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Sistema silvipastoril: produtividade aliada ao bem-estar animal

PRODUÇÃO

EM 05/12/2019

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Autores do artigo:

Bruno Humberto Rezende Carvalho (Doutorando - UFU)

Gabriel de Oliveira Rocha  (Doutorando - UFU)

Amanda Aparecida Brito (Mestranda - UFU)

Carolina Moreira Araújo (Doutoranda - UFU)

Gustavo Pereira Viana (Mestrando UFU)

Muller Carrara Martins (Doutorando - UFU)

Mara Regina Bueno de Mattos Nascimento (Prof. Dr. UFU)

Nas últimas décadas o agronegócio como um todo vem passando por mudanças no que diz respeito a produção, seja ela de origem vegetal ou animal. Na busca para aumentar a produtividade sem comprometer a sustentabilidade, novos sistemas de produção têm sido estudados e disponibilizados ao pecuarista. O sistema silvipastoril se define como um sistema que integra árvores, planta forrageira e o gado numa mesma área e, ao mesmo tempo (SILVA, 2004), apresenta-se como uma ferramenta que inclui, em seus conceitos referenciais, os elementos da sustentabilidade, ou seja, o ambiental, econômico, e o social.

No entanto, o que faz esse sistema ser ambientalmente sustentável?

Segundo Carvalho et al., (1994) o sistema silvipastoril promove melhorias ao nível do solo, aumentando sua fertilidade, basicamente por dois fatores. O primeiro é que as árvores apresentam um sistema radicular mais profundo quando comparadas às gramíneas, já que extraem água e nutrientes de camadas mais profundas do solo. O segundo se refere à maior umidade presente sobre as copas das árvores, bem como a maior presença de serapilheira (material recentemente caído no solo, constituindo-se de folhas, cascas, galhos, frutos e outras partes em diferentes estágios de decomposição), o que contribui como fonte de nutrientes para o sistema de produção.

Além dos benefícios sobre a fertilidade dos solos, segundo Paciullo et al., (2014), sistemas que apresentam sombreamento promovem conforto térmico aos animais, fato que reflete no desempenho produtivo e aumenta de maneira significativa a produção, seja de leite ou carne. Vale destacar que esse efeito é ainda mais pronunciado em animais taurinos (ex. Holandês). Outro benefício do uso de árvores em consórcio com gramíneas é a diversificação de renda, visto que a espécie arbórea pode ser frutífera, madeirável, forrageira ou de múltiplo propósito (SILVA e RIBASKI, 2006).

Pensando em todos os aspectos já mencionados fica a dúvida: porque não é comum vermos sistemas silvipastoris de maneira corriqueira?

O principal aspecto está atrelado ao fato da grande maioria dos produtores trabalharem em sistemas de monocultivo de capim, com animais criados a pasto de maneira extensiva e, portanto de baixo nível tecnológico que requer menor nível de planejamento, fato comprovado pelos baixos índices zootécnicos brasileiros. Quando se trabalha com sistema silvipastoril é exigido um alto nível de planejamento devido à alta complexidade envolvida neste sistema de produção já que há a necessidade de cuidados com a espécie arbórea, o manejo do pasto e o desempenho dos animais. É importante informar aos produtores que para o estabelecimento do sistema silvipastoril é necessário treinamento e capacitação, além do assessoramento por profissionais qualificados para assumir tal desafio.

Quando se leva em consideração apenas a planta forrageira que irá integrar o sistema silvipastoril é importante levar em consideração que há espécies mais adaptadas, ou seja, que toleram um maior nível de sombreamento sem que ocorra redução drástica dos níveis de produção de forragem, inclusive, algumas são citadas e descritas por Varella et al. (2009).

De maneira geral, todas as plantas forrageiras submetidas ao consórcio com espécies arbóreas irão apresentar mudanças morfológicas e fisiológicas importantes promovidas pelo sombreamento, o que altera aspectos com relação à estrutura do pasto, reduzindo a quantidade de plantas. Isso ocasiona redução na produção de forragem, sendo maior sua magnitude quanto maior for a intensidade de sombreamento e - consequentemente - reduzindo a densidade volumétrica (menor nº de plantas/m2) do pasto (LOPES et al., 2017), fato que pode comprometer a ingestão de forragem pelo animal em pastejo (REGO et al., 2006).

No entanto, as plantas forrageiras apresentam mecanismos de adaptação também chamados de plasticidade fenotípica que permitem que as mesmas modifiquem sua morfologia para se adaptar às condições de clima e/ou manejo imposta a elas. A Urochloa decumbens (capim-braquiarinha) tem se apresentado como uma espécie forrageira adaptada às condições de sombreamento conforme descrito por Lima et al. (2019). Nestas condições, a planta forrageira aumenta a área superficial de suas folhas com o objetivo de melhorar a interceptação de luz, além de aumentar o teor de proteína bruta da forragem. A magnitude destas resposta, no entanto, depende no nível de sombreamento.

Essa mesma autora encontrou em diferente experimento que é possível manter a produção de forragem sem que haja comprometimento na produção animal por área quando o nível de sombreamento foi de 23% da área total. A partir de 29% de sombreamento da área total, as massas de forragem e de seus componentes morfológicos diminuíram, reduzindo a densidade volumétrica da forragem, acarretando na redução do ganho de peso por área.

O conceito de sistema silvipastoril está diretamente associado ao conforto térmico para os animais de produção, principalmente em regiões tropicais em que o estresse pelo calor afeta negativamente o desempenho dos animais. Neste sentido, pesquisadores têm estudado os benefícios do sistema silvipastoril na redução da temperatura pelos mecanismos fisiológicos. De acordo com Pezo e Ibrahim (1998), sistemas sombreados comumente reduzem a temperatura do ar de 2 a 3 ºC, podendo chegar essa redução a 9,5 ºC, enfatizando a importância da escolha da espécie arbórea. Essa redução na temperatura do ar, promove alterações nos mecanismos fisiológicos de controle da temperatura reduzindo a temperatura retal, frequência respiratória e taxa de sudorese, principalmente em espécies e raças menos adaptadas ao calor como taurinos e bubalinos (PARANHOS, 2000)

Assim, o planejamento para implantação do sistema silvipastoril deve ser muito bem estudado com o objetivo de fornecer todos os aspectos positivos desta técnica sem, no entanto, comprometer a produção animal, ou seja, ganho individual x taxa de lotação animal. Para isso, pode-se aumentar a distância entre as árvores ou bosque permitindo melhor incidência de luz para a planta forrageira, além da escolha da orientação das árvores no sentido leste-oeste - quando possível - com o propósito de redução do nível de sombreamento.

O sistema silvipastoril se apresenta com uma excelente resposta aos problemas ambientais de emissão de metano, visto que este sistema aumenta a fixação de carbono (C) e problemas sociais, já que oferece bem-estar e conforto térmico ao rebanho, se tornando inclusive uma maior fonte de renda, visto que há nichos de mercados - principalmente em países europeus - que pagam melhor de acordo com o sistema de produção em que o animal foi criado. No entanto, conforme já discutido, alguns aspectos devem ser respeitados quando se deseja trabalhar com sistema silvipastoril para que o produtor obtenha os benefícios oriundos deste sistema de produção.

Referências bibliográficas:

CARVALHO, M. M.; FREITAS, V. P.; ALMEIDA, D. S. et al. Efeito de árvores isoladas sobre a disponibilidade e composição mineral da forragem de pastagens de braquiária. Rev. Da Soc. Bras. Zootec., v.23, p.709-718, 1994.

FRANKE, I. L., FURTADO, S. C. Sistemas silvipastoril: Fundamentos e aplicabilidade. EMBRAPA: DOCUMENTO 74, Rio Branco, Acre, p. 51, 2001.

LIMA, M. A.; DOMINGOS, S. C.; PACIULLO, F. F. et al. Evaluation of along-established silvopastoral Brachiaria decumbens system: plant characteristics and feeding value for cattle. Crop & Pasture Science, n. 70, p. 814-825, 2019.

LOPES, C. M.; PACIULLO, D. S. C.; ARAÚJO, S. A. C. Massa de forragem, composição morfológica e valor nutritivo de capim-braquiária submetido a níveis de sombreamento e fertilização. Rev. Bras. Med. Vet. Zootec, v. 69, n. 1, p. 225-233, 2017.

PACIULLO, D. S. C.; PIRES, M.F.A.; AROEIRA, L. J. M. et al. Sward characteristics and performance of dairy cows in organic grasslegume pastures shaded by tropical trees. Animal, v.8, p.1264-1271, 2014.

PARANHOS, M. J. R. C. Ambiência na produção de bubalinos destinados ao abate. In: ENCONTRO ANUAL DE ETOLOGIA, 2000, Florianópolis, SC. Anais... Florianópolis: Sociedade Brasileira de Etologia, 2000. V.18, p.26-42.

PACIULLO, D.S.C.; PIRES, M.F.A.; AROEIRA, L.J.M. et al. Sward characteristics and  performance of dairy cows in organic grasslegume pastures shaded by tropical trees. Animal, v.8, p.1264-1271, 2014.

PEZO, D.; IBRAHIM, M. Sistemas silvipastoriles. Costa Rica: CATIE, Proyecto Agroflorestal CATIE/GTZ, 1998. 12p.

REGO, F. C. A.; DAMASCENO, J. C.; FUKUMOTO, N. M.; CÔRTES, C.; HOESHI, L.; MARTINS, E. N.; CECATO, U. Comportamento ingestivo de novilhos mestiços em pastagens tropicais manejadas em diferentes alturas. Revista Brasileira de Zootecnia, Viçosa, MG, v. 35, n. 4, p. 1611-1620, 2006

SILVA, V. P. Sistemas Silvipastoris. Embrapa: Florestas. 2004. Acessado em 05/11/2019: https://www.cnpf.embrapa.br/pesquisa/safs/

SILVA, V. P.; RIBASKI,J. Sistema silvipastoril: Integração de competências para a competitividade do agronegócio brasileiro. Empraba – Florestas, p. 48-49, 2006.

VARELLA, A.C.; PORFÍRIO-DA-SILVA, V.; RIBASKI, J.; SOARES, A.B.; MORAES, A.; SAIBRO, J.C.; BARRO, R.S. Estabelecimento de plantas forrageiras em sistemas de integração floresta-pecuária no Sul do Brasil. In: FONTANELI, R.S. et al. (Ed.). Forrageiras para integração lavoura-pecuária-floresta na região sul-brasileira. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2009. p. 283-301.

Fonte da foto de capa: IDESAM

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MATHEUS GUIDOTTI THAIS GONZAGA

ARARAS - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/12/2019

A rentabilidade dos sistemas agrosilvipastoril é incomparável, principalmente considerando nas entre linhas plantio de feijao e amendoim no primeiro ano, milho no segundo e pastejo com cerca elétrica no e apos o terceiro ano. O maior desafio hoje é como implantar a faixa florestal no sentido leste oeste, considerando solos com declividade media e as curvas de nível. A falta de conhecimento técnico sobre espaçamento entre lenhosas ainda é um fator limitante ou ineficiente, bem como o destino da madeira após o sexto ou oitavo ano.
ROGERIO MORCELLES DERETI

COLOMBO - PARANÁ - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 06/12/2019

Favor atribuir o crédito da foto que ilustra a matéria. A publicação cuja capa ela ilustra não foi nem citada. Grato.
ROGERIO MORCELLES DERETI

COLOMBO - PARANÁ - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 07/12/2019

Grato pela resposta
JULIANE CRISTINA TOLEDO NEVES

PROMISSÃO - SÃO PAULO - ESTUDANTE

EM 05/12/2019

Muito Legal