Durante muito tempo, a comunicação entre produtores e consumidores foi baseada principalmente na transmissão de informações: explicar como a fazenda funciona, apresentar os protocolos e mostrar os cuidados com os animais. Uma pesquisa recente, publicada no Journal of Dairy Science, avaliou se esse contato direto realmente muda a percepção do público sobre a produção leiteira — e por quanto tempo esse efeito permanece.
O estudo acompanhou visitantes de três fazendas comerciais durante eventos de visitação no Canadá. A principal conclusão é direta: a visita à fazenda funciona. Mas informar, sozinho, não é suficiente para construir confiança duradoura. Confira a pesquisa em números:
- 286 visitantes participaram das avaliações antes e imediatamente após as visitas;
- 128 pessoas responderam também ao questionário realizado duas semanas depois;
- 3 fazendas comerciais participaram do estudo;
- As propriedades estavam localizadas em Alberta, no Canadá;
- 30 produtores e representantes da cadeia foram treinados para conduzir os tours;
- As visitas duraram entre 30 minutos e 1 hora;
Foram comparados dois estilos de comunicação: educação mais tradicional, com o produtor transmitindo informações; abordagem baseada em diálogo, com estímulo a perguntas e opiniões.
Os pesquisadores avaliaram três temas centrais para a imagem da cadeia leiteira:
- Bem-estar e qualidade de vida das vacas;
- Qualidade e segurança dos produtos lácteos;
- Responsabilidade ambiental dos produtores.
O público aprendeu mais depois de conhecer a fazenda
Antes da visita, os participantes acertaram, em média, 58% das perguntas sobre a produção leiteira. Depois do tour, esse índice subiu para 86,1% — um aumento de aproximadamente 28 pontos percentuais. As maiores mudanças ocorreram justamente em temas que costumam gerar dúvidas entre os consumidores, como:
- Separação entre vacas e bezerros;
- Sistemas de alojamento;
- Uso de medicamentos;
- Práticas ambientais adotadas nas propriedades.
O resultado mostra que a experiência presencial ajuda o visitante a compreender aspectos que dificilmente seriam assimilados apenas por meio de uma publicação, anúncio ou vídeo curto. Ver a estrutura, observar os animais e conversar com quem trabalha diariamente na fazenda transforma uma informação abstrata em uma experiência concreta. A percepção melhorou imediatamente após a visita, pois logo depois do tour, a avaliação dos visitantes tornou-se mais positiva nos três temas analisados.
Bem-estar animal: 78,3% melhoraram sua avaliação ou mantiveram a nota máxima; 9,6% tiveram uma mudança negativa; 2,1% não mudaram sua avaliação.
Qualidade dos produtos lácteos: 87,5% melhoraram sua percepção ou permaneceram na avaliação mais positiva; 4,4% passaram a avaliar o tema de forma mais negativa; 8,1% não mudaram sua opinião.
Responsabilidade ambiental: 85,3% melhoraram sua percepção ou mantiveram a nota máxima; 5,1% tiveram uma mudança negativa; 9,6% não apresentaram mudança.
Esses números mostram que a visita guiada pode gerar um impacto positivo importante na percepção do consumidor, especialmente quando ele tem pouco contato prévio com a realidade da produção leiteira. O efeito positivo não foi totalmente mantido. O resultado mais relevante para a comunicação do setor apareceu duas semanas depois.
Parte dos visitantes voltou a apresentar uma percepção mais negativa:
- 21,1% passaram a avaliar o bem-estar animal de forma menos positiva;
- 17,9% reduziram sua avaliação sobre a responsabilidade ambiental;
- 10,6% tiveram uma percepção menos positiva sobre a qualidade dos produtos lácteos.
Mesmo assim, a maioria continuou apresentando uma avaliação positiva:
- 89,4% mantiveram uma percepção positiva sobre o bem-estar animal;
- 96,7% mantiveram uma percepção positiva sobre a qualidade dos produtos;
- 86,2% continuaram avaliando positivamente a responsabilidade ambiental.
A visita, portanto, não foi esquecida. Porém, algumas dúvidas permaneceram ou voltaram a aparecer quando os visitantes tiveram tempo para refletir sobre a experiência. Quais questões mais chamaram a atenção? As principais preocupações dos participantes estavam relacionadas a temas que envolvem valores e expectativas sobre como os animais deveriam viver:
- Separação entre a vaca e o bezerro;
- Falta de acesso a áreas externas ou pastagens;
- Espaço disponível para os animais;
- Condições de alojamento dos bezerros;
- Manejo de dejetos;
- Impacto ambiental da atividade leiteira.
Esse resultado traz um alerta importante: nem toda dúvida do consumidor é causada simplesmente por falta de informação. Muitas vezes, o visitante entende a explicação técnica, mas continua avaliando a prática a partir de seus próprios valores — por exemplo, a preferência por sistemas mais próximos daquilo que considera “natural”. Por isso, responder apenas com dados pode não ser suficiente. É necessário explicar o motivo das decisões, reconhecer que existem diferentes percepções e criar espaço para uma conversa respeitosa.
Educação ou diálogo: qual abordagem funcionou melhor?
O estudo comparou uma comunicação mais educativa com uma abordagem que estimulava perguntas e diálogo. Surpreendentemente, não houve diferença significativa entre os dois estilos em relação ao conhecimento ou à mudança de percepção. Os pesquisadores apontam algumas possíveis explicações:
- Os visitantes já apresentavam uma percepção bastante positiva sobre o setor;
- As respostas ficaram próximas da avaliação máxima, limitando a possibilidade de observar diferenças;
- As visitas ocorreram em grupos e em um ambiente movimentado;
- O tempo para conversas mais profundas era limitado;
- O treinamento dos produtores foi relativamente curto;
Na prática, os dois estilos de comunicação podem ter sido mais parecidos do que o planejado.
Isso não significa que o diálogo não seja importante. A conclusão é que uma conversa realmente transformadora exige tempo, escuta e continuidade, algo difícil de alcançar em uma visita rápida e com muitas pessoas.
O que o produtor pode aprender com esse estudo?
A pesquisa oferece algumas orientações práticas para produtores, cooperativas, empresas e entidades do setor:
- Mostrar é mais poderoso do que apenas explicar. A estrutura, os animais e a rotina ajudam o público a compreender a realidade da produção;
- Transparência é essencial. Os visitantes querem conhecer tanto os pontos positivos quanto os desafios;
- As perguntas difíceis precisam ser antecipadas. Bem-estar, bezerros, pastagens, medicamentos, dejetos e sustentabilidade devem fazer parte da conversa;
- O “como” deve vir acompanhado do “por quê”. Explicar a razão de uma prática ajuda o visitante a compreender sua finalidade;
- A comunicação não deve acontecer apenas uma vez. A confiança é construída com presença, consistência e relacionamento;
- O produtor também precisa ouvir. Conhecer as preocupações da sociedade ajuda o setor a melhorar suas práticas e sua forma de comunicá-las.
A mensagem para a cadeia leiteira
As visitas guiadas aumentam o conhecimento, aproximam o consumidor do produtor e melhoram a percepção sobre a atividade leiteira. Mas seu impacto mais profundo está em criar uma oportunidade de relacionamento. O estudo mostra que a comunicação do setor não deve ser tratada apenas como uma ferramenta para “corrigir desinformações”. Ela precisa ser vista como uma forma de entender o que a sociedade valoriza, quais são suas dúvidas e onde existem diferenças entre a visão do produtor e a do consumidor.
A visita à fazenda pode mudar uma percepção em poucas horas. A confiança, porém, é construída ao longo do tempo. Para o futuro da atividade leiteira, abrir as portas é um passo importante. O próximo passo é manter a conversa aberta.
Fonte
Smid et al. Effect of farmer-guided farm tours on public knowledge of and attitudes toward dairy cattle welfare, dairy product quality, and environmental sustainability in Canada. Journal of Dairy Science, 2026.