Na indústria láctea, o controle de patógenos como Listeria monocytogenes, Escherichia coli, Staphylococcus aureus, Salmonella spp. e Brucella spp. é constante, dado o risco que esses microrganismos representam à saúde pública. A atuação de microrganismos deteriorantes, por sua vez, compromete as características sensoriais de leite e derivados, sabor, aroma e textura, ocasionando desperdício e perdas econômicas ao longo da cadeia produtiva. Diante desses desafios e da mudança nos hábitos de consumo, diferentes estratégias naturais de conservação vêm sendo desenvolvidas, com destaque para o uso de bactérias ácido-lácticas (BALs) (Garín-Murguialday et al., 2026).
As BALs são amplamente reconhecidas, científica e industrialmente, pela capacidade de produzir compostos bioativos durante a fermentação de leite e derivados. Entre esses compostos, destacam-se peptídeos bioativos originados da biotransformação de proteínas lácteas, os quais podem exercer diferentes efeitos benéficos, incluindo atividade antimicrobiana. A produção de ácido lático como produto principal do metabolismo de carboidratos é uma das características mais relevantes desse grupo microbiano, contribuindo diretamente para a redução do pH e a inibição de microrganismos indesejáveis (Carneiro et al., 2024). Quando aplicadas corretamente na produção de queijos, iogurtes e outros derivados, as BALs não apenas conservam os produtos e ampliam sua vida útil, mas também conferem propriedades funcionais associadas à saúde intestinal (Todorov, 2026).
A atividade antimicrobiana das BALs decorre da produção de metabólitos capazes de eliminar ou inibir microrganismos patogênicos, além de dificultar processos como adesão celular, colonização e formação de biofilmes em superfícies e matrizes alimentares. Entre os principais compostos produzidos pelas BALs, destacam-se ácidos orgânicos, dióxido de carbono, peróxido de hidrogênio, diacetil e bacteriocinas, substâncias com atividade de amplo espectro (Ben Said et al., 2019; Corrêa et al., 2023). A ação combinada desses compostos potencializa o efeito inibitório das BALs em lácteos fermentados, como queijos e iogurtes, aumentando sua eficiência como agentes naturais de preservação (Boussif et al., 2026).
Pesquisas têm buscado incorporar BALs e seus compostos antimicrobianos em embalagens ativas, revestimentos comestíveis e sistemas combinados de conservação ("tecnologia de barreiras"), ampliando a proteção microbiológica de leite e derivados e respondendo à demanda crescente por produtos mais naturais e seguros (Zang et al., 2026; Moradi et al., 2021; Garín-Murguialday et al., 2026). Nesse contexto, as BALs consolidam-se como estratégias para a inovação e valorização do setor lácteo, oferecendo uma alternativa sustentável e eficiente que alia segurança microbiológica, extensão da vida útil e redução do uso de conservantes artificiais, pilares fundamentais da produção clean label.
Figura 1: Mecanismos de ação das bactérias ácido-lácticas (BALs), seus benefícios tecnológicos e aplicações na produção de lácteos clean label.
Referências bibliográficas
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