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De programas de incentivo à demanda aquecida: veja a opinião de 3 indústrias sobre o momento atual

RAQUEL MARIA CURY RODRIGUES

EM 19/06/2020

6 MIN DE LEITURA

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A CCPR e a Itambé passaram a promover neste mês de junho uma campanha excepcional de incentivo ao aumento da produção de leite, independente do comportamento de mercado, oferecendo o pagamento de R$ 0,40 a mais por litro de leite diário excedente em junho em relação à média diária fornecida em maio. Segundo Leandro Sampaio, Gerente de Suprimento de Leite da CCPR, essa iniciativa tem como objetivo valorizar o trabalho dos produtores e contribuir para o desenvolvimento deles.

Em fevereiro as empresas já haviam lançado uma campanha de incentivo ao aumento de produção, que continua vigente e é cumulativa à esta campanha excepcional. Ou seja, o produtor pode receber o valor de R$ 0,40 previsto nesta campanha excepcional de junho acumulado à campanha de incentivo à produção leiteira lançada em fevereiro. “E por que estamos fazendo isso? Conhecemos os desafios da cadeia produtiva do leite e historicamente, maio tem uma baixa produção, por isso, estamos tentando estimular os produtores”, comentou ele.

Leandro acrescentou que a CCPR e a Itambé ainda não sentiram o efeito da pandemia e as empresas não param em nenhum momento, pelo contrário, estão incentivando o aumento de produção junto aos produtores, desde o início do ano.

"A campanha excepcional de incentivo da CCPR e da Itambé para a produção de leite independe do comportamento de mercado e oferece R$ 0,40 a mais por litro diário excedente em junho em relação à média diária fornecida em maio", Leandro Sampaio, da CCPR.

Sustentação da alta

Recentemente o Conseleite/PR divulgou em seu relatório mensal que a alta no valor de referência do leite pago ao produtor está atrelada ao consumo maior de queijos entre maio e começo de junho. Para a professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Vânia Guimarães, uma das responsáveis pelos trabalhos técnicos do conselho, este ano o mercado de lácteos está marcado pela alta volatilidade de preços.

De acordo com Alexandre Guerra, Diretor da Cooperativa Santa Clara, todos os anos, nestes meses, o consumo de queijo aumenta, porque são períodos em que ele se encaixa perfeitamente em vários momentos especiais e em receitas típicas para a estação. “No frio, ele harmoniza muito bem com outros produtos e acaba propiciando também o consumo de leite. E agora, associado ao processo que estamos passando com a covid-19, situação em que as pessoas estão ficando mais em casa para respeitar o isolamento social, percebemos que as famílias estão produzindo suas próprias receitas, investindo os recursos que até antes eram gastos com lazer para o conforto familiar e para, entre outras coisas, cozinharem juntos. E o queijo tem, sim, estado presente nestes preparos”.

Ele comentou sobre uma pesquisa realizada pela Embrapa Gado de Leite/Centro de Inteligência do Leite que foi realizada com cerca de 5 mil pessoas e mostrou a força do consumo de queijos, especialmente nesta fase. O estudo comprovou que os queijos tiveram, inclusive, incremento no consumo durante a pandemia, sendo que 2.914 pessoas disseram ter mantido o volume comprado anteriormente e 1.320 afirmaram ter aumentado a quantidade comprada. “Além disso, aliado à ampliação do consumo nos lares temos a realidade de pessoas com maiores necessidades, principalmente aquelas que são da informalidade e que conseguiram ter acesso aos R$ 600 reais fornecidos pelo governo. São bilhões de reais que foram diretamente para o consumo. Se trata de um setor que vai depender muito da recuperação da economia, mas esses planos sociais são fundamentais para manter essas pessoas ativas e estimular a economia e o consumo”, acrescentou.

Guerra apontou que por estarmos vivendo um momento de incertezas, sem saber o que vai acontecer no mês e até no dia seguinte, a indústria está trabalhando sem estoques. “Então, tudo que se capta de leite é industrializado, procurando comercializá-lo no menor prazo possível para não ficar com excedentes e sem saber a que preço será vendido no mês posterior. A ideia com isso, diante deste período de instabilidade, é poder superar este momento da maneira mais amena possível para não ser surpreendido com algum cenário adverso à política da indústria. Tivemos uma perda muito significativa na linha de produtos food service, mas por outro lado, como citado anteriormente, o consumo nos lares e os programas sociais mantiveram o consumo de alimentos, o que manteve o mercado equilibrado. É aí que a procura de diversos pelos lácteos aumentou, como queijos de linhas diferenciadas, fondue, requeijão e queijo ralado. Segundo pesquisa realizada pela Nielsen, por exemplo, o leite UHT cresceu 17,6%, aromatizados 14,3%, leite em pó 16,4% e queijos 29,2%”.

"Tivemos uma perda muito significativa na linha de produtos food service, mas por outro lado, o consumo nos lares e os programas sociais mantiveram o consumo de alimentos", Alexandre Guerra, da Cooperativa Santa Clara. 

Questionado sobre a possibilidade de algum programa de incentivo para a produção de leite extra, Alexandre disse que a Santa Clara já tem políticas de incentivo ao aumento de produção de leite há alguns anos a fim de que os produtores sejam remunerados com um valor extra para cada litro de leite a mais entregue em relação ao mesmo período do ano anterior.

“Fizemos isso em todos os meses do ano e já estamos no terceiro ano dessa política de valorização. São 10 centavos que pagamos a mais por litro. Então, além de pagarmos o leite por qualidade e quantidade, damos este incentivo ao associado, motivando-o a aumentar a sua produção. Também distribuímos anualmente o retorno do exercício aos produtores, por serem sócios da cooperativa. Acabamos de ratear R$ 13,1 milhões, sendo que 60% são capitalizados nas cotas dos associados e 40% podem ser retirados por eles em mercadorias nas lojas da Santa Clara. Além disso, temos diversos planos de incentivo somados à uma área técnica composta por veterinários, técnicos agrícolas, inseminadores e agrônomos, tudo isso, com o objetivo de prestar assistência técnica qualificada ao produtor”.

Cautela

Já para Sávio Santiago, da Verde Campo, devemos ter cautela nas interferências que visam mudar artificialmente os rumos do mercado. O “mercado deve sempre se auto ajustar. Se o momento agora é de desabastecimento, que ao meu ver tem muito mais a ver com um aumento atípico da demanda, e os preços subiram - é melhor pagar mais caro e repassar a realidade para a ponta da cadeia do que forçar uma oferta extra que pode derrubar o mercado em condições mais fortes e em curto espaço de tempo. Em um copo de leite, uma gota a mais causa problemas e uma gota a menos sustenta preços, é preciso olhar lá para 2016 para ver que essas iniciativas já trouxeram problemas”. Ele acredita que induzir o produtor a aumentar custos sem garantias do futuro a curto prazo com insumos de alimentação tão valorizados pode gerar um problema de gestão para as fazendas que não será fácil de corrigir depois.

Assim como Guerra, ele afirmou que realmente houve um aumento forte no consumo do lar. “A influência do uso de leite e derivados em receitas provocou um incremento importante nas mais diversas linhas. O destaque maior certamente está na muçarela, cremes e leites em pó e UHT. Os leites fluidos têm grande crescimento pontual com a presença das crianças em casa. Em situações típicas de férias escolares ele costuma ser impactado pela migração de consumo para produtos mais supérfluos pelas crianças em casa ou durante viagens. Só que não estamos em férias e a preocupação com a nutrição adequada por parte das mães está ainda maior, buscando fontes que ajudem na imunidade e na saúde em tempos de pandemia”.    

"O mercado de leite é uma seara que consagra quem erra menos", Sávio Santiago, da Verde Campo. 

Sobre o futuro, ele costuma dizer que o mercado de leite é uma seara que consagra quem erra menos. O cenário após o final ou a redução do auxílio emergencial e com mais de 20 milhões de desempregados chegando ao final dos seus seguros desempregos e do FGTS é na visão dele muito preocupante e pode causar uma desestabilização ainda mais forte. “O conselho é que os produtores procurem fortalecer seu elo de parceria com a indústria nesse momento. Tentações especulativas podem parecer muito sedutoras em picos de preços recordes, mas mercado de leite é como um chicote e uma decisão oportunista pode provocar um problema dobrado lá na frente, não muito distante da atualidade”, finalizou. 

RAQUEL MARIA CURY RODRIGUES

Zootecnista pela FMVZ/UNESP de Botucatu e Coordenadora de Conteúdo do MilkPoint.

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JORGE PIRES COELHO DE REZENDE

PARNAÍBA - PIAUÍ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/06/2020

Concordo com quase tudo mas, o produtor não vai querer aumentar seu prejuízo produzindo mais. As margens dos elos da cadeia estão muito desiguais. Produtores trabalhando com margem inferior a 10%, indústria com margem de 30% e comércio com 15%. Porquê? Não esta correto.
EMERSON SCHOTTEN

VITOR MEIRELES - SANTA CATARINA - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 22/06/2020

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