Gordura (kg de Gordura);
e)Quantidade de Proteína (kg de Proteína).
Tais indicadores técnicos são calculados através da diferença obtida entre o desempenho produtivo médio das filhas de um touro num determinado país (produção de leite e nível de sólidos), quando comparado à média de produção de todo o rebanho de vacas daquela mesma nação onde este reprodutor foi provado.
Do ponto de vista de foco de melhoramento genético de bovinos leiteiros para produção, o mundo atual se encontra dividido em dois grandes blocos: a Europa, que busca o crescimento simultâneo da produção e do nível de sólidos do leite (gordura e proteína), e a América do Norte (EUA e Canadá), que está trabalhando basicamente no aumento do volume de leite, sem se importar tanto com a elevação do nível de sólidos.
Na tabela 1, podemos constatar que a Holanda detém a liderança européia na produção de sólidos: kg Gordura (G) mais kg Proteína (P). Por outro lado, Estados Unidos e Canadá trabalham com elevadas produções de leite, mas com baixo nível de sólidos. Finalmente, embora na Oceania as produções leiteiras sejam bem mais baixas daquelas registradas nos demais países, o nível de sólidos é ligeiramente superior aos encontrados nos EUA e Canadá e bem abaixo daquele visto na Holanda. Isto prova que na Holanda atingiu-se elevadas produções leiteiras e com altos níveis de sólidos (gordura e proteína).
Tabela 1. Produção de leite e de sólidos de vacas Holandesas Preto e Branco

Vale destacar que os touros da HG vêm das famílias de vacas mais produtivas e com mais elevado nível de sólidos do mundo. Na tabela 2, pode-se comprovar a evolução da produção de leite e de sólidos das vacas holandesas na Holanda nos últimos 15 anos:
Tabela 2: Produção das vacas Holandesas Preto e Branco na Holanda (305 dias)

Quando se busca o aumento do potencial genético para produção de leite, utiliza-se predominantemente o parâmetro kg de leite. Entretanto, caso o objetivo seja a elevação simultânea da produção de leite e do nível e quantidade de sólidos do rebanho, deve-se optar, preferencialmente, pela escolha de touros com os seguintes perfis listados abaixo:
1)Positivos para kg de leite e positivos para % de gordura e % de proteína ou
2)Positivos para kg de leite e positivos para kg de gordura e kg de proteína.
Desta forma, há como direcionar adequadamente o melhoramento genético visando uma elevação da produção de leite e de sólidos. Para melhor exemplificar os efeitos práticos da utilização de touros com diferentes perfis de produção de leite e de sólidos, apresentamos a seguir os resultados alcançados com a utilização de três touros com características distintas em um rebanho de 100 vacas, com produção inicial média de 8.200 kg de Leite (em 305 dias), com 3,70% de Gordura e 3,25% de Proteína.
A tabela 3 mostra as diferenças existentes nas provas de produção de três touros distintos:
Tabela 3. Provas de três diferentes touros da Holland Genetics

Fonte: Lagoa, 2006 (http://www.lagoa.com.br)
Pelos resultados da tabela acima, têm-se três touros com diferentes perfis de produção:
1)Addison: elevada produção de leite (kg de leite) e negativo para % de G e % de P. Entretanto, ele apresenta resultados positivos para kg de G e kg de P. Touro com perfil para elevação da produção de leite e quantidade de sólidos;
2)Harry: mediana produção leiteira (kg de leite), bastante positivo para % G, % P, kg G e kg P. Touro com perfil para elevação da produção de sólidos.
3)Hokes: mediana produção leiteira (kg de leite), negativo para % G, % P, kg G e kg P. Touro com perfil para redução no nível e na quantidade de sólidos.
De posse destas informações, pode-se calcular os resultados advindos da utilização hipotética de um desses touros em 100% do rebanho.
Tabela 4. Efeito no rebanho (usando em 100% mesmo)

Hokes = perfil mediano para a produção leiteira e negativo para sólidos;
Addison = perfil elevado para a produção leiteira e kg de sólidos;
Harry = perfil mediano para a produção leiteira e elevado para sólidos.
Como era de se esperar, as filhas de Hokes vão apresentar um ligeiro crescimento na produção de leite, com redução significativa no nível (% e/ou kg) de sólidos (G e P). Por outro lado, filhas do Addison vão produzir muito mais leite, com ligeira redução no nível percentual de sólidos e aumento na quantidade de G e de P. Finalmente, filhas do Harry mostrarão ligeiro aumento da produção de leite, com significativa elevação no nível e na quantidade de sólidos (% ou kg G e de P).
Tabela 5. Receitas anuais no rebanho de 100 vacas (em R$)

Como efeito comparativo, considerou-se para o cálculo dos resultados contidos na tabela 5 dois mercados distintos para a venda do leite:
a)Mercado de Leite Fluido: pagando-se exclusivamente pelo volume de leite entregue, à proporção de R$ 0,55/kg de leite;
b)Mercado de Sólidos: remunerando-se pelo volume de leite (R$ 0,5206/kg de leite), acrescidos do diferencial do nível de sólidos. Para tanto, trabalhou-se com bonificação acima de 3,09% para Proteína e maior que 3,29% para % de Gordura, baseados no Sistema de Valorização da Qualidade (SVQ) da DPA em vigor no Brasil (http://www.dpam.com.br/produtor).
Os resultados da tabela 5 comprovam claramente os seguintes fatos:
1)Deve-se evitar a utilização de touros negativos para sólidos (nível e quantidade), independentemente da característica do mercado onde se esteja trabalhando, ou seja, havendo ou não o diferencial de recebimento pelo nível e quantidade de sólidos;
2)Touros com elevado mérito genético para kg de leite, kg de gordura e kg de proteína podem gerar resultados excelentes em ambos os mercados que pagam ou não o diferencial de qualidade de sólidos;
3)Touros com elevados méritos genéticos para nível e quantidade de sólidos, mas com produções medianas de leite, são muito interessantes nos mercados que buscam a elevação no nível e na quantidade de sólidos produzidos.
Comentei no início que o mérito genético de produção de um determinado touro provado é calculado em função da diferença existente entre o desempenho médio das suas filhas, quando comparado à média do rebanho do País onde ele foi testado. Desta forma, os resultados obtidos nas provas de touros testados em várias partes do mundo são influenciados pela média dos rebanhos onde estes touros foram testados.
Para facilitar a comparação entre os resultados obtidos nas provas de produção dos touros testados em diversos países, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) criou, através do AIPL, as tabelas de conversão nas quais pode-se estimar e comparar os valores destas provas de produção de leite, kg de gordura e kg de proteína.
Nas tabelas abaixo do anexo 1, pode-se observar os valores correspondentes para as provas de produção de leite, kg de gordura e kg de proteína de touros testados em países como Holanda, EUA, Canadá (CAN), França, Alemanha, Itália, Espanha e Nova Zelândia. Pelos resultados abaixo, pode-se constatar, por exemplo, que um touro com prova de 1.000 kg de Leite na Holanda, equivaleria a 922 libras (lb) de Leite nos EUA ou a 1.627 kg de Leite no Canadá.
Sendo assim, a Holanda está posicionada na liderança em termos de produção de leite, com valores semelhantes aos encontrados em países como EUA, França e Espanha e muito à frente do Canadá, Alemanha, Itália e Nova Zelândia.
Por outro lado, quando o assunto são os sólidos, pode-se ver que a Holanda detém a liderança mundial na produção de kg de gordura e kg de proteína, estando bem à frente de todos os demais países importantes em seleção genética listados neste anexo.
O aumento da lucratividade do processo produtivo leiteiro está condicionado à geração de filhas mais produtivas, do ponto de vista de volume de leite e principalmente com um maior nível e quantidade de sólidos.
A Holanda é, reconhecidamente, o País que possui a melhor seleção genética do mundo para a produção de sólidos e de leite de bovinos leiteiros das raças holandesa preta e branca ou vermelha e branca.
O melhoramento genético buscando o aumento da lucratividade deve buscar a geração de filhas mais produtivas dentro dos rebanhos. Quando se fala em produtividade leiteira, deve-se atentar para o aumento do volume de leite, do nível e da quantidade de sólidos produzidos.
Clique aqui para ver o anexo 1.