Qual o real impacto de visitas guiadas em fazendas? Muito mais importante do que parece

O estudo acompanhou visitantes de três fazendas comerciais durante eventos de visitação no Canadá. A principal conclusão é direta.

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Um estudo canadense revela que visitas a fazendas melhoram a compreensão pública sobre bem-estar animal, qualidade dos produtos lácteos e responsabilidade ambiental, mas a confiança precisa ser continuamente cultivada. Embora a percepção tenha melhorado após as visitas, algumas dúvidas retornaram duas semanas depois. O estudo destaca a importância de uma comunicação que combine transparência e diálogo, enfatizando que relacionamentos duradouros são essenciais para a confiança no setor.
Estudo realizado no Canadá mostra que abrir as portas da fazenda aumenta o conhecimento do público e melhora, inicialmente, a percepção sobre bem-estar animal, qualidade dos lácteos e responsabilidade ambiental. Mas também revela que a confiança precisa ser construída continuamente.

Durante muito tempo, a comunicação entre produtores e consumidores foi baseada principalmente na transmissão de informações: explicar como a fazenda funciona, apresentar os protocolos e mostrar os cuidados com os animais. Uma pesquisa recente, publicada no Journal of Dairy Science, avaliou se esse contato direto realmente muda a percepção do público sobre a produção leiteira — e por quanto tempo esse efeito permanece.

O estudo acompanhou visitantes de três fazendas comerciais durante eventos de visitação no Canadá. A principal conclusão é direta: a visita à fazenda funciona. Mas informar, sozinho, não é suficiente para construir confiança duradoura. Confira a pesquisa em números: 

  • 286 visitantes participaram das avaliações antes e imediatamente após as visitas;
  • 128 pessoas responderam também ao questionário realizado duas semanas depois;
  • 3 fazendas comerciais participaram do estudo;
  • As propriedades estavam localizadas em Alberta, no Canadá;
  • 30 produtores e representantes da cadeia foram treinados para conduzir os tours;
  • As visitas duraram entre 30 minutos e 1 hora;

Foram comparados dois estilos de comunicação: educação mais tradicional, com o produtor transmitindo informações; abordagem baseada em diálogo, com estímulo a perguntas e opiniões.

Os pesquisadores avaliaram três temas centrais para a imagem da cadeia leiteira:

  • Bem-estar e qualidade de vida das vacas;
  • Qualidade e segurança dos produtos lácteos;
  • Responsabilidade ambiental dos produtores.

O público aprendeu mais depois de conhecer a fazenda

Antes da visita, os participantes acertaram, em média, 58% das perguntas sobre a produção leiteira. Depois do tour, esse índice subiu para 86,1% — um aumento de aproximadamente 28 pontos percentuais. As maiores mudanças ocorreram justamente em temas que costumam gerar dúvidas entre os consumidores, como:

  • Separação entre vacas e bezerros;
  • Sistemas de alojamento;
  • Uso de medicamentos; 
  • Práticas ambientais adotadas nas propriedades.

O resultado mostra que a experiência presencial ajuda o visitante a compreender aspectos que dificilmente seriam assimilados apenas por meio de uma publicação, anúncio ou vídeo curto. Ver a estrutura, observar os animais e conversar com quem trabalha diariamente na fazenda transforma uma informação abstrata em uma experiência concreta. A percepção melhorou imediatamente após a visita, pois logo depois do tour, a avaliação dos visitantes tornou-se mais positiva nos três temas analisados.

Bem-estar animal: 78,3% melhoraram sua avaliação ou mantiveram a nota máxima; 9,6% tiveram uma mudança negativa; 2,1% não mudaram sua avaliação.

Qualidade dos produtos lácteos: 87,5% melhoraram sua percepção ou permaneceram na avaliação mais positiva; 4,4% passaram a avaliar o tema de forma mais negativa; 8,1% não mudaram sua opinião.

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Responsabilidade ambiental: 85,3% melhoraram sua percepção ou mantiveram a nota máxima; 5,1% tiveram uma mudança negativa; 9,6% não apresentaram mudança.

Esses números mostram que a visita guiada pode gerar um impacto positivo importante na percepção do consumidor, especialmente quando ele tem pouco contato prévio com a realidade da produção leiteira. O efeito positivo não foi totalmente mantido. O resultado mais relevante para a comunicação do setor apareceu duas semanas depois.

Parte dos visitantes voltou a apresentar uma percepção mais negativa:

  • 21,1% passaram a avaliar o bem-estar animal de forma menos positiva;
  • 17,9% reduziram sua avaliação sobre a responsabilidade ambiental;
  • 10,6% tiveram uma percepção menos positiva sobre a qualidade dos produtos lácteos.

Mesmo assim, a maioria continuou apresentando uma avaliação positiva:

  • 89,4% mantiveram uma percepção positiva sobre o bem-estar animal;
  • 96,7% mantiveram uma percepção positiva sobre a qualidade dos produtos;
  • 86,2% continuaram avaliando positivamente a responsabilidade ambiental.

A visita, portanto, não foi esquecida. Porém, algumas dúvidas permaneceram ou voltaram a aparecer quando os visitantes tiveram tempo para refletir sobre a experiência. Quais questões mais chamaram a atenção? As principais preocupações dos participantes estavam relacionadas a temas que envolvem valores e expectativas sobre como os animais deveriam viver:

  • Separação entre a vaca e o bezerro;
  • Falta de acesso a áreas externas ou pastagens;
  • Espaço disponível para os animais;
  • Condições de alojamento dos bezerros;
  • Manejo de dejetos;
  • Impacto ambiental da atividade leiteira.

Esse resultado traz um alerta importante: nem toda dúvida do consumidor é causada simplesmente por falta de informação. Muitas vezes, o visitante entende a explicação técnica, mas continua avaliando a prática a partir de seus próprios valores — por exemplo, a preferência por sistemas mais próximos daquilo que considera “natural”. Por isso, responder apenas com dados pode não ser suficiente. É necessário explicar o motivo das decisões, reconhecer que existem diferentes percepções e criar espaço para uma conversa respeitosa.

Educação ou diálogo: qual abordagem funcionou melhor?

O estudo comparou uma comunicação mais educativa com uma abordagem que estimulava perguntas e diálogo. Surpreendentemente, não houve diferença significativa entre os dois estilos em relação ao conhecimento ou à mudança de percepção. Os pesquisadores apontam algumas possíveis explicações:

  • Os visitantes já apresentavam uma percepção bastante positiva sobre o setor;
  • As respostas ficaram próximas da avaliação máxima, limitando a possibilidade de observar diferenças;
  • As visitas ocorreram em grupos e em um ambiente movimentado;
  • O tempo para conversas mais profundas era limitado;
  • O treinamento dos produtores foi relativamente curto;

Na prática, os dois estilos de comunicação podem ter sido mais parecidos do que o planejado.

Isso não significa que o diálogo não seja importante. A conclusão é que uma conversa realmente transformadora exige tempo, escuta e continuidade, algo difícil de alcançar em uma visita rápida e com muitas pessoas.

O que o produtor pode aprender com esse estudo?

A pesquisa oferece algumas orientações práticas para produtores, cooperativas, empresas e entidades do setor:

  • Mostrar é mais poderoso do que apenas explicar. A estrutura, os animais e a rotina ajudam o público a compreender a realidade da produção;
  • Transparência é essencial. Os visitantes querem conhecer tanto os pontos positivos quanto os desafios;
  • As perguntas difíceis precisam ser antecipadas. Bem-estar, bezerros, pastagens, medicamentos, dejetos e sustentabilidade devem fazer parte da conversa;
  • O “como” deve vir acompanhado do “por quê”. Explicar a razão de uma prática ajuda o visitante a compreender sua finalidade;
  • A comunicação não deve acontecer apenas uma vez. A confiança é construída com presença, consistência e relacionamento;
  • O produtor também precisa ouvir. Conhecer as preocupações da sociedade ajuda o setor a melhorar suas práticas e sua forma de comunicá-las.

A mensagem para a cadeia leiteira

As visitas guiadas aumentam o conhecimento, aproximam o consumidor do produtor e melhoram a percepção sobre a atividade leiteira. Mas seu impacto mais profundo está em criar uma oportunidade de relacionamento. O estudo mostra que a comunicação do setor não deve ser tratada apenas como uma ferramenta para “corrigir desinformações”. Ela precisa ser vista como uma forma de entender o que a sociedade valoriza, quais são suas dúvidas e onde existem diferenças entre a visão do produtor e a do consumidor.

A visita à fazenda pode mudar uma percepção em poucas horas. A confiança, porém, é construída ao longo do tempo. Para o futuro da atividade leiteira, abrir as portas é um passo importante. O próximo passo é manter a conversa aberta.

Fonte 

Smid et al. Effect of farmer-guided farm tours on public knowledge of and attitudes toward dairy cattle welfare, dairy product quality, and environmental sustainability in Canada. Journal of Dairy Science, 2026.

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Material escrito por:

TIMOTHEO SOUZA SILVEIRA

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