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Irrigação em pastagens: momentos e viabilidades de utilização

MARCO AURÉLIO FACTORI

EM 26/08/2016

5 MIN DE LEITURA

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Noto que para muitos, a irrigação é considerada como a solução para todos os problemas da produção animal e ainda, para a produção de alimentos. A irrigação, como o nome diz, é simplesmente molhar certa área em substituição ou acréscimo a água provinda de chuva. Se faltar chuva, o que precisamos é irrigar. Fácil seria de pensássemos que simplesmente fosse apenas molhar o solo e estaria tudo certo. Como em qualquer situação, tudo deve ser analisado. Como gosto de comparar fatos com o nosso dia a dia, abaixo cito um engraçado.

irrigação de pastagem

Ao comprarmos um carro, temos o desejo de usá-lo. Como de costume, quase que sempre, fazemos um passeio com a família no domingo. Em outros casos, para trabalho, colocamos nossas coisas do dia a dia e no dia seguinte, saímos logo cedo, satisfeitos, pois não iremos pegar ônibus. Para concretizar meu exemplo, será que podemos colocar apenas um litro de gasolina para andar a semana toda? Será que podemos colocar um teto solar neste carro em uma região que faz muito frio? Será que podemos colocar um turbo neste carro sem ao menos perceber que lhe falta os pneus ou até mesmo o motor? Ainda, poderíamos sair correndo nas pistas em qualquer velocidade? Não há regras?

A irrigação de pastagem nada mais é do que molhar a planta e o solo. Perfeito até aqui. Mas para este fato, precisamos entender que estamos molhando, além do solo, a planta, que irá absorver esta água.

Quando falamos de forrageira, devemos saber que existem dois tipos de famílias: gramíneas e leguminosas ou ainda, Poacea e Fabacea. Vamos focar um pouco mais nas gramíneas, foco de nosso assunto de hoje, correlacionando elas com a irrigação.

Temos gramíneas de clima temperado (como por exemplo a aveia ou azevém) e de clima tropical (capins em geral, incluindo Braquiária, Tanzânia, Mombaça etc). Primeiramente devemos saber de forma geral que estas são bem diferentes em relação aos requisitos para crescimento. Para comentarmos de forma geral, a aveia por exemplo, cresce em climas frios (em temperaturas abaixo de 15ºC), enquanto que a Braquiária cresce em temperaturas acima de 15ºC. Ao considerarmos temperaturas ideais, podemos dizer que para a aveia, ela é aproximadamente de 5ºC e para a braquiária de 30ºC.

Outra coisa que devo salientar é o ciclo fotossintético. A aveia é uma planta C3 e precisa quase de 2 a 3 vezes mais água que a braquiária - que é uma C4. Outra particularidade é que a Braquiária continua crescendo quanto maior a quantidade de luz e a aveia para de crescer quando atinge certa quantidade de luz. Observadas essas fundamentais diferenças, temos então que pensar muito bem quando formos irrigar.

Muitos produtores me perguntam o quanto de água é necessário para irrigar um hectare de Braquiária. Não quero deixar aqui nenhuma fórmula, mas já adianto que as forrageiras de ciclo C4 precisam por volta de 4 mm de chuva por dia, ou ainda 4 litros de água por m2 por dia. Logicamente que na irrigação não iremos colocar todo dia 4 litros de água por m2 e sim colocarmos a água proporcionalmente para x m2 e x dias, ou ainda colocaremos água para 5 ou 6 dias, molhando então 20 litros por m2 - a cada 5 dias por exemplo. Se considerarmos esta conta, vamos pensar que precisaremos por volta de 25 mil litros de água por dia/hectare. Lembro-me muito bem que fui chamado por um produtor e este me disse que queria irrigar sua pastagem e já tinha água. Disse-me que teria até 3 mil litros de água por dia, o que com certeza, foi impossível de viabilizar, pois para irrigar pasto, é necessária muita água. Isto é um fato que deve ser considerado.

Outro fator interessante que me veio a mente é o fato da estacionalidade de produção de forragem que ocorre normalmente, quando, principalmente, temos a falta de requisitos para o crescimento da forrageira. Como disse anteriormente, temos diferenças, mas toda forrageira precisa de nutrientes para crescer. Este requisito nunca faltará desde que adubemos nosso solo. Pronto, problema número um resolvido. Em segundo, terceiro e quarto ponto, teremos a luz, temperatura e umidade. Umidade se dá pela chuva ou irrigação. E a temperatura e luminosidade? Temperatura é o fator - segundo a literatura - que mais influência na estacionalidade de produção forrageira. Com certeza, para forrageiras de clima tropical como a Braquiária e com temperaturas abaixo de 15ºC, não teremos crescimento considerável. Neste caso, ainda pensando na temperatura, teremos uma atitude diferente com relação às forrageiras de clima temperado - como a aveia, que cresce em temperaturas mais baixas. Bom, e na prática?

Irrigar uma forrageira como a Braquiária em dias frios é perder tempo e dinheiro, pois não teremos crescimento, já que ainda falta luz e temperatura para ela crescer. Incrivelmente, a irrigação de pastagem somente funcionará quando temos os outros fatores favoráveis: temperatura e luminosidade ideais. No inverno, como mencionado, não temos condições favoráveis e assim ela não crescerá.

Trabalhos conduzidos na Embrapa Pecuária Sudeste em 2006 mostram que nos momentos que antecedem o período frio (março/abril) e após o período frio (agosto/setembro), ou ainda, naquele momento que não temos nem inverno e nem verão, a irrigação funciona, pois neste momento temos luz, temperatura e o fator limitante, que neste caso, é a água. Trabalhos conduzidos mostraram a eficiência da irrigação nestes momentos e, no verão, em momentos que chamamos de veranicos, ou seja, que não chove.

Para forrageiras de clima temperado, como aveia, que gosta de pouca luz e de temperaturas mais amenas, a irrigação no inverno seria viável, pois é a única condição que interfere negativamente no crescimento dela - desde que ela esteja adubada. Voltando aos exemplos bobos do carro citados no início deste artigo, será que conseguiremos colocar apenas um litro de gasolina para andar a semana toda, ou ainda será que iremos colocar água à vontade ou em menores quantidades na forrageira?

O processo requer eficiência e acompanhamento técnico; será que podemos colocar um teto solar neste carro, em uma região que faz muito frio, ou ainda irrigarmos a forrageira de clima tropical no inverno? Ela crescerá? Será que podemos colocar um turbo neste carro, sem ao menos percebermos que lhe falta os pneus, ou até mesmo o motor, ou ainda, nós atendemos todos os requisitos para a forrageira crescer antes de irrigar? Ela está bem adubada e bem manejada? Poderíamos sair correndo nas pistas em qualquer velocidade? Vamos irrigar quando quisermos? Teremos penalidades, gastos de tempo e dinheiro.

Apenas uma rápida reflexão sobre um assunto fácil, porém delicado. Água não sobra em todo canto e também, não precisamos necessariamente irrigar para produzir forrageira. O que precisamos é planejar nossa produção agropecuária, nossas estratégias e contornar nossos problemas. Para toda decisão há um momento e para todo momento há um acontecimento.

 

MARCO AURÉLIO FACTORI

Consultor, Factori Treinamentos e Assessoria Zootécnica.

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ARNALDO KELLER

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/03/2019

Professor Marco, lhe agradeço pelo artigo. Ofereceu os dados que me faltavam. Você foi prático e objetivo, sinal de que sabe do que o produtor precisa. Muito obrigado.
ALUISIO PUGLIA DE AZEVEDO

MIRACEMA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/05/2018

Obvio o prof. Marco Aurelio es plicou tudo didaticamente epor esperiencia pripria,n'ao compen;a irrigar nos meses de maio, junho,julho e as vezes agosto e setembro por falta dagua e temperatura adequadas.
MARCO AURÉLIO FACTORI

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 10/01/2018

Prezada Claudete



Não temos um melhor capim para melhorar a produção. Todos bem manejados são bons e permitem que o animal acabe produzindo a mesma quantidade de leite. O que muda é a produtividade de massa por hectare ou a lotação de animais por hectare que o capim suporta. Sendo assim, recomendamos capins mais exigentes mas que são mais produtivos como o Tanzânia e Mombaça. Mas todos podem ser utilizados. Se precisar de assistência técnica entre em contato pelo e-mail    mafactori@yahoo.com.br  Att. Marco Aurélio Factori
CLAUDETE NUNES

PORTO FELIZ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/01/2018

Para o gado leiteiro, qual o tipo de capim indicado para melhorar a produção do leite
MARCO AURÉLIO FACTORI

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 31/07/2017

Prezado Edilson



Acredito que irrigar com água de poço artesiano não será viável pois o custo total do processo fica insatisfatório e ainda você poderá ter problemas futuros com relação a outorga de água e tudo mais com relação a água de poço para irrigação de pastagem. Se informe melhor sobre este assunto na sua região. O que posso te recomendar é de não utilizar água de poço para este fim, exceto se houver permissão para tal fato. Att. Marco Aurélio Factori
EDILSON REIS GOMES

JEQUIÉ - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/07/2017

Boa noite Marcos. Ótimo material. Gostaria de saber se para irrigar 4 hectares de pasto Braquiaria brizanta, zona da mata, Bahia com um poço artesiano com vazão de 36.000 litros por hora, pasto rotacionado e adubando adequadamente é viáve?l Pretendo colocar 10 a 12 vacas girolando selecionadas 1/2 ou 3/4.

Obrigado

Edilson
IVANDERSON BORELLI

MARIÓPOLIS - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 23/12/2016

Boa Tarde, um ótimo artigo sobre irrigação de pastagens, só queria tirar uma duvida quanto ao calculo que vc fez: "Colocaremos água para 5 ou 6 dias, molhando então 20 litros por m2 - a cada 5 dias por exemplo. Se considerarmos esta conta, vamos pensar que precisaremos por volta de 25 mil litros de água por dia/hectare". Ficou uma duvida, pois se é 20 litros/m² então em 1 ha serão 200 mil litros que devera ter de água, dividido isso em 5 dias serão 40 mil litros. Ficou esta duvida. Mas o artigo é excelente.
IGO

POÇO REDONDO - SERGIPE - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/11/2016

Boa noite gostaria de ajuda pois quero fazer sistema de irrigação pra fazer o sitema de pastagens  rotacionado. Porém a água e de poço  e a água e salobra. E gostaria de saber se e viável irrigar capim com água salobra ? E qual melhor tipo de capim
ALUISIO PUGLIA DE AZEVEDO

MIRACEMA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/10/2016

Aqui no norte fluminense,os meses de maio junho e julho,apresentam limitação de produção de forragem mesmo com uma irrigação bem feita,em virtude principalmente das baixas temperaturas,fato este que no miolo do período da seca tona a irrigação,um recurso quase inviável ou como diz o autor deste artigo,UM LUCHO pois a cana de assucar com ureia ,pastagem bem manejada com boa suplementação alimentar,vem atendendo satisfatoriamente durante a seca,as exigências dos rebanhos leiteiros com produção diária até 20 kg.
MARCO AURÉLIO FACTORI

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/09/2016

Prezado Luiz Alberto



Devo salientar que concordo com você. A cana é uma excelente opção para o período seco e a irrigação logo se tornará um luxo, dentro do que colocou no seu texto. Att. Marco Aurélio Factori
LUIZ ALBERTO TEIXEIRA COSTA

ALÉM PARAÍBA - MINAS GERAIS

EM 07/09/2016

Factoni, inicialmente agradeço a atenção por ter respondido a primeira pergunta. Não sei se é o objetivo do artigo é abrir oportunidade de discutirmos outras formas de aumentar a produção de alimentos para a nutrição animal. Mas sendo a irrigação um investimento caro, que exige manutenção permanente, a escassez de água em praticamente todo território nacional  e os prováveis problemas com o orgão controlador dos recursos naturais, pergunto: não seria a cana de açúcar uma forma mais prática de compensar a diminuição da produção das gramíneas na época dos baixos índices pluviométricos? De qual forma seu artigo não deixa de ser muito enriquecedor. Parabéns!
MARCO AURÉLIO FACTORI

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/09/2016

Prezado Luiz



Os dois capins cortados no momento ótimo de corte de cada um, não haverá diferença e por isso recomendo os dois. Somente atente para o excesso de água e portanto, controle a umidade da silagem. Att. Marco Aurélio Factori
TARLEI TELIO VINHAL

CARMO DO PARANAÍBA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/09/2016

Marco Aurélio aguardo ansioso o artigo mencionado  obrigado!
LUIZ ALBERTO TEIXEIRA COSTA

ALÉM PARAÍBA - MINAS GERAIS

EM 01/09/2016

Pensando na opção de ensilar a sobra da produção da gramínea, advinda da época em que as condições climáticas são favoráveis,  você vê  diferença entre o mombaça e o cameron? Parabéns pelo artigo acima.
PAULO SERGÍO TERUEL

AVARÉ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 31/08/2016

Parabéns  pelo artigo  Dr. Marco ,  assunto bom  , técnico, direto e esclarecedor!!
JAIME RODRIGUES

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 31/08/2016

muito obrigado marco aurelio pelo seu esclarecimento.ate a proxima.
MARCO AURÉLIO FACTORI

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 30/08/2016

Prezado Laurids



Pergunta complicada pois um capim ganha e perde do outro em muitos fatores. Sei e coloco aqui o principio que todos são muito semelhantes mas atendem a pontos específicos. Isso sim é verdade. Sobre o Tifton, excelente capim, mas se multiplica por muda e assim por diante. Fica a dica para pensar... mas entender o manejo como um todo e  não especificamente. Trocando  o capim irá ganhar neste ponto mas irá preder em outro. Att. Marco Aurélio Factori
MARCO AURÉLIO FACTORI

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 30/08/2016

Prezado Tarlei



Fico a disposição para escrever o artigo caso os responsáveis pelo site permitam. Coloco-me a disposição. Att. Marco Aurélio Factori
MARCO AURÉLIO FACTORI

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 30/08/2016

Prezado Jesse



Não tenho trabalhos nesta linha, mas posso garantir que estas informações servem sem problemas para estes capins, como que para todos tropicais. Att. Marco Aurélio Factori
MARCO AURÉLIO FACTORI

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 30/08/2016

Preza Hamiltom



Podemos sim ter aveia no SUDESTE, deste que as temperaturas no inverno fiquem em média, ao longo do inverno, abaixo de 15 º C.  No mais, sem problemas. Att. Marco Aurélio Factori
MilkPoint AgriPoint