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Consumos de água na produção de leite

JULIO CESAR PASCALE PALHARES

EM 15/07/2020

10 MIN DE LEITURA

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As perguntas parecem simples. Quanto de água uma vaca em lactação consome por dia? Quanto de água se consome na lavagem dos equipamentos da ordenha? Quanto de efluente se gera por dia em uma sala de ordenha? As respostas a todas essas perguntas não são tão simples assim por se tratarem de aspectos multifatoriais, ou seja, vários fatores contribuem para se ter a resposta.

Confira o vídeo que o Julio Cesar Palhares gravou sobre o assunto: 

E por que devemos ter as respostas a estas e outras perguntas relacionadas ao uso da água em sistemas de produção de leite? Porque elas irão auxiliar na obtenção e no cumprimento das exigências da legislação ambiental, como a outorga de uso da água, e irão gerar informações de interesse da sociedade, facilitando a comunicação do setor leiteiro com os consumidores e conferindo maior transparência ambiental à atividade.

Segundo pesquisa a "Global Consumer Pulse", 83% dos consumidores brasileiros não estão dispostos a consumir produtos de empresas que não se posicionam em relação a questões ambientais e 76% são influenciados em decisões de compra pelos valores propagados pelas marcas. Portanto, ter valores ambientais e comprovar a efetivação destes valores será cada vez mais um fator decisório no comportamento de compra dos consumidores.

É por isso que empresas como a Fonterra da Nova Zelândia está introduzindo um programa de bonificação de até 6,5 centavos de dólar por quilo de sólidos do leite para fazendas que atendam às metas de sustentabilidade e valor da cooperativa. Vale lembrar que programas como esse já acontecem no Brasil. O programa Nestlé Nature bonifica em 7 centavos por litro de leite pelo uso de boas práticas ambientais e de bem-estar animal. No caso específico do uso da água na propriedade, o programa bonifica o produtor que instalar ao menos um hidrômetro e fazer a leitura deste com periodicidade mensal.

No texto Licenciamento Ambiental da Bovinocultura no Brasil – Parte 5: outorga de uso da água expliquei o que é uma outorga, suas características e custo em alguns Estados brasileiros. Ter a outorga propiciará ao produtor(a) conhecer como a água está sendo utilizada na propriedade, quais são os maiores consumos e onde estão os pontos de maior e menor eficiência no uso. Com isso, o produtor(a) poderá implementar o manejo hídrico no sistema de produção, produzindo o mesmo litro de leite com menor volume de água.

Em uma propriedade leiteira existem vários consumos de água: dessedentação dos animais, lavagem de instalações e equipamentos, irrigação e consumo pelas pessoas que vivem e trabalham no local. Todos estes consumos devem ser considerados no processo de pedido da outorga.

A melhor forma de se saber quanto de água se consome em cada um destes consumos se dá pela instalação do hidrômetro (Figura 1) que é um equipamento simples e de baixo custo de aquisição e manutenção. Infelizmente, propriedades leiteiras com hidrômetros instalados ainda é uma situação rara de se encontrar no Brasil.

Em pesquisa realizada em 215 propriedades leiteiras do Estado de Minas Gerais no ano de 2016, pesquisadores da Embrapa Pecuária Sudeste constataram que 98,6% não possuíam hidrômetro e não faziam controle de consumo de água e somente 1,4% tinham controle do consumo de água de irrigação.

hidrometro em propriedade leiteira

Figura 1. Hidrômetro instalado em propriedade leiteira para medição do consumo de água na sala de ordenha.

Devido a esta ausência de uma cultura de medição do consumo de água nas propriedades rurais brasileiras a Agência Nacional de Águas (ANA) e as agências estaduais responsáveis por conceder a outorga de uso da água propõem fatores de consumo para que o produtor possa estimar a demanda hídrica de seu sistema de produção. Estes fatores são baseados em estudos científicos nacionais e internacionais. Portanto, muitas vezes não expressam a realidade produtiva da propriedade em análise. Por isso, a melhor informação de consumo será aquela gerada por medições na própria propriedade.

Cabe ressaltar, que os fatores propostos pelas agências outorgantes se referem, em sua grande maioria, ao consumo de água de dessedentação dos animais. Para outros consumos, como os ocorridos na sala de ordenha, não são propostos fatores. Caberá ao produtor(a), junto com o técnico contratado para elaborar o pedido de outorga, estimar este e outros consumos. Não considerar todos os consumos da propriedade pode significar um volume de água outorgado menor que o necessário o que limitaria o desenvolvimento da atividade.

Alguns estados brasileiros não têm nenhum tipo de norma ou manual que determine fatores de consumo de água para avaliação do processo de outorga. Alguns estados têm como referência a Nota Técnica 364/2007/GEOUT/SOF da ANA ou referenciam normas de outros Estados, como no caso do Mato Grosso do Sul que referencia o Paraná.

Na Tabela 1 são apresentados os valores de consumo de água de dessedentação para bovinos, conforme Nota Técnica no 364/2007/GEOUT/SOF da ANA.

Tabela 1. Consumo de água de dessedentação de bovinos, conforme Nota Técnica no 364/2007/GEOUT/SOF da ANA.

Observa-se que a diferença entre os valores máximos e mínimos é muito significativa, chegando a representar 130 L/dia/animal para bovinos de leite. Isso reflete as diferentes categorias animais de um sistema de produção de leite, bem como os diferentes níveis de produção. Enquanto uma vaca seca ingere em média 40 L de água/dia, uma vaca no pico de lactação pode ingerir 150 L de água, dependendo de sua produção de leite.

Tabelas apresentadas dessa forma dificultam a escolha de qual o melhor valor a ser considerado para a avaliação da demanda hídrica do rebanho. Essa escolha será ainda mais difícil e sujeita a erros se a pessoa que está fazendo a avaliação não ter conhecimentos básicos de produção animal, da espécie em avaliação e do sistema de produção. Essa situação é comum quando empresas de consultoria ambiental não têm profissionais agropecuários em seus quadros e são contratadas por produtores de leite para encaminhar processos de outorga do uso da água.

Se for tomado como base o valor mínimo, a demanda de água será subdimensionada, podendo ter como uma das consequências a falta de água ao longo do ciclo produtivo. Tomando-se como referencial o valor máximo, a demanda calculada será muito maior que a demanda real, isso pode significar custos desnecessários com sistemas de armazenamento e distribuição de água e maior taxa de pagamento pelo uso da água.

Estados como Paraná e Bahia determinam referenciais próprios de dessedentação animal, como pode ser observado na Tabela 2.

Tabela 2. Consumo de água de dessedentação animal, conforme Manual Técnico de Outorga da SUDERHSA/Paraná e Formulário de caracterização do uso da água – captação para fins de dessedentação animal/Bahia.

O Manual Técnico e Administrativo de Outorga de Direito de Uso de Recursos Hídricos no Estado de Minas Gerais (2010) traz como fator de consumo de água para bovinos de 60-80 L/dia/animal.

A utilização de valores únicos de consumo proporcionará maiores erros de cálculo quando a espécie em questão é o bovino. Isso se deve aos bovinos serem criados em uma maior variabilidade de sistemas de produção, terem ciclos de vida mais longos, possuírem ampla variabilidade nutricional em relação a alimentos volumosos e concentrados e os intervalos de eficiência produtiva são mais amplos. Devido a essas realidades as Tabelas com indicações de consumo de água para bovinos deveriam diferenciá-los em tipo carne e tipo leite e apresentar os consumos por categoria animal.

A Tabela 3 é uma compilação de dezenas de recomendações técnicas, estudos científicos e legislações ambientais. Portanto, nos valores apresentados estão embutidas diferentes genéticas, diversos manejos nutricionais e sanitários, condições ambientais específicas, sistemas de produção e nível tecnológico não especificados, bem como diferentes qualidades de mão de obra. Esses valores podem ser utilizados se o usuário não dispuser de informações sobre o consumo de água para suas condições produtivas.

Tabela 3. Valores de consumo de água de dessedentação de bovinos de leite.

volumes de agua para bovinos de leite por dia

Quanto ao consumo de água na lavagem do equipamento de ordenha, se a propriedade dispor de um sistema mecanizado, este consumo é padronizado pelo fabricante do equipamento. Então a sugestão é entrar em contato com o fabricante para obter essa informação de consumo por rotina de lavagem.

Já o consumo da prática de lavagem do piso de ordenha para retirada dos restos de fezes e urina é uma informação mais difícil de ser obtida por não existirem padrões de manejo e pelo consumo ser dependente de fatores como: tipo de sistema de produção, tipo e condições estruturais do piso da ordenha, se raspa os restos de esterco antes de lavar, se faz lavagem com água sob pressão e se o operador foi capacitado para realizar esta prática com eficiência hídrica.

Pesquisas da Embrapa Pecuária Sudeste indicam que entre os consumos de água na sala de ordenha a maior porcentagem se dá na lavagem do piso, 48% do consumo diário, seguido de 37% na limpeza de equipamentos e 10% nos bebedouros da sala de ordenha. Portanto, qualquer iniciativa em tornar a prática de lavagem do piso mais eficiente trará significativos impactos positivos para economia de água.

Padrões internacionais europeus e neozelandeses estipulam um eficiente consumo da água na sala de ordenha variando de 50 a 80 Litros por vaca em lactação. Palhares e Novelli (2016) monitoraram o consumo de água por vaca em lactação de um sistema a pasto onde havia a raspagem do piso e lavagem com pressão. A Tabela 4 apresenta os dados por estação do ano, indicando que existe uma influência da estação no valor consumido.

A irrigação é uma prática cada vez mais presente nas propriedades leiteiras, principalmente quando se opta pela irrigação de pastagens a fim de aumentar a oferta de volumoso no período seco. Quando se faz presente, ela tende a representar o maior consumo de água do sistema de produção de leite. Por isso, utilizar esta prática de forma correta é fundamental para segurança hídrica da propriedade e adequação a legislação ambiental.

Lembre-se, irrigar não significa molhar a terra! A irrigação é uma prática agrícola que demanda conhecimento para ser realizada. Mendonça e Marques (2014) definem o manejo de irrigação como as práticas que têm por objetivo maximizar a produção vegetal com o menor consumo de água. Portanto, a água consumida na irrigação deve ser efetivamente utilizada para a produção, com o mínimo de perdas.

O consumo de água de irrigação é dependente de vários fatores como as condições edafoclimáticas da região, tipo de cultura vegetal, tipo de sistema de irrigação, forma de cálculo da lâmina de irrigação, entre outros. Portanto, a contratação de um profissional capacitado para planejar e implementar o sistema de irrigação é fundamental para que a prática seja feita com a máxima eficiência hídrica. Isso tornará o processo de outorga de uso da água da propriedade mais simples e com menor custo.

A cultura de medir os consumos de água de um sistema de produção de leite ainda é pouco exercitada no Brasil. Isso tende a mudar, seja por exigências da legislação, seja por pressão da sociedade. Deve ser entendido que o manejo hídrico é parte do manejo cotidiano da propriedade. Com este entendimento, cumprir as exigências da legislação ambiental será mais tranquilo.

Mas mais importante! Com o manejo hídrico a propriedade será exemplo de uso da água com eficiência. E o produtor(a) poderá dizer de fato que "SIM, eu sei o quanto a água é importante para mim!".

Bibliografia

BAHIA. Formulário de caracterização do uso da água – captação para fins de dessedentação animal. INEMA, Salvador. 2017. http://www.inema.ba.gov.br/atende/formularios/outorga/

BRASIL Agência Nacional de Águas. Manual de procedimentos técnicos e administrativos de outorga de direito de uso de recursos hídricos 2013. Agência Nacional de Águas: Brasília. 2013.

MENDONÇA, F.C.; MARQUES, P.A.A. Manejo hídrico na agricultura. In: PALHARES, J.C.P.; GEBLER, L (Ed.). Gestão ambiental na agropecuária. Brasília, DF: Embrapa. 2014. v.2. p.49-98.

MILKPOINT – Giro de Notícias. Brasileiro decide compra a partir de marcas com mesmos propósitos e valores. https://www.milkpoint.com.br/noticias-e-mercado/giro-noticias/brasileiro-decide-compra-a-partir-de-marcas-com-mesmos-propositos-e-valores-220140/

MILKPOINT – Giro de Notícias. NZ: Fonterra pagará mais aos produtores por leite sustentável. https://www.milkpoint.com.br/noticias-e-mercado/giro-noticias/nz-fonterra-pagara-mais-aos-produtores-por-leite-sustentavel-e-de-alto-valor-220198/

MINAS GERAIS. Manual Técnico e Administrativo de Outorga de Direito de Uso de Recursos Hídricos no Estado de Minas Gerais. IGAM, Belo Horizonte. 2010.

NOVELLI, T. I.; MORELLI, M.; PALHARES, J. C. P. Quantificação do consumo de água em uma sala de ordenha. In: X Simpósio de pós graduação e pesquisa em nutrição e produção animal, 2016, Pirassununga. Novos desafios em pesquisa em nutrição animal, 2016.

PALHARES, J.C.P. Consumo de Água na Produção Animal Brasileira. In: PALHARES, J.C.P. (Org.). Produção animal e recursos hídricos: tecnologias para manejo de resíduos e uso eficiente dos insumos. 1ed. Brasília: Embrapa, 2019, p. 53-78. https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/202069/1/Producao-Animal-Recursos-Hidricos.pdf

PARANÁ Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental. Manual Técnico de Outorgas. SUDERHSA, Curituba. 2006

JULIO CESAR PASCALE PALHARES

Pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste

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ANAIR BORTOLINE GALLAFASSI

TANGARÁ - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/07/2020

Oi qual e o valor por litro d agua q vão cobrar
JULIO PALHARES

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 17/07/2020

Cara Anair, Agradeço o envio de sua dúvida. Não existe um valor nacional ou mesmo estadual que irá ser cobrado pela água. Quem tem a responsabilidade de determinar este valor é o Comitê de Bacia Hidrográfica de sua região. O Comitê é um órgão formado por representantes públicos e da sociedade e tem a função de fazer a gestão da água na região. Então minha primeira orientação é ver se já está instituído o Comitê em sua região. Pode ser que ele ainda não exista, então a cobrança pela água também não existirá. Caso já exista o Comitê, entre em contato com eles para ter a informação se a cobrança já está ocorrendo. É sempre bom ter contato e participar do Comitê. Assim você terá acesso a toda informação relacionada ao uso da água. Boa sorte!
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