Pouco volumoso na dieta pode ser uma opção diante dos desafios produtivos no Nordeste?

No Nordeste a janela para a produção de alimentos volumosos é bastante reduzida, o que torna um desafio o fornecimento de constante na dieta ao longo do ano.

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Ao pensarmos na produção de leite como um todo, logo pensamos em alimentação e volumoso para vacas, pois estes animais primordialmente herbívoros devem consumir em grande parte da dieta capim verde, silagens ou fenos. No Nordeste, a pecuária leiteira está bem concentrada em regiões do agreste e do sertão, que historicamente possuem índices pluviométricos entre 500 a 800 mm, concentrados em 3 a 4 meses de estação chuvosa. Nesse contexto, possuímos pouco tempo para produzirmos os volumosos para suplementar nossas vacas leiteiras durante 8 a 9 meses do ano. 

Quando analisamos ao longo do ano, é comum observar nas propriedades leiteiras uma lotação de rebanho um pouco maior do que no início da estação chuvosa, uma vez que há um número maior de partos entre os meses de abril a junho, alinhado com uma retenção de fêmeas devido a melhora de preço do leite acontecendo historicamente a partir de julho/agosto. 

Nesta época do ano, onde as pastagens sofrem uma perca em quantidade e qualidade nutricional, o produtor necessita fornecer o volumoso produzido durante o período das águas. No entanto, muitas vezes a demanda por alimento supera a quantidade produzida. 

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A título de constatação, para uma vaca se alimentar ao longo dos 365 dias dos anos, o sistema convencional aqui no Nordeste, não funciona. A demanda de silagem, com uma média de 30,0 a 32,0 % de matéria seca, seria algo em torno de 10 toneladas de matéria verde por ano, para alimentar uma única vaca no Nordeste. Dessa forma, analisando as condições da região, que obrigatoriamente precisamos trabalhar com nove meses de suplementação, uma vaca leiteira adulta em fase produtiva necessitaria de aproximadamente 7 a 8 toneladas de matéria verde para passar o período de seca.

Sabendo desta condição, equilibrar uma dieta em fibra, proteína e energia para vacas leiteiras torna-se um desafio, onde temos que lançar mão de subprodutos como resíduo úmido de cervejaria, bagaço de cana, caroço de algodão, farelo de trigo e entre outros. A fibra dos ingredientes volumosos é uma trava de segurança na nutrição de vacas leiteiras, onde a fibra oriunda das forragens irá participar da formação do MAT Ruminal, que promove ruminação, motilidade e mastigação. 

Segundo Zebeli et al., 2012, a fibra fisicamente efetiva (FDNef) em dietas de vacas leiteiras deve abranger entre 14,8% a 19,6% da matéria seca da dieta para melhor aproveitamento dos nutrientes. Sendo que para trabalharmos com dietas com esse nível mais baixo de volumoso, temos que ocupar o espaço para atingir o orçamento final de consumo de matéria seca com subprodutos citados acima. Além disso, também orienta-se aumentar a segurança e a estabilidade ruminal com a utilização de tamponantes (bicarbonato e óxido de magnésio por exemplo). Dessa forma, tem-se uma dieta mais equilibrada, com a diminuição da pressão do uso de volumoso mantendo a saúde da vaca nesse período em que à disponibilidade de volumoso é mais desafiadora. 

Ou seja, dietas estratégicas com volumoso de boa qualidade, giram em torno de 40% a 50% do consumo total de matéria seca . Podemos balancear dietas trabalhando com volumoso próximo de 30% da demanda de matéria seca do animal na dieta, tendo em vista a utilização de subprodutos que venham ser encaixados nesse momento de redução de volumoso, aliado ainda, com o uso de tamponantes.

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Na nutrição de vacas leiteiras, é comum ouvir e ver na prática que se deve fornecer o concentrado para vacas respeitando uma relação de 3:1, ou seja para cada 3 kg de leite 1 kg de concentrado. Dentro das várias realidades do Nordestes, não é possível seguir essa relação, já que, devido aos desafios de produção de volumoso, muitas vezes os produtores aumentam o concentrado das vacas para compensar a falta de nutrientes que o volumoso iria fornecer na dieta. No caso de dietas de baixo volumoso, trabalhar com a relação leite produzido/concentrado 2,3 a 2,5:1 é uma realidade comum, que deve ser acompanhada por profissional de nutrição animal para que não venhamos a ter prejuízos em termos de saúde para o animal. 

 

 

Referência:
Q. Zebeli , J. R. Aschenbach , M. Tafaj , J. Boguhn , B. N. Ametaj , and W. Drochner. Invited review: role of physically effective fiber and estimation of dietary fiber adequacy in high-producing dairy cattle. Journal of Dairy Science, 95:1041-1056, 2012.

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