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Você é agrodigital?

Recentemente, a convite da Belgo Bekaert Arames, dei uma entrevista para o pessoal da Rocket Content sobre “ser agrodigital”. Há, evidentemente, um movimento de inovação ocorrendo no agronegócio: muitas startups estão sendo criadas (veja o censo que fizemos na AgTech Garage, em parceria com a ESALQ/USP – www.agtechgarage.com/censo) e muitas corporações estão buscando inovar, seja em produtos, serviços e mesmo em sua forma de atuar corporativamente, visando não perder o bonde da história e manter sua relevância.

Mas, afinal, o que é ser agrodigital? Será que sou agrodigital? Boa pergunta! Ser agrodigital não é necessariamente usar freneticamente as diversas tecnologias que surgem a cada dia. Há um passo anterior – e mais relevante – que precisa ser seguido. O ponto de partida é compreender que há, sim, um processo intenso de mudanças ocorrendo. E que estamos ainda no começo desse processo, embora, como outro dia ouvi, “o trem já saiu da estação em direção ao futuro e já tem gente nele”.

Essas mudanças decorrem de uma série de fenômenos que chegam ao agronegócio, assim como chegam a diversos outros setores da economia e que afetam negócios e profissões. Entre estes fenômenos, destacam-se a mobilidade quase que geral (mesmo pequenos produtores rurais hoje têm smartphones que permitem que entrem no jogo); a conectividade – este aspecto ainda é um problema no meio rural; a digitalização de quase tudo; as tecnologias de propósito geral que acabam servindo às mais diversas funcionalidades; e o brutal aumento da capacidade de processamento computacional e do armazenamento em nuvem.

Vamos pensar no Waze. Só é possível conceber um serviço em que cada dispositivo alimenta um banco de dados e permite que se escolha o melhor caminho naquele exato momento porque existem:

a) milhões de usuários conectados e com mobilidade;
b) a digitalização de mapas das cidades e estradas;
c) grande capacidade de processamento, em tempo real;
d) tecnologias criadas para outras finalidades e que são aplicadas na geolocalização.

O Waze, portanto, não poderia existir na década de 90, mas somente no momento em que todos estes fatores, a custo muito baixo ou zero, estão onipresentes.

A mesma coisa vale para o agronegócio. Em viagem feita ao Vale do Silício, conhecemos várias empresas inovadoras, mas talvez a que nos chamou mais a atenção foi a Farmer Business Network, que iniciou com um serviço de benchmarking para agricultores, que pagam uma anualidade para fazer o upload de seus dados de colheita e entender como estão em comparação aos demais. À medida que informações sobre tipos de solo, fertilidade, pluviometria, tratos culturais e variedades são incluídas, o algoritmo consegue não só mostrar como o produtor está, mas também atuar de forma preditiva, apontando o que tem chance de resultar em maior lucratividade naquela condição específica do produtor. É a pesquisa em tempo real, gerando dados que, agregados e com o passar do tempo, pode se tornar mais efetiva do que as próprias recomendações dos técnicos (olha aí um, desafio que se impõe aos profissionais da área).

É como o Waze: há uma diferença grande entre dizer qual é o caminho mais curto até determinado ponto e qual é o caminho mais rápido naquele momento. Há, da mesma forma, uma diferença significativa entre estimar qual variedade performa melhor em determinada região e qual tem a maior probabilidade de performar dadas as condições específicas de cada talhão, submetidos a tratos culturais específicos e dentro de um contexto de previsão climática que pode ser incorporado ao algoritmo. Uma grande mudança em curso, que depende, claro, da existência de uma base de dados consistente, detalhada e digitalizada, no que ainda perdemos bastante para os norte-americanos.

Em tempo: como é comum em negócios disruptivos, hoje a FBN vai bem além de oferecer benchmarking e recomendações. Ao ter todos os dados dos produtores, posicionou-se para oferecer insumos, afetando a cadeia tradicional de distribuição. Por conhecer as produções, variedades e tratos culturais, posicionou-se para vender a produção, afetando as tradings. E por ter essa posição privilegiada junto aos produtores, lançou sua própria marca de sementes...

A mudança pode ser sentida mesmo nas coisas mais simples. Por que mesmo você troca o óleo do seu carro a cada 10.000 km rodados? Não faria mais sentido um sensor avisar o momento específico em que o óleo começa a atingir uma qualidade crítica e que precisa ser trocado para não gerar problemas maiores? Pensemos também em um animal de produção. Com sensores desenvolvidos para outras funções (as chamadas tecnologias de propósito geral), é possível que, cada vez mais, a vaca ou o suíno nos “digam” o que está ocorrendo com ele, de forma a permitir uma interferência antes de haver perda de desempenho. Isso trará ganhos de eficiência e melhorará o bem-estar animal, beneficiando a cadeia e o consumidor. Já existem trabalhos com vocalização de animais que permitem identificar se há um problema de diarreia, fome, frio, pneumonia e por aí afora, utilizando-se algoritmos que interpretam as “vozes” dos animais. Literalmente, os animais começam a ter a capacidade de “falar”. 

Soa um tanto quanto assustador, afinal, além do impacto incerto nas atividades que aprendemos a fazer e das quais depende nosso ganha-pão, não sabemos onde isso irá parar.

O primeiro passo, portanto, é reconhecer que há uma mudança grande ocorrendo. O segundo ponto importante é que essa mudança recebe a contribuição de profissionais e empresas que não faziam parte do nosso radar. Muitas startups do agronegócio têm como fundadores cientistas da computação, engenheiros, programadores e cientistas de dados. Estas pessoas sabem fazer as perguntas certas e combinar as tecnologias que darão as respostas nesse novo mundo. Perguntam pelos problemas – e é interessante notar que, muitas vezes, quem é do setor não vê problemas óbvios que um olhar de fora permite ver. No contato com esse mundo, é usual ouvir frases como “como é que ninguém estava medindo isso antes?” Em parte, porque não havia como medir. Em parte, porque não estávamos acostumados a pensar fora da caixa, por não ter a bagagem que pessoas destas outras áreas, têm. Nesse novo ambiente, o concorrente não tem o jeito e a forma que você estava acostumado a ver – pergunte às redes hoteleiras sobre o AirBnb, ou à Blockbuster sobre a Netflix (neste caso não dá, porque faliu...). O concorrente pode vir de qualquer lugar, e sua empresa nem perceber, até ser tarde demais.

O terceiro passo importante é reconhecer que o conhecimento estocado não é mais suficiente para manter uma trajetória profissional tranquila, caso você tenha ainda algumas décadas de trabalho. O futurista norte-americano Alvin Toffler disse com precisão que “o analfabeto do século XXI não é mais o que não sabe ler e escrever, mas sim o que não sabe aprender, desaprender e reaprender”. Foi-se o tempo em que um belo diploma ou uma pós-graduação era suficiente (e nós ainda fazemos festas suntuosas de formatura!). Nesse mundo rápido e em transformação, o conhecimento se deprecia rapidamente e você precisa não só reaprender, mas também incorporar uma série de conhecimentos novos, em campos novos, que não faziam parte do seu escopo de atuação.

Gosto muito destes gráficos que explicam como era no início do século XX e como é hoje:

Reproduzido de Marcelo Nakagawa - http://blogs.pme.estadao.com.br/blog-do-empreendedor/gates-lemann-zuckerberg-musk-por-que-todos-os-principais-bilionarios-do-mundo-estao-investindo-em-educacao/

Dentro desse processo, o passo seguinte é participar de onde estão ocorrendo os fluxos relevantes de informação. A qualidade das conexões que você tem e dos fluxos dos quais você participa é que determinarão como e se você vai acompanhar a mudança. Como disse recentemente Marcelo Tas para o nosso PointCast, se você não se sentir defasado, é porque está mal informado. É absolutamente compreensível que os profissionais estejam angustiados e, para mitigar esse efeito, é fundamental reaprender, indo a eventos, conversando com pessoas que compreendem bem o processo tecnológico em curso e deixando-se envolver por essa nova corrente que vai nos levar em direção ao futuro.

Não por acaso, mesmo as corporações tradicionais estão destacando times para trabalhar em coworkings, permitindo à empresa captar de forma mais efetiva o processo de mudança e melhorando sua capacidade de conexão e, assim, de inovação.

Tendo criado meu negócio digital lá no início do ano 2000 (a AgriPoint, que possui o MilkPoint, o EducaPoint e outros serviços de informação), de certa forma transitar pelos caminhos do incerto faz parte do meu DNA. Em 2016, porém, comecei a perceber que poderia correr o risco de “fazer tudo certo e assim mesmo falhar”, como disse o CEO da Nokia. Comecei, então, a me conectar com esse novo mundo, inicialmente em grande parte desconhecido e que ainda reserva muitas surpresas e disrupções.

Desse processo, surgiu uma nova empresa da qual sou sócio: a Agtech Garage, que conecta corporações a startups, auxiliando na geração de negócios, e que em março terá seu novo espaço em Piracicaba: um hub de inovação de 2.500 metros quadrados, envolvendo coworking do agro e hubs de inovação dos nossos parceiros, certamente um marco no ecossistema do agronegócio nacional.

Projeto do Hub AgTech Garage - Campus Vale do Piracicaba. Projeto estúdio 5205, parceiro AguassantaDI

Esta foi a maneira que encontrei para materializar a minha necessidade de renovação, e da qual você pode também fazer parte.

Lembre-se – para ser um “agrodigital”, você precisa:

- Reconhecer e procurar acompanhar a mudança;
- Ter um mindset de aprendizado contínuo;
- Aproximar-se de profissionais com formação complementar, na área de informática, gestão de dados, nanotecnologia, biotecnologia, e negócios;
- Participar ativamente dos fluxos relevantes de informação.

Por fim, cito a frase de abertura de um dos melhores livros de economia que já li: “The Origin of Wealth – Evolution, Complexity and the Radical Remaking of Economics”, de Eric Beinhocker: “Uma janela como essa se abriu umas 5 ou 6 vezes desde que ficamos de pé. É o melhor momento para estar vivo, quando quase tudo que achávamos que sabíamos se mostra errado”.

Encare a mudança e aproveite o momento!

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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MARIUS CORNÉLIS BRONKHORST

ARAPOTI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/11/2018

Boa tarde Marcelo
Parabéns pelo seu artigo mais uma vez .
Não entrarei em detalhes mas devo concordar 100% com a sua colocação .
Depois de 36 anos de profissão mudou muito a forma convencional da produção e não bastando mas urgentemente nessecario teremos que acompanhar o digital e desaprender para aprender novamente .
Qual a percentagem que não acompanhará está evolução e por este motivo sairá das atividades ???
Muito difícil de responder .
Abraço