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Qualidade, quantidade e horário de fornecimento de colostro para raça Jersey

CARLA BITTAR

EM 13/07/2005

13 MIN DE LEITURA

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Por Carla Maris Bittar Nussio 1 e Lucas Silveira Ferreira 2

O inadequado fornecimento ou manejo de colostro pode causar significativo aumento nas taxas de mortalidade e morbidade em bezerros. A importância do fornecimento do colostro de qualidade adequada nas primeiras 24 horas de vida de bezerros embora já tenha sido muito estudada, ainda é negligenciada por boa parte dos produtores. As maiores falhas de manejo de colostro se referem à inadequação na quantidade, qualidade ou horário de fornecimento deste alimento ao bezerro.

O colostro é a secreção da glândula mamária nas primeiras 24 horas após o parto, o qual apresenta composição diferente à do leite (Tabela 1). As altas concentrações de imunoglobulinas (Ig) têm papel importante no estabelecimento de imunidade passiva de bezerros jovens, além de exercerem efeito local no intestino. Por imunidade passiva entenda a transferência de Ig da mãe para o bezerro através do consumo de colostro. O consumo de imunoglobulinas depende da quantidade de colostro consumida além de sua concentração em Ig.

O número da lactação, a raça da vaca e o número de dias de período seco da vaca influenciam tanto o volume de colostro produzido, quanto sua concentração em Ig. Existem 3 tipos de Ig no colostro de vacas: IgG, IgM e IgA, que correspondem a 85-90, 5 e 7 % , respectivamente, do total de Ig do colostro. As imunoglobulinas ingeridas pelo bezerro são absorvidas por células epiteliais do intestino delgado, ganhando a circulação sanguínea. Esse mecanismo de transferência (transferência passiva) começa a se reduzir entre aproximadamente 12-23 horas, se encerrando às 24 horas após o nascimento. Daí a importância do horário de fornecimento.

Embora a concentração de Ig que proporciona adequada proteção possa variar com a exposição a agentes infecciosos, e fatores de estresse, ambiente e temperatura, deve-se ter como objetivo a concentração de 10 mg/ml de IgG no soro de bezerros com 24 horas de idade para prevenir o erro da transferência de imunidade.

Tabela 1: Alteração na composição de colostro conforme as ordenhas

 


Adaptado de Foley e Otterby (1978)

A recomendação tradicional para bezerros holandeses tem sido o fornecimento de dois litros de colostro nas primeiras horas de vida, seguida de mais dois litros dentro de 12 horas. Entretanto, bezerros recebendo 2 litros ou menos de colostro podem não consumir quantidade adequada de IgG se o colostro não for de boa qualidade ou não for fornecido logo após o nascimento. Uma pesquisa conduzida pelo National Animal Health Monitoring System (2002) mostrou que aproximadamente metade dos produtores americanos fornece entre 1,9 e 3,8 L de colostro durante as primeiras 24 horas de vida de bezerros; e mais de 20 % dos produtores fornecem mais que 3,8 L. Entretanto, outros 20 % dos produtores fornecem 1,9 litros ou menos durante as primeiras 4 horas, resultando em bezerros candidatos à falha na transferência de imunidade passiva. Assim, resultados de medidas das concentrações de IgG indicam que mais que 40% dos bezerros amostrados apresentaram concentração menor que 10 mg/mL, e mais de 25 % apresentaram concentrações menores que 6,2 mg/mL, colocando estes bezerros em alto risco.

Muitas pesquisas foram realizadas no sentido de estabelecer programas de fornecimento de colostro em raças de grande porte (Holandês), mas informações a respeito das concentrações de IgG quando bezerros Jersey são alimentados com colostro de alta e baixa concentração de Ig durante as primeiras 12 horas após o nascimento são escassas. Embora a relação entre a gravidade especifica do colostro e sua concentração de Ig seja similar àquela observada em vacas holandesas, o colostro de vacas da raça Jersey parece conter maiores concentrações de Ig (Quigley et al; 1994).

Jaster (2005) conduziu experimento na California Polytechnic State University com o objetivo de comparar a concentração plasmática de IgG quando colostro de alta e baixa concentração de IgG foi fornecido para bezerras Jersey durante as primeiras 12 horas de vida. Os bezerros foram separados de suas mães antes da ingestão de colostro, sendo pesados, identificados e transferidos para abrigo individual.

Colostro da primeira ordenha (alta IgG) e colostro de segunda e terceira ordenha (baixa IgG) foram coletados de vacas Jersey multíparas para a formação de dois pools para o experimento: alta qualidade (84 mg/mL) e baixa qualidade (31,2 mg/mL).

A Tabela 2 apresenta a qualidade e quantidade de colostro fornecida, assim como os horários de fornecimento de acordo com os tratamentos. O horário da primeira alimentação com colostro foi designado como 0 h (grupos 1, 2, 3 e 4) e alimentações subseqüentes (grupos 2 e 4) ocorreram 12 horas depois. Os bezerros foram alimentados utilizando-se mamadeira, sendo o colostro não consumido de forma voluntária pelo bezerro, fornecido através de sonda esofagiana.

Foram utilizados 24 bezerros da raça Jersey, os quais foram distribuídos nos seguintes tratamentos:

- Tratamento 1: Colostro de alta qualidade (1a ordenha) - 4L ao nascer;
- Tratamento 2: Colostro de alta qualidade (1a ordenha) - 2L ao nascer e 2L 12h depois;
- Tratamento 3: Colostro de baixa qualidade (2a e 3a ordenha) - 4L ao nascer;
- Tratamento 4: Colostro de baixa qualidade (2a e 3a ordenha) - 2L ao nascer e 2L 12h depois.

Tabela 2: Delineamento experimental para o estudo do efeito da qualidade e do horário do fornecimento de colostro na absorção de IgG em bezerros da raça Jersey

 


Após o período de fornecimento de colostro, de acordo com os tratamentos, todos os bezerros passaram a receber leite, ou seja, os bezerros dos grupos 1 e 3 receberam leite já na alimentação das 12h após o nascimento.

Amostras de sangue foram coletadas da jugular antes do fornecimento de colostro ao nascer e as 12, 24, e 48h de vida, sendo analisadas para concentração de IgG. A eficiência de absorção de IgG foi determinada pela multiplicação do volume plasmático estimado do bezerro pela concentração de IgG no plasma, dividido pelo total de IgG fornecido através do colostro. O volume plasmático às 48h de vida foi estimado conforme sugestão de Quigley e Drewry (1998) como 0,08 x peso vivo.

A concentração total de IgG no pool de colostro foi de 84 mg/mL e 31,2 mg/mL para os pools de 1a, 2a e 3a ordenha, respectivamente (Tabela 2).

A concentração de Ig no colostro varia conforme o histórico de doenças da vaca, o volume de colostro produzido, a época do ano, a raça e o tempo após a parição.

Conforme apresentado na Tabela 1, a concentração de Ig no colostro é máxima na primeira ordenha após o parto, decrescendo nas ordenhas subseqüentes. A concentração média de Ig em colostro de vacas holandesas é de 48,2 mg/mL, com uma faixa de variação de 20 a 100 mg/mL (Pritchett et al., 1991). A concentração de Ig no colostro fornecido para o grupo de alta qualidade foi similar ao de outro estudo com vacas Jersey, onde foram observadas concentrações de 65,8 mg/mL, com variação de 28,4 a 114,7 mg/mL.

A concentração sérica de proteína antes do fornecimento de colostro foi relativamente baixa, não sendo observadas diferenças entre os tratamentos, conforme descrito na Tabela 3.
Os bezerros dos grupos 1 e 2, alimentados com colostro de alta qualidade (84 mg/mL), apresentaram maior concentração de proteína sérica as 12, 24 e 48h (Tabela 3), quando comparados aos bezerros alimentados com colostro de baixa qualidade. Às 48h, bezerros alimentados com 4 L de colostro de alta qualidade (grupo 1) apresentaram concentração sérica de proteína aproximadamente 44% superior que bezerros alimentados com 4 L de colostro de baixa qualidade (grupo 3). Quando bezerros receberam colostro de alta qualidade, não houve efeito do horário de fornecimento na concentração sérica de proteína as 12, 24 ou 48h. Da mesma forma, quando os bezerros foram alimentados com colostro de baixa qualidade (31,2 mg/mL de IgG) não foram observadas diferenças do horário de fornecimento na concentração de proteína sérica às 12, 24 e 48 h. Embora os bezerros nos grupos 3 e 4 tenham recebido 124,8 g de IgG total até as 24 horas de idade, a concentração media de proteína sérica que 5,0 g/L, o que tem sido considerado como indicador de falha na transferência de imunidade passiva.

Tabela 3: Concentrações séricas de proteína em bezerros da raça Jersey

 


Uma pequena quantidade de IgG circulante foi observada ao nascer nos bezerros antes do fornecimento de colostro, não havendo diferenças entre os grupos. O fornecimento de colostro de baixa qualidade resultou em diferenças marcantes na concentração sérica de IgG relacionada com o volume do colostro fornecido e o horário de fornecimento (Tabela 4).

Os bezerros alimentados com 4 litros de colostro de baixa qualidade ao nascer (Grupo 3) apresentaram maiores concentrações de IgG as 12 e 24 horas, quando comparados com bezerros alimentados com 2 L de colostro de baixa qualidade ao nascer e mais 2 L 12 horas após (Grupo 4).

Entretanto, essas diferenças não foram observadas às 48 horas, sugerindo que oferecer uma segunda alimentação de colostro de baixa qualidade não garante proteção adequada. É geralmente aceito que a falha na transferência de imunidade passiva ocorre quando as concentrações sangüíneas de Ig são menores que 10 mg/mL às 48 horas de idade. Entretanto, a concentração de 15 mg/mL é provavelmente mais desejável como objetivo de manejo para a redução da mortalidade e morbidade de bezerros.

Tabela 4: Concentrações séricas de IgG em bezerros da raça Jersey

 


Como demonstrado na Tabela 4, bezerros alimentados com colostro de baixa qualidade (Grupo 4) não alcançaram a concentração desejada de 15 mg/mL. Por outro lado, bezerros alimentados com colostro com alto conteúdo de IgG apresentaram maiores concentrações séricas de IgG às 12, 24 e 48 horas, quando comparados aos bezerros que receberam colostro de baixa qualidade (grupos 3 e 4). Bezerros alimentados com 4 litros de colostro de alta qualidade ao nascer (Grupo 1) apresentaram concentrações de IgG às 12 horas similares a aquelas de bezerros alimentados com 2 L ao nascer e mais 2 L 12h após (Grupo 2). Entretanto, a concentração de IgG foi maior as 24 e 48 horas para aqueles bezerros alimentados com 2L de colostro de alta qualidade ao nascer e mais 2L 12 horas após, quando comparados aos bezerros que receberam 4 L ao nascer (Grupo 1).

A Tabela 4 mostra ainda que a concentração de IgG absorvida até as 48 horas foi 18 % maior em bezerros alimentados com 2 L de colostro de alta qualidade ao nascer e mais 2L 12 horas depois, quando comparados ao fornecimento de 4 litros ao nascer. Besser et al. (1985) observaram padrão similar de absorção de IgG, e demonstraram uma correlação negativa entre a eficiência de absorção e a quantidade de IgG fornecida, sugerindo assim uma limitação fisiológica na quantidade de imunoglobulinas que podem ser absorvidas de um determinado volume de colostro.

O fornecimento de colostro imediatamente após o nascimento é muito importante. O intestino do recém nascido é capaz de absorver grandes moléculas protéicas (como as Ig), de forma intacta, durante as primeiras 24 horas de vida, resultando em um aumento na concentração de IgG circulante no bezerro. Vários trabalhos demonstraram que a taxa de absorção depende da quantidade de colostro fornecida e do horário após o nascimento em que esta ingestão ocorre. O atraso no fornecimento de colostro pode resultar em um aumento na probabilidade de invasão de microrganismo no epitélio intestinal aumentando assim a taxa de mortalidade e morbidade de bezerros, uma vez que com o aumento da idade, ocorre um decréscimo progressivo na taxa de absorção.

A eficiência aparente de absorção (EAA) de IgG sérica foi medida à 48 horas para averiguar o sucesso da transferência de imunidade passiva (Tabela 5). Os bezerros que receberam colostro de boa qualidade em duas refeições (grupo 2) apresentaram maior EAA que o grupo que recebeu 4L ao nascer. Valores similares foram observados para bezerros do grupo 1 e 3, enquanto bezerros do grupo 4, os quais receberam colostro de baixa qualidade em duas refeições, apresentaram a menor EAA. Valores médios de eficiência aparente de absorção do colostro materno variam entre 20 e 35%, podendo ser influenciados pela concentração de IgG no colostro.

Alguns trabalhos sugerem que existe uma relação curvilínea entre a EAA e o consumo de IgG, de maneira que o consumo excessivo de colostro pode inibir a absorção de imunoglobulinas, particularmente com o avanço da idade do bezerro. Estas observações levam à conclusão de que 2L de colostro de alta qualidade deve ser a quantidade máxima ou ótima a ser fornecida a um bezerro do nascimento até às 16horas de vida.

Tabela 5: Eficiência aparente de absorção (EAA) de IgG em bezerros da raça Jersey.

 


Os resultados deste estudo mostram a importância da qualidade do colostro no que se refere ao consumo e absorção de IgG. Bezerros Jersey que receberam colostro de alta qualidade (84 mg/mL IgG) apresentaram maiores concentrações de IgG e proteína sérica total quando comparados aos bezerros que receberam colostro de baixa qualidade (31,2 mg/mL).

Bezerros que receberam colostro de alta qualidade em duas refeições (0 e 12h após o nascimento) apresentaram maior concentração de IgG após 24h e maior EAA às 48h, que bezerros alimentados com colostro de mesma qualidade, mas em uma única refeição (4L ao nascer).

Este trabalho sugere que práticas de manejo sejam adotadas com o objetivo de se fornecer duas refeições de colostr de alta qualidade, de forma a maximizar a transferência de imunidade passiva.

Comentários dos autores:

Este trabalho mostra de maneira clara a importância da qualidade, quantidade e horário de fornecimento de colostro na adequada transferência de imunidade passiva. O fornecimento de colostro 2a e 3a ordenha, ou seja, colostro de baixa qualidade, resultou em falhas na aquisição de imunidade passiva, como demonstraram os baixos valores de concentração sérica de IgG às 48h de vida. Concentrações de 15 mg/mL de IgG circulante devem ser consideradas como objetivo no manejo de colostro. Assim, de maneira a garantir adequada concentração de IgG no colostro, somente colostro de 1a ordenha deve ser fornecido. Mesmo com o fornecimento de colostro de boa qualidade, alguns cuidados devem ser tomados. As refeições devem ser de quantidade tal que permitam que o bezerro maximize a transferência de imunidade passiva, o que neste trabalho revelou ser duas refeições de 2L de colostro de alta qualidade. Parece haver um limite máximo para a transferência de imunoglobulinas da parede intestinal para a corrente sanguínea, provavelmente relacionada a quantidade de receptores disponíveis para a mesma. Assim, a quantidade de imunoglobulinas para transferência disponível deve ser tal que não sature estes receptores impedindo maior absorção. Este trabalho permite concluir que as recomendações tradicionais de fornecimento de 4L de colostro de alta qualidade, divididos em duas refeições, devem ser mantidas de maneira a garantir transfer6encia de imunidade passiva adequada e, portanto, redução nas taxas de morbidade e mortalidade de bezerros jovens.

Referências bibliográficas

Besser, T.E.; Garmedia, A.E.; McGuire, T.C.; Gay, C.C. Effect of colostral
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in calves. J. of Dairy Science, v.68, p.2033-2037, 1985.

Foley, J.A.; Otterby, D.E. Availability, storage, treatment composition and feeding value of
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Jaster, E.H. Evaluation of quality, quantity and timining of colostrum feeding on
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2005.

Pritchett, L.C.; Gay, C.C.; Besser, T.E.; Hancok, D.D. Management and production factors
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Dairy Science, v.74, p.2336-2341, 1991.

Quigley, J.D.; Drewry, J.J. Nutrient and immunity transfer from cow to calf pre and
postcalving. J. of Dairy Science, v.81, p.2779-2790, 1998.
Quigley, J.D.; Martin, K.R.; Dowlen, H.H.; Wallis, L.B.; Lamar, K. Immunoglobulin
concentration, specific gravity and nitrogen fractions of colostrums in Jersey cows. J. of
Dairy Science, v.77, p.264-269, 1994.


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1Carla Maris Bittar Nussio é é Engenheira Agrônoma formada pela ESALQ/USP, atualmente trabalha no Depto. de Zootecnia da ESALQ/USP atuando na área de pesquisa em nutrição de ruminantes e é responsável técnica pelo Laboratório de Bromatologia daquele departamento.
2Lucas Silveira Ferreira é aluno de iniciação científica. ESALQ/USP

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