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Método de secagem melhora o conforto das vacas no período seco

POR MARCOS VEIGA SANTOS

E TIAGO TOMAZI

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 13/04/2018

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A necessidade de um período seco antes da próxima lactação é uma prática comum em rebanhos leiteiros, que tem objetivo de preparar a glândula mamária para a próxima lactação. A influência do método de secagem e da duração do período seco sobre a produção de leite e saúde das vacas na lactação seguinte já foram bastante estudados. Inclusive, este foi tema de um outro texto publicado recentemente em nossa coluna (Qual é o melhor método para secagem de vacas leiteiras?).

Os dois métodos mais usados para a secagem de vacas são o abrupto e o intermitente. Na secagem abrupta interrompe-se as ordenhas da vaca de acordo com um intervalo definido (normalmente de 45 a 60 dias) pela data prevista de parto. Por outro lado, a secagem intermitente (também conhecida como secagem gradual) ocorre pela redução da frequência de ordenha durante um período de dias ou semanas (com ou sem restrição alimentar).

O método de secagem intermitente é o que mais se aproxima do comportamento natural das vacas, visto que na natureza o bezerro diminuiu gradativamente a ingestão de leite antes do desmame. A redução gradativa da frequência de ordenha causa diminuição na produção de leite antes da secagem definitiva, o que pode ser benéfico para a saúde do úbere das vacas.

O processo de involução da glândula mamária de vacas com baixa produção de leite na secagem foi associado com a maior eficiência de fatores metabólicos e imunológicos que promovem a remoção de células danificadas ou mortas da glândula mamária em comparação a vacas de alta produção submetidas à secagem de forma abrupta. A redução no tempo de involução da glândula mamária aumentou a taxa de cura de infecções intramamárias existentes, além de prevenir novas infecções de forma mais eficiente. No entanto, devido ao aumento do tamanho dos rebanhos e à intensificação da produção observada em muitos países, o método de secagem abrupto ainda é o procedimento mais usado por ser de mais fácil manejo que o método intermitente.

Estudos recentes descreveram que o método abrupto de secagem pode inclusive afetar o comportamento e bem-estar das vacas. Vacas de alta produção que foram secadas de forma abrupta apresentaram níveis mais altos de indicadores de estresse do que vacas submetidas a secagem de forma intermitente. Além disso, vacas secadas abruptamente mostraram forte motivação para serem ordenhadas, o que foi percebido pela maior permanência no portão próximo da sala de ordenha, e pela maior frequência de mugidos do que vacas secadas pelo método intermitente.

Além disso, é possível que a interrupção abrupta da ordenha cause desconforto para a vaca, de acordo com o aumento a pressão interna do úbere. Um estudo realizado nos EUA avaliou os efeitos do tipo de secagem (abrupta ou intermitente) e dos níveis de produção de leite sobre o comportamento de vacas leiteiras em torno do período de secagem. A hipótese dos pesquisadores foi de que vacas mais produtivas antes da secagem submetidas à interrupção abrupta de ordenha sofreriam maior desconforto devido ao acúmulo de leite, e isso acarretaria mudanças de comportamento, especialmente a frequência em que as vacas deitaram e ao tempo que as vacas permaneciam em descanso.

O comportamento de 58 vacas (29 em cada grupo de secagem) foi avaliado por meio pedômetros, que mediram o número de vezes que as vacas deitaram, o tempo em que as vacas permaneceram deitadas, e o número de passos que as vacas deram por dia. As vacas secadas abruptamente foram ordenhadas até o final da lactação conforme a rotina do rebanho (três vezes ao dia). Por outro lado, as vacas secadas pelo método intermitente foram ordenhadas apenas uma vez ao dia durante a última semana de lactação. A produção diária de leite foi registrada para todas as vacas durante os 14 dias antes da secagem.

Antes da secagem, a CCS, os dias em lactação e o número de lactações foram semelhantes entre as vacas de ambos os grupos. Da mesma forma, não houve diferença de produção de leite entre as vacas com secagem intermitente (23,9 kg/dia) e as com secagem abrupta (24,7 kg/dia). No entanto, no último dia de lactação, como esperado, as vacas de secagem intermitente apresentaram menor produção de leite do que as vacas secadas de forma abrupta (14,3 vs. 22,7 kg/dia).

Não houve diferença de comportamento das vacas, durante os 14 dias antes da secagem, entre os grupos de secagem. Em média, as vacas permaneceram deitadas por 10,7 horas/dia, com média de 73 minutos/deitada; 9,8 deitadas/dia e 2.457 passos/dia.

Em relação ao período seco, as vacas com secagem intermitente permaneceram deitadas nove minutos a mais por episódio de descanso em comparação às vacas com secagem abrupta. Nenhuma outra diferença de comportamento entre os dois tratamentos foi observada (Figura 1).

Independentemente do método de secagem, a duração média por deitada após a secagem diminuiu em 4 minutos, e o tempo total em que as vacas permaneceram deitadas diminuiu em 19 minutos para cada 5 kg a mais de leite produzido antes da secagem. Isso pode ser um indicativo de dor ou desconforto associados com a interrupção da ordenha, já que vacas de alta produção geralmente continuam produzindo grandes quantidades de leite no momento nos 2-3 dias após a secagem.

Assim, deitar-se sobre o úbere com alta pressão, as vacas podem ter desconforto ou dor. Em vacas primíparas, o período de descanso e o número de vezes em que as vacas se deitaram foi ainda mais afetado pelo nível de produção de leite pré-secagem do que em vacas ≥ 2 lactações. Vacas multíparas sofrem menos desconforto pela distensão do úbere que as vacas mais jovens, pois já tiveram essa experiência em lactações anteriores.

Figura 1 – Comparação de comportamento das vacas submetidas aos métodos de secagem abrupta (linha preta com triângulos) e intermitente (linha cinza com círculos) durante a primeira semana após a secagem. Fonte: adaptado de Rajala-Schultz et al. (2018).

Considerando que o período seco é uma fase importante para a saúde da vaca na lactação seguinte, é crucial reduzir os fatores estressantes que prejudicam a resposta imune e aumentam o risco de infecções e distúrbios metabólicos durante o período de transição.

Portanto, o uso do método intermitente de secagem pode ser uma prática benéfica para o bem-estar das vacas, pois reduz a produção de leite antes da ordenha final e permite melhor conforto durante a fase inicial do período seco.

Fonte: Rajala-Schultz et al. (2018). Journal of Dairy Science. 101:3261–3270. (https://doi.org/10.3168/jds.2017-13588).

trofeu agroleite 2018

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

TIAGO TOMAZI

Médico Veterinário e Doutor em Nutrição e Produção Animal
Pesquisador do Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP

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JOSE CARLOS FARIA

CAÇU - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 18/04/2018

MUITO BOA A REPORTAGEM. GOSTARIA DE SABER SOBRE O USO DE VELACTIS NA SECAGEM DE VACAS DE ALTA PRODUÇÃO?
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 18/04/2018

José Carlos, sugiro que procure um representante da empresa Ceva para estes questionamentos, pois o estudo não teve este objetivo. atenciosamente, Marcos Veiga
JUNIOR MACHADO

TÉCNICO

EM 16/04/2018

A secagem gradual junto com a diminuição no fornecimento de concentrado para os animais terá um resultado melhor na secagem dos animais ?
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 18/04/2018

Junior, sim, a redução do fornecimento de concentrado seria uma das alternativas para redução da produção de leite antes da secagem abrupta em vacas de alta produção (> 15kg/dia). Os estudos indicam que ocorre redução da produção de leite de 3-5 dias após a retirada do concentrado. Atenciosamente, Marcos Veiga
EM RESPOSTA A MARCOS VEIGA SANTOS
JUNIOR MACHADO

TÉCNICO

EM 19/04/2018

Muito obrigado professor.
DANIELE

ORIZONA - GOIÁS - ESTUDANTE

EM 13/04/2018

Muito bom esse trabalho, quase todos os produtores realizam a secagem abrupta, pois acham que terão prejuízos pela menor quantidade de leite ordenhado na última semana de secagem utilizando o método intermitente. Porém, esquecem do fator estresse que interfere diretamente no bem-estar animal e consecutivamente na reprodução e produção dos animais.
TIAGO TOMAZI

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 16/04/2018

Muito obrigado pela comentário Daniele. Realmente, cada vez mais percebemos que o conforto e bem-estar das vacas está positivamente relacionado com a produtividade e saúde do rebanho. Abraço.