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Fazendas 4.0: a história da canadense Hoel Holstein

POR RAQUEL MARIA CURY PEREIRA

RAQUEL MARIA CURY RODRIGUES

EM 24/05/2019

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Aplicativos, softwares, robôs, drones, inteligência artificial no campo... quem achava que esses termos estavam muito distantes da realidade do produtor de leite brasileiro, se enganou. Ferramentas que contribuem com a leiteria surgem a todo momento, o que gera perspectivas para melhor produtividade animal e consequente expansão da produção de leite. Confira a 2ª edição do Especial Fazendas 4.0, que dessa vez, trouxe um caso internacional.

Uma fazenda chamada Hoel Holstein

Localizada no Beautiful Fraser Valley, há uma propriedade que fica a duas horas de Vancouver, British Columbia, Canadá, e que no momento, é representada pela segunda geração de produtores de leite da família. Por meio da ajuda do estudante de medicina veterinária Valdoir Cavalheiro, que presta assistência na propriedade através do seu estágio e assistência em pesquisas na University of British Columbia (UBC), realizamos uma entrevista com Greg Vanderhoek, proprietário da fazenda, que nos contou toda a sua história no negócio.

“Meu pai comprou a fazenda com 128 ha em 1972. Ele iniciou com cerca de 30 vacas e foi o pioneiro no nosso negócio de família. Ele aumentou o negócio em cerca de 80 vacas e - em meados de 2000 - eu e meu irmão começamos a assumir, criando a companhia, cujo nome permanece até hoje. Se não fosse o meu pai compartilhar toda a sua experiência conosco, não expandiríamos a fazenda. Por isso, somos muito gratos a ele e por todo o difícil trabalho que realizou”.


Irmãos Vanderhoek

Na Hoel Holstein, são produzidos 10 mil litros de leite/dia e a taxa média de gordura no leite é de 4,1%. “Nosso objetivo por dia é produzir 425 kg de gordura e para isso, estamos buscando produzir um leite com 4,3% de gordura a fim de alcançar essa quantia. A média de produção de leite por vaca é cerca de 40 litros e os robôs surgiram para nós como uma nova oportunidade, nunca nos esquecendo da preocupação em também evoluir a qualidade das vacas em paralelo às tecnologias”.

Segundo Greg, os animais da fazenda são principalmente da raça Holandesa, mas, há alguns anos, a equipe notou uma certa dificuldade na parição e resolveu introduzir um macho Jersey com algumas das novilhas, resultando em animais Jersolando.

“Gostamos do Holandês por conta do alto volume de leite produzido, e com o cruzamento, temos também de quebra uma boa porcentagem de gordura. Algumas indústrias aqui da região inclusive dizem que os animais Jersolando são ‘melhores’ já que têm menores requerimentos alimentares, se alimentam com menores quantias, produzem muita gordura e menos esterco, fato que impacta em uma menor área para descarte de resíduos e consequentemente, causam menos danos ao meio ambiente”.

Uso de robôs na Hoel Holstein

Para os irmãos Vanderhoek, os robôs deram a oportunidade de eles produzirem um leite de alta qualidade e reduzirem a incidência de mastite. “Nossa Contagem de Células Somáticas (CCS) atualmente é de 90.000 células/ml. Optamos pela ordenha robótica porque não queríamos mais ter o trabalho de levar as vacas até a ordenha, já que – frequentemente - encontrávamos os nossos colaboradores sem muita paciência com o rebanho nesse trajeto. Como o sistema implantado, elas vão para a ordenha quando é conveniente para elas, sem qualquer tipo de estresse. A tecnologia que optamos realiza várias ações: os tetos são limpos, estimulados e ocorre um descarte dos primeiros 3 ml de leite. Também, passamos a detectar com mais facilidade as vacas que apresentam sinais de cetose ou novilhas com queda na produção de leite”.

Confira os vídeos abaixo dos robôs atuando: 

No caso da fazenda canadense, foram reduzidas aproximadamente 4 horas de trabalho por ordenha, e como eram realizadas 3 ordenhas por dia, no total, ocorreu uma ‘economia’ de 16 horas nessa função.

“Isso fez com que direcionássemos essas horas para um maior cuidado com a alimentação das bezerras, inseminação, manutenção das baias no barracão, outras questões da ordenha, entre outros. Antes, gastávamos 80% do nosso tempo na ordenha e apenas 20% tratando das vacas, (como por exemplo, com requerimentos veterinários, inseminação ou outros problemas associados com os cuidados dos animais). Com os robôs, agora nós gastamos 20% do nosso tempo ordenhando as vacas. Esse tempo ainda é necessário para treinar novilhas após a parição até elas se adaptarem ao sistema. Nosso robô permite que coloquemos também a opção manual, o que nos permite treinar os animais para uma melhor e mais fácil experiência no sistema de operação”, explicou.

Outros ganhos proporcionados pelo robô

Greg ressaltou que após o sistema de robôs, houve raríssimos casos de mastite nos seus animais. “Tivemos apenas um coliforme no ano passado que resultou em mastite, mas, precisamos tratar apenas 6 vacas nos últimos 12 meses. A tecnologia nos permite detectar quando um quarto mamário está com alta CCS, assim, separamos esse leite individualmente e não há nenhuma maneira de ele chegar até os consumidores, garantimos uma matéria-prima de excelência em qualidade”.

Sobre o bem-estar animal, antes mesmo do robô, os galpões já estavam adequados com ventilação e paredes com cortinas que permitiam que o ar fresco se movesse através da instalação regularmente, minimizando o estresse térmico. Com o manejo de levar as vacas até ordenha sendo eliminado, o bem-estar ficou mais evidente ainda, já que os animais são facilmente vistos deitados confortavelmente e descansando.

“Sinto que alcançamos os nossos objetivos com relação ao bem-estar animal. Eu convido qualquer pessoa para vir e ver nossas vacas e a importância que damos a esse quesito (bem-estar) no nosso rebanho e – claro - entre os nossos funcionários também, que passaram a ter mais tempo para realizar as outras atividades com mais calma e cautela”.

Próximos passos da Hoel Holstein

O desafio atual da fazenda é continuar expandindo a produção leiteira com um adicional de 40 animais produtivos no barracão nos próximos 12 meses, sem comprar cabeças externas, e sim, ‘gerando-as’ internamente.

“Sentimos que podemos alcançar esse feito visto que os nossos robôs estão operando apenas com 65% de suas capacidades.  Isso significa que estamos tirando leite de 250 vacas, quando os robôs poderiam estar funcionando facilmente com 300. Como disse anteriormente, além de aumentar o número de vacas, também queremos aumentar a produção individual de cada animal e mais importante ainda, focar na produção de gordura no leite por vaca, pois somos valorizados por isso aqui no momento”.

Vale a pena destacar que o Canadá é o único país do mundo que utiliza um sistema de suporte de manejo na indústria leiteira que foca basicamente no controle de quanto o produtor pode produzir em uma base diária e quanto de leite por ser processado por dia. Greg enfatizou que esse suporte assegura as leiterias a receberem um preço estabilizado pelo litro do leite.

“Para nós esse esquema é de extrema importância pois sem isso não saberíamos o momento de financiar ou investir dinheiro em novas tecnologias, entre outros. Ficamos cientes de quando o capital suporta esse tipo de serviço”.

No final da entrevista, Greg agradeceu muito a oportunidade de falar sobre a sua fazenda para um portal brasileiro como o MilkPoint e comentou que aprecia muito os estudantes brasileiros vindos dos programas de bovinos leiteiros da UBC. “Espero continuar os recebendo por aqui e tenho a ambição de um contínuo crescimento para fazermos da indústria leiteira um lugar competitivo e excitante para aprender e trabalhar”, concluiu.

Confira agora o depoimento do Valdoir, que frequenta a fazenda de Greg duas vezes por semana e também emitiu uma opinião sobre a sua experiência e sobre a Hoel Holstein:

Sou acadêmico de medicina veterinária da UNICRUZ - Universidade de Cruz Alta, Cruz Alta – RS e estou tendo a oportunidade de ficar um ano trabalhando com o Dr. Ronaldo Cerri, Professor da UBC -  University of British Columbia. Atuamos na fazenda escola da faculdade e o foco são os sistemas de automação, fisiologia, expressão de cio e fertilidade. A fazendo do Greg nos abriu as portas para trabalhar com a relação dos dados coletados pelo robô em relação ao diagnóstico de doenças no período de transição. Com isso, nós vamos duas vezes por semana para a fazenda dele. No Brasil eu fiz estágio em algumas fazendas: com o Grupo Strobel, em Condor/RS e na Fazenda Colorado (Leite Xandô) em Araras/SP. O que mais me chamou a atenção na fazenda do Greg foi a pouca exigência de mão de obra, já que o robô acaba fazendo boa parte do serviço. O produtor não precisa de tantos funcionários, tanto que, a fazenda roda hoje com apenas 4 colaboradores. Outro ponto que deve ser ressaltado é como os robôs e os monitores de atividades podem ajudar no diagnóstico de animais com alguma doença ou que necessitem de alguma avaliação, sem contar o conforto que esses animais acabam tendo, já que notavelmente eles não sofrem estresse. Outra questão é a baixa casuística de mastite, que hoje todo mundo sabe que é um grande problema para grande parte das fazendas no Brasil. Com um bom manejo, o Greg conseguiu diminuir seus casos da doença e com isso, produzir um leite de melhor qualidade. Acredito que futuramente a robotização das fazendas será algo necessário e as tecnologias estão aqui para ajudar o produtor. Agradeço em nome de todo o grupo de estudos do Dr. Ronaldo Cerri ao Greg por nos ceder esta entrevista ao MilkPoint”.

Confira a 1ª edição do Especial Fazendas 4.0 aqui! 

Se interessou pela história e visão de futuro da Hoel Holstein? A sua fazenda também é adepta das tecnologias ou você conhece alguma propriedade que é? Continuamos em busca de histórias que - por meio de alguma tecnologia - transformaram a sua produção de leite, melhoraram algum processo, otimizaram a gestão, reduziram os custos, entre outros. Participe conosco por meio do formulário abaixo:

RAQUEL MARIA CURY PEREIRA

Zootecnista pela FMVZ/Unesp de Botucatu e Coordenadora de Conteúdo dos Portais MilkPoint e MilkPoint Indústria

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