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Brasil 40ºC

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 07/05/2004

3 MIN DE LEITURA

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Não, não se trata da temperatura do dia. Também, não é a medida da temperatura do panorama econômico que, aliás, está muito mais quente do que isso, com bolsa caindo, dólar e risco Brasil subindo...

Trata-se do nome do evento realizado de 5 a 31 de maio na Selfridges, tradicional loja de departamentos da Inglaterra. Nesse período, a loja se veste de verde e amarelo, com direito à uma réplica do Cristo Redentor (veja foto abaixo), e presença do ministro Furlan e outras autoridades, cujo objetivo é divulgar produtos tipicamente brasileiros, de moda até arte, passando por alimentos (tem feijoada, acarajé, água de coco, pamonha, pastel, açaí, guaraná...), cosméticos e esporte. A Selfridges investou vários milhões de dólares na aquisição de produtos brasileiros e em marketing para divulgar o evento. A empresa espera, com isso, abrir mercado para produtos genuinamente brasileiros na Inglaterra. A APEX, Agência de Promoção das Exportações do Brasil, e o MDIC também participam ativamente. São mais de 600 produtos brasileiros, vendendo a "Marca Brasil".


Segundo informações, vende-se desde caipirinha até móveis de madeira feitos na favela de Vigário Geral. Nesses primeiros dias, foram vendidas mais de 100 móveis, com direito a matéria na revista Time Out. É a "favela chique", segundo a matéria.

Para nós, brasileiros, que temos um déficit crônico de auto-estima e um papel historicamente mais passivo do que ativo no comércio exterior, desde a época do Brasil Colônia, chega a ser supreendente que uma loja da Europa resolva fazer um mês brasileiro: já pensou se uma loja brasileira resolve fazer um mês "canadense", ou "indiano", que seja? Conversando há dois anos com o responsável pelas compras de produtos éticos da rede de Supermercados Tesco, a maior do Reino Unido, ele me disse haver enorme espaço para o desenvolvimento da marca Brasil no exterior. Segundo ele, temos ótimos produtos, passamos uma imagem de descontração e alegria, além de belezas naturais. Talvez o brasileiro represente a junção ainda meio utópica do lazer e do trabalho. Embora essa imagem, para muitos, seja motivo de certo constrangimento (a logomarca do Brasil 40º C tem samba, futebol, um sinal de vitória, uma palmeira e o Cristo Redentor), o fato é que o consumidor europeu parece ser sensível a isso: uma das chamadas da campanha da Selfridges é "being Brazilian is all about feeling o calor da vida, the fire of life!" ("ser brasileiro é sentir o calor da vida").

O diretor da Tesco me contou que as pessoas que visitavam o México muitas vezes se tornavam consumidores de produtos mexicanos, como forma de recordar a viagem e, de certa forma, continuá-la em sua terra natal.

No Brasil apesar (e talvez por isso...) dos turistas virem pouco para cá, o consumidor estrangeiro, principalmente o Europeu, cultura a imagem acima, apesar das más notícias que devem rodar o mundo todos os dias, falando da pobreza, do tráfico, do desmatamento e da corrupção.

É justamente essa imagem, ainda em certo grau preservada, que começa a ser melhor explorada pelo país, tanto pelas empresas, como pelas agências de fomento como a APEX e autoridades governamentais. O potencial, em se tratando de um país com a diversidade que tem o Brasil, é enorme.

Não tenho informação se há produtos lácteos brasileiros na promoção, mas acredito que não, até porque lácteos não são produtos tipicamente brasileiros, embora tenhamos alguns que são (queijo tipo "catupiry", por exemplo). Embora o grosso da receita brasileira deverá vir da exportação de commodities lácteas com alta competitividade, como leite condensado e leite em pó, é perfeitamente possível termos produtos de nicho, que tenham apelo ao consumidor estrangeiro e que possam remunerar bem quem os produz. Para ficar em dois exemplos mais evidentes, além do Catupiry, lembro-me do queijo da Serra da Canastra, por exemplo, que poderia ter apelo, tanto pelo sabor como pela cultura e tradição envolvidos. Está aí, também, uma ótima oportunidade para pequenos produtores, inclusive assentados rurais, cuja relevância social tem o potencial de sensibilizar o consumidor europeu (a Selfridges abriu um canal para doações para redução da pobreza. Diz a empresa: "o Brasil é um país fantástico, cheio de vida, mas nem todos têm as mesmas oportunidades").

Embora as atenções todas estejam voltadas para as exportações de grandes volumes de leite, aproveitando os mercados potenciais, a falta de leite na Argentina e o dólar neozelandês sobrevalorizado, não custa lembrar que produtos de nicho podem remunerar melhor e ajudar a consolidar a "marca Brasil", que por sinal deve ter um enorme potencial: afinal, mesmo sem ser bem cuidada, é capaz de estimular uma tradicional loja britânica a investir milhões em sua promoção, como está sendo o caso da Selfridges.

Para saber mais:

Selfridges - www.selfridges.co.uk
APEX - www.apex.org.br
Notícia sobre o evento, no site da APEX - http://www.apex.org.br/newsletter/040504-londres.html

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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