Ao longo da minha jornada como bolsista da Nuffield, tive a oportunidade de visitar diferentes países, sistemas produtivos e cadeias agrícolas para responder a uma pergunta que sempre me acompanhou na vida profissional e no campo: as certificações de sustentabilidade realmente geram impacto positivo na fazenda ou se tornaram apenas um exercício burocrático para atender mercados e consumidores?
Essa inquietação deu origem à minha jornada na Nuffield e ao meu estudo “Ground Truths to Written Rules: Bridging On-Farm Practices and Certification Standards” (Da realidade às regras escritas: integrando as práticas agrícolas aos padrões de certificação), no qual analisei como padrões de boas práticas e certificações influenciam sistemas agrícolas, especialmente em cadeias fortemente conectadas ao comércio global, como café, soja e algodão. Mais do que avaliar normas, essa pesquisa foi uma jornada de escuta — de produtores, empresas, certificadoras, formuladores de políticas e consumidores — em diferentes regiões do mundo.
O ponto de partida: a distância entre o campo e o consumidor
Nos últimos anos, a agricultura deixou de ser avaliada apenas pelo que produz e passou a ser julgada, cada vez mais, por como produz. Temas como desmatamento, mudanças climáticas, bem-estar social e rastreabilidade ganharam protagonismo. Nesse contexto, as certificações surgiram como uma forma de traduzir as práticas do campo em confiança e credibilidade para o consumidor.
Café “Mujeres Cafeteras”, da marca Juan Valdez. O exemplo ressalta como rótulos e narrativas sociais ajudam a traduzir práticas do campo em confiança para o consumidor.
Ao visitar realidades tão distintas — de pequenos cafeicultores na Costa Rica a grandes produtores de grãos nos Estados Unidos, passando por sistemas altamente tecnológicos em Israel e debates políticos intensos na Europa — ficou claro que essa ponte nem sempre está conectada à realidade do campo.
Onde as certificações realmente funcionam
Quando bem desenhadas e implementadas, as certificações podem gerar benefícios concretos.
Em diferentes países, observei que elas funcionam como um guia de organização e melhoria contínua, ajudando produtores a estruturar processos, registrar informações e aprimorar o manejo do solo, da água e dos insumos. Em algumas cadeias, como o algodão, há evidências claras de redução no uso de defensivos e ganhos de eficiência quando os padrões são bem aplicados.
Outro ponto relevante é o acesso a mercados. Muitas vezes, a certificação não garante prêmio financeiro direto, mas se tornou condição básica para vender. Na Europa, por exemplo, certificações ligadas à rastreabilidade e ao desmatamento zero passam a ser fundamentais para atender exigências regulatórias e compromissos corporativos.
A rastreabilidade também ganhou força com o uso de tecnologias como imagens de satélite e plataformas digitais. Quando bem utilizadas, essas ferramentas aumentam a transparência, reduzem riscos e ajudam a aproximar o consumidor da realidade do campo.
Os limites do modelo atual
Apesar dos avanços, minhas observações revelaram limites importantes. Um dos mais recorrentes é o alto custo e a complexidade dos processos de certificação, especialmente para pequenos e médios produtores. Auditorias frequentes, exigências documentais extensas e padrões pouco adaptados às realidades locais acabam transformando a certificação em um peso administrativo.
Outro desafio é a fragmentação do sistema. Hoje, existem centenas de selos de sustentabilidade no mundo. Para o produtor, isso significa sobreposição de exigências. Para o consumidor, confusão.
Além disso, ainda é comum uma abordagem excessivamente focada em check-lists, em vez de avaliar se houve melhoria real em indicadores como saúde do solo, biodiversidade ou eficiência no uso da água.
Tendências globais: menos regra, mais resultado
Um dos aprendizados mais claros da minha jornada foi que o futuro das certificações passa por uma mudança de lógica: menos foco em práticas e mais em resultados.
Análise da estrutura do solo em fazenda na Bélgica, utilizada como indicador de desempenho ambiental, um exemplo da transição das certificações focadas em práticas para abordagens baseadas em resultados mensuráveis.
Em países como Bélgica e Estados Unidos, produtores já combinam certificações com ferramentas que medem emissões de gases de efeito estufa, carbono no solo e eficiência hídrica. Esses dados passam a ser utilizados não apenas em auditorias, mas também para acessar políticas públicas, financiamentos e mercados que valorizam resultados mensuráveis, como redução de emissões, saúde de solo e outros.
Outra tendência é a interseção entre certificações e regulações governamentais, como o Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR), que em alguns mercados passa a construir sobre — ou potencialmente substituir — certificações voluntárias, especialmente no que se refere à rastreabilidade e ao desmatamento zero. Ainda é cedo para saber como esse movimento irá redefinir o papel das certificações, e os próximos anos serão decisivos para entender se elas irão se fortalecer, se adaptar ou perder relevância diante das novas exigências legais.
E o Brasil nesse contexto?
No Brasil, as certificações têm papel estratégico. Somos grandes exportadores de soja, café e algodão e estamos no centro do debate global sobre sustentabilidade e desmatamento. Programas como RTRS, ISCC, ProTerra e iniciativas corporativas como Programa 3S da Cargill e outros programas de outras traders, contribuíram para ampliar a rastreabilidade e responder às exigências internacionais.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostrou um risco importante: reduzir sustentabilidade apenas ao critério de desmatamento zero. Embora essencial, esse foco não pode ofuscar outras dimensões igualmente relevantes, como saúde do solo, adaptação climática, inclusão social e desenvolvimento regional.
O Brasil tem a oportunidade — e a responsabilidade — de liderar uma nova geração de certificações, mais integradas, baseadas em resultados e alinhadas à realidade do produtor.
Recomendações finais: colocar o produtor no centro
Ao final da minha jornada, algumas recomendações ficaram claras:
- Produtores precisam estar no centro das discussões, como protagonistas e não apenas como auditados.
- Sistemas devem ser simplificados e harmonizados, reduzindo sobreposição de exigências e aumentando a clareza para o consumidor.
- Empresas devem ir além da conformidade, usando certificações como parte de estratégias mais amplas de sustentabilidade, regeneração e desenvolvimento rural.
- Resultados precisam falar mais alto que regras, com métricas claras de impacto ambiental, social e econômico.
Certificações não são uma solução mágica. Mas, quando bem utilizadas, podem ser ferramentas poderosas para aproximar o campo do consumidor, valorizar boas práticas e fortalecer a sustentabilidade da agropecuária.
E esse debate não é exclusivo das grandes commodities. No leite, onde a produção está cada vez mais exposta às demandas por bem-estar animal, rastreabilidade, emissões e relação com a comunidade, a pergunta é a mesma: os selos e protocolos estão ajudando o produtor a evoluir ou apenas aumentando a carga de exigências?
A resposta passa, novamente, por colocar o produtor no centro e por usar certificações como ferramentas de melhoria real — e não apenas como regras no papel.
Autora:
Ingrid C. C. Graziano - engenheira agrônoma (ESALQ/USP), Nuffield Scholar e produtora rural em Goiás. Especialista em certificações, sustentabilidade e agricultura regenerativa, dedica-se a aproximar o campo do consumidor por meio de práticas transparentes e de impacto.