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Quem desiste de produzir Leite?

POR PAULO MARTINS

PRODUÇÃO

EM 28/11/2011

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A cada onze minutos o Brasil contou uma fazenda a menos produzindo leite, entre 1996 e 2006. Isso ocorreu em todas as regiões do país. Afinal, quem é esse produtor que desistiu de produzir leite e por quais motivos?

O Dr. Eliseu Alves, ex-presidente da Embrapa, já entrou para a história do Brasil. Ele transformou a sua, a minha e a vida de todos os brasileiros, quando ousou sonhar que seria possível um país subdesenvolvido gerar tecnologia própria para a produção de alimentos na região tropical. Um dia eu conto esta bela história. Nossa prosa hoje é outra. Em julho deste ano ele esteve na reunião anual da SOBER, uma sociedade científica que congrega pesquisadores brasileiros que se dedicam à economia e à sociologia rural. Lá, ele apresentou alguns dados sobre a mudança do perfil do produtor agrícola brasileiro. Vou apresentar os dados relacionados ao leite para que possamos analisá-los.

Veja a tabela 1. Perceba que o Brasil tinha 1 milhão, oitocentos e dez mil produtores de leite em 1996. Dez anos depois, entre os novos entrantes e os que saíram, havia 470 mil propriedades a menos produzindo leite. Em dez anos, portanto, a cada quatro produtores um deixou de produzir leite. Este fenômeno ocorreu em todas as regiões do Brasil, em proporções distintas. E foi na Região Sul que houve a maior redução de propriedades. Foram 194 mil. Na Região Nordeste a perda foi de 132 mil propriedades, o que equivale a dez vezes o número total de produtores argentinos. É muito, não? A Tabela 1 ainda demonstra que foi na Região Centro-Oeste que ocorreu a menor perda relativa. Lá, um em cada seis produtores deixou a atividade. Confesso que esperava uma redução menor ou até mesmo um crescimento do número de propriedades leiteiras na Região Norte, hipótese que os dados não confirmaram.

Tabela 1. Número de Produtores de Leite por Região. Brasil. 1995/96 e 2005/06.
. Número de Produtores de Leite por Região do Brasil, 1995/96 e 2005/06
Fonte: Alves, com base nos Censos Agropecuários 1995/96 e 2005/06

A estratificação dos dados permite verificar em que faixa de produção ocorreu a maior perda de produtores. A tabela 2 traz informações muito interessantes neste sentido. Perceba a desproporção entre produtores e produção. Veja que, em 1996, 87,6% das propriedades produziram até 50 litros por dia e foram responsáveis por 36,1% da produção. Em grandes números, quase nove produtores em dez produziram pouco mais de um terço da produção brasileira de leite. Este quadro mudou um pouco em dez anos. Em 2006, quatro em cada cinco propriedades mantiveram-se na faixa até 50 litros/dia e produziram um em cada quatro litros. Portanto, houve uma redução do número relativo de produtores nesta faixa e uma redução mais que proporcional da produção oriunda de propriedades que produzem até 50 litros/dia.

NA faixa dos que produziram entre 51 a 200 litros cresceu o número de produtores, em termos relativos. Em 1996 eram 10,5% e, dez anos depois, eles eram 18,6% do total de produtores. A participação desta faixa também cresceu substancialmente em termos de produção total. Em 1996, respondiam por 35,9% da produção e, dez anos depois, este percentual atingiu a 53,2%. Já na faixa acima de 200 litros/dia, entre 1996 e 2006 o percentual de produtores caiu à metade, caindo também a participação desta faixa no cômputo da produção total, fazendo com que 1% dos produtores ficassem responsáveis por 20% de toda produção.

Tabela 2. Produtores de Leite por Estrato de produção. Brasil. 1995/96 e 2005/06
Produtores de Leite no Brasil por Estrato de produção. 1995/96 e 2005/06
Fonte: Alves, com base nos Censos Agropecuários 1995/96 e 2005/06

O Brasil produziu 18,52 bilhões de litros de leite em 1996 e 24,62 bilhões me 2006. Portanto, em dez anos aumentamos a produção em 32,9%, mesmo com 26% de propriedades leiteiras à menos, o que sinaliza melhoria de índices de produtividade. A faixa de produção de leite até 50 litros/dia foi reduzida em pouco mais de meio milhão de produtores (503 mil), o que é uma brutal redução. É claro que parte destes produtores aumentou a produção e, em dez anos, trocaram de estrato. Mas, o fato é que a maior parte dos 500 mil realmente saiu da atividade.

Já na faixa de 51 a 200 litros/dia o número de produtores aumentou em 61 mil em dez anos e a produção cresceu 6,45 bilhões de litros. Para se ter uma noção da magnitude dos números, a produção advinda desta faixa ou estrato dobrou em dez anos, embora o percentual de produtores tenha crescido 32,1%. Portanto, acresceram à produção anual brasileira o equivalente à produção do Uruguai em 4 anos! Já o estrato de produção superior a 200 litros registrou queda de 34 mil para 14 mil produtores em dez anos. Em termos diários, a produção do grupo caiu somente 261,6 milhões de litros, o que corresponde a cerca de 717 mil litros de leite/dia. Somado aos 307 mil litros/dia que o pessoal que produz até 50 litros dia reduziu em termos de produção, os menores e maiores estratos reduziram a oferta em cerca de 1milhão, cento e oitenta mil litros/dia em 2006, comparado com 1996. Mas, a turma que produz entre 51 e 200 litros/dia mais do que compensou esta perda, pois este extrato aumentou a oferta em 17 milhões, 670 mil litros/dia.

Bem, o que fizemos até agora foi apresentar os dados do Censo. Agora, é preciso analisá-los. Mas, meu espaço acabou. Então, deixo para você esta tarefa. Mas, prometo voltar rápido. Dessa vez, postarei um novo artigo no início da segunda quinzena. Daqui a três semanas nos reencontramos aqui, partindo deste ponto, para começarmos a análise. Até lá, reflita sobre esses números.

PAULO MARTINS

Doutor em Economia Aplicada. Chefe Geral da Embrapa Gado de Leite e Professor da UFJF.

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ELIAS DA SILVA MENDES

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 29/01/2016

pretendo entrar no ramo,e sobre apoiar os tecnicos p/ ver se o negocio vai dar certo;mudaria ate a cor da cueca em favor da tecnologia se fosse preciso.
DAVI CRUZ

PAULÍNIA - SÃO PAULO

EM 20/05/2015

Prezado Senhores, após ler lido todos comentários acima, quero parabeniza-los, sem distinção. Porém quero acrescentar que para os pequenos produtores de leite, falta o apoio que deveríamos ter por parte dos órgãos do governo como exemplo da casa da agricultura, por várias vezes tentei trazer um técnico vir até minha propriedade e sempre deparei com a impossibilidade de ser atendido por motivos que não me convencerão, tenho convicção que para o sucesso existe a necessidade de investimento tecnológico e boa vontade do produtor, mas o maior problema do pequeno produtor é a falta de recursos financeiro, os governantes anunciam valores exorbitantes de financiamento para o agronegócio, mas na prática conseguir é guase impossível. Como já foi falado neste fórum, o que será que está levando muitos a desistirem da pecuária leiteira, posso até estar enganado, mas acredito que a falta de recursos para investimento para troca do plantel, adequações tecnológicas e principalmente falta de orientação técnica.
um abraço.


Davi Cruz
JUAREZ BARBOZA DA SILVA

CACOAL - RONDÔNIA - DISTRIBUIÇÃO DE ALIMENTOS (CARNES, LÁCTEOS, CAFÉ)

EM 16/07/2013

Acredito que á bacia leiteira, está deixando de existir alguns ainda se aventuram, mas por pouco tempo, vão acabar desistindo por que estão levando pelo lado da tradição, que meu pai tirava leite e agora pretendo tirar leite,tamben não sabem avaliar o bolso, e nem o quanto custa criar prejuizos, com gado leiteiro que não vale á pena.
O negócio chama-se planejamento, planejar com gado de corte, gado com genética, avaliando as melhores prógenes para criar á pasto, ainda é o melhor caminho. Abraços. Fazenda Proverá. Juarez Barboza.
JUAREZ BARBOZA DA SILVA

CACOAL - RONDÔNIA - DISTRIBUIÇÃO DE ALIMENTOS (CARNES, LÁCTEOS, CAFÉ)

EM 16/07/2013

Acredito que , á pecuária leiteira está deixando de existir, os produtos para o gado esta ficando ,, cada vez, mais caro e o leite continua estável, pelo menos aqui na minha região, Rondonia, não vale mais á pena continuar, prefiro ainda o gado de corte com á tecnologia de hoje , e um plantel com boas prógenes ainda dá para continuar. Fazenda Proverá. Juarez Barboza. Cacoal/RO
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/06/2013

Prezados amigos: A fazenda Sesmaria inaugurou seu site. Para acessar, basta procurar pelo endereço www.fazendasesmaria.com
Um abraço,


GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
ALFA MILK
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
=HÁ OITO ANOS CONFINANDO QUALIDADE=
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 27/06/2013

Prezado Juliano,

Sou economista, com mestrado e doutorado em economia. Busquei adquirir conhecimento em gestão, estratégia e economia. Portanto, não me sinto capacitado a responder sua pergunta, que é de interesse de muitos produtores, creio eu.
JULIANO LEITE

MACHACALIS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/06/2013

Prezado Dr. Paulo,
Existe a possibilidade de ordenhar vacas mecanicamente sem o uso da ocitocina ou do bezerro ao pé apenas pelo método da recompensa? Neste método, a vaca entra na ordenha e na saída estariam cochos cheios de ração. Ou seja, a vaca soltaria o leite pois sabe que ao sair da ordenha irá ser recompensada com a comida. Vi um testemunho de uma criadora catarinense e gostaria de saber se há viabilidade neste método. Parabéns pelo artigo !!!
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 27/06/2013

Caríssimo Juliano,

Não tenho conhecimento a respeito e não posso lhe responder com achismos. Fico na dúvida se este experimento já foi feito. Mas, sem dúvida, sua pergunta é inquietante.
JULIANO LEITE

MACHACALIS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/06/2013

Prezado Dr. Paulo,

Numa ordenha mecânica posso ordenhar as vacas pelo sistema de recompensa? Colocando a ração do outro lado da ordenha, assim elas têm que passar pela ordenha, soltando o leite, pois sabem que se fizerem isso após a ordenha elas serão direcionadas ao local onde estão os cochos cheios de ração. Essa situação é possível?
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 13/02/2013

Prezado Fábio,

Estes dados foram apresentados pelo Dr. Eliseu, no painel da Sober ocorrido em Belo Horizonte e que eu tive a oportunidade de coordenar.
FÁBIO ROITMAN

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO

EM 13/02/2013

Prezado Paulo, parabéns pelo texto! Uma questão: os dados da Tabela 1 foram apresentados pelo Dr. Eliseu Alves no painel "O futuro das cooperativas de leite" do Congresso da Sober de 2011?
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 31/12/2011

Caro Warlem,

Obrigado pela lembrança neste momento tão importante, que é quando renovamos nossos sonhos e revemos os passos de nossa caminhada. Desejo a você e aos seus muita alegira, muita união e saúde em abundância!
WARLEM

SÃO LUÍS DE MONTES BELOS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 31/12/2011

Paulo Feliz ano novo pvc também e toda a sua família, que o ano de 2012 seja o ano da prosperidade para todos nós principalmente nós produtores de leite que DEUS nos ajude , e vamos fazer a nossa parte e ficarmos mais unidos p vencermos.
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/12/2011

Caro Guilherme,

Seus comentários dão vida a este espaço, pelo conteúdo, pela experiência e pela elegância no estilo. Foi bom tê-lo neste espaço neste ano e tenho certeza que iremos desfrutar de sua presença virtual em 2011. Feliz Natal, Feliz 2012 Pra você, para os seus famíliares e também quem esteve conosco neste ano que começa a terminar!
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/12/2011

Prezado Paulo Martins: Aproveito a oportunidade para externar a você e a todoa a sua família meus sinceros votos de Fleliz Natal e de um Ano Novo branco como leite. Agradeço todo o espaço que você, gentilmente, cedeu a meus comentários e a possibilidade de elevar, cada vez mais, meus conhecimentos sobre a pecuária de leite nacional, através dos inestimáveis ensinamentos que disponiza em seus artigos.
Um abraço,


GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/12/2011

Prezado Cláudio Napolis Costa: Obrigado pelos elogios às minhas intervenções. Como já tive oportunidade de externar, ao amigo Paulo Martins, são palavras de leigo, de homem de pouca cultura pecuária, mas que leva a sério sua produção. Concordo com você que a longa distância (não é o meu caso, pois estou a menos de uma hora de distância da propriedade e acompanho, via internet, o dia a dia dela, por meio de meu notebook) é grande limitador, mormente quando não se pode contar com equipe tão eficiente quanto a minha. Por outro lado, não me vejo prejudicado por ser Advogado e ser profissional do leite, porque nunca misturei rendas, nem despesas, nem troquei o aperfeiçoamento de uma área pelo da outra. Prova disso, minha vida como doutrinador e operador do Direito e a de criador de gado de leite de elite, ambos eficientes. Confesso a você que o apoio oficial aos produtores, em Juiz de Fora, é muito maior que o dispensado pelas Prefeituras de minha região. Lá, quem não tem maquinário próprio, sofre. Aqui, vejo tratores e outros implementos constantemente sendo colocados à disposição dos que produzem. Isto é um grande começo. Quanto ao tamanho, se este fosse documento, o que seria da Lúcia Mara, em seu pequeno sítio de Valadares? No entanto,ela é várias vezes premiada em diversas exposições do Brasil, inclusive na poderosa FEILEITE, possui um dos melhores rebanhos de Gado Holandês que eu conheço. Pequena, mas eficiente, o que significa que os pequenos podem sobreviver, basta profissionalismo. Paraná e Santa Catarina, pela colonização de origem europeia, tiveram o privilégio de ter implantada nas veias o cerne da união, do cooperativismo (exemplos são Concórdia, no setor de suínos e Castro, no de bovinos de leite). Debates como esse são essenciais para fomentar um panorama concreto do mercado que, talvez, em pesquisas e outros caminhos, não seja possível vislumbrar pela pouca abrangência e limitação à situações regionalizadas.
Um abraço,

GUILHERME ALVESDE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
CLAUDIO NAPOLIS COSTA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 14/12/2011

Caros colegas,
continuando...
Sou filho de produtor rural, tenho propriedade em Ponte Nova-MG, mas não pude me dedicar e dar continuidade à atividade leiteira, que iniciei modestamente, com novilhas/vacas Jersey, devido particularmente à distância de JF (que comprometia a gestão, mas, muito mais motivado, ou melhor desmotivado, pela indisponibilidade de mão de obra, seus problemas). Tentei estruturar parceria com técnicos agrícolas ou ganhos compartilhados com os empregados, mas não funcionou. A minha presença se fazia necessária para o acompanhamento e eventuais ajustes iniciais, até que se estruturassem. As atividades profissionais intensas não me permitiram e assim, fui obrigado a desistir (temporariamente, pois ainda acredito e sonho em retornar).
Hoje, a pessoa que colabora comigo no gerenciamento da recria de bezerros é um filho de um retireiro de meu pai e seu irmão. Ambiente familiar, que procuro valorizar com um pouco do que fazes, com os teus. Assim, de novo, a gestão, tem que ter competência, dedicação, estratégia e, essencialmente, na motivação das pessoas que colaboram e influenciam diretamente na realização dos resultados do negócio, da empresa.
Para finalizar, gostaria de lembrar que há algum tempo li o resultado de um estudo onde se relatou que as atividades empresariais mais eficientes no agronegócio eram gerenciadas por "empresários" com duas atividades. Não quero entrar no mérito, pois concordo em parte, mas há regras e exceções. Comigo, ainda não funcionou, mas o teu caso é um exemplo claro, a ser seguido.
Isso também nos lembra do empresário familiar, que gerencia os seus próprios negócios, e mesmo com as limitações estruturais do tamanho da propriedade, da pronta disponibilidade do conhecimento tecnólogico (capacitação) escoamento da produção e acesso aos mercados formais, as supera com dedicação e abnegação, sobrevivendo e produzindo!. Essa agricultura/pecuária familiar precisa ser valorizada pelos serviços públicos, pelo fortalecimento do associativismo, pela formação de lideranças com visão empresarial e entendimento do negócio, para que elas as disseminem e estendam a formação tecnológica e gerencial a todos os associados, motivando-os pela sua competência e resultados compartilhados. Vi e vivi um pouco disso no início da minha vida profissional com produtores familiares no (sudoeste de Santa Catarina, em particular) no sul do Brasil. A cultura cooperativista ali existe. Na pecuária leiteira de base familiar, por esse Brasil a fora é uma realidade, precisa ter atenção, pelos seus impactos sócio-econômicos. Aí, muito perto de nós, em Juiz de Fora, são 8.5 milhões de litros anuais, de aproximadamente 300 produtores, reunidos em associações, que precisam e querem ser atendidas adequadamente.
Pois é, me extendi bastante, além do que imaginava, mas o objetivo era esse, comentar, contribuir, compartilhando experiências para continuarmos aprendendo...
Um abraço em particular, e saudações a todos os colegas leitores!
CLAUDIO NAPOLIS COSTA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 14/12/2011

Caro Guilherme,
Ainda com a licença do Paulo, a quem agradeço a atenção por comentário anterior, recente. É uma satisfação receber um comentário/análise sua. Leio sempre o que escreves. Do teu estilo, da forma direta e do conteúdo informativo rico. Pois é, as experiências compartilhadas é que caracterizam o aprendizado e, em fóruns como esse, são um exercício efetivo da gestão do conhecimento. Gestão, novamente, palavra chave do que desejo avançar sobre os teus exemplos reais.
A questão do Associativismo tem, no meu entender, um componente cultural e outro de formação (educacional). O cultural, no nosso meio/cultura, onde impera a lei do Gérson, leva ao descrédito do interesse comum. A maioria que participa de uma entidade associativista/cooperativista pensa no que vai ganhar, qual a vantagem no final. Não pensa na força da União, do poder da instituição pelo grupo que representa, da defesa de seus interesses, da otimização dos recursos, do ganhos reais e até de bem-estar pelo convívio/aprendizado compartilhado.
O outro componente é o educacional, de formação básica, preparo ou capacitação, lacuna na maioria de nossa lideranças (não vai aqui nenhuma crítica, apenas uma constatação minha, pessoal) sindicais, associativistas, cooperativistas. Alguns não tiveram oportunidade de estudo, capacitação, e não muito raro, o fazem com extrema dedicação, mas sem a necessária visão gerencial. São colaboradores abnegados, importantes. Por outro lado, de novo a grande maioria, existem aqueles que assumem os cargos com interesses pessoais, motivados pela posição e destaque que em geral se dá ao cargo (político e não à competência da pessoa) e acabam nele se perpetuando (está aí um exemplo da CBF). Em geral estes dirigentes, além de despreparados, impedem a formação de novas lideranças e as "anulam" nos processos internos de eleição. Estes casos e tipo de comportamento alimentam a cultura do descrédito na estruturação de um associativismo, cooperativismo ou sindicalismo forte, que valoriza seu objetivos comuns, a capcitação de seus membros, formação e renovação de lideranças e posicionamento sócio-político apartidário. Me desculpem todos os que nos lêem, mas preciso e gostaria de justificar que esta minha contribuição se baseia em cinco mandatos como presidente de associações diversas (estudantes, profissionais de Zootecnia, empregados da Embrapa) e ainda fundador do sindicato da Embrapa (o atual SINPAF). A minha vida profissional se caracteriza por um relacionamento contínuo, direto com associações/cooperativas de produtores de leite e criadores de bovinos de raças puras. Também já fui Síndico de prédio (rss..., onde a lei do Gérsons precisa ser revogada!). Talvez, a mais importante, aquela recente, como Secretário de Agricultura e Abastecimento de Juiz de Fora, fantátisca, prazeirosa, fascinante pelos resultados obtidos e os potenciais de realização, com um convívio diário com Presidentes/diretoria de oito associações de produtores de leite. Continuo...
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/12/2011

Prezado Cláudio Nápolis Costa: continuando... cesta de fim de ano, todos os direitos trabalhistas (nossa obrigação primária). Ano que vem, vou implantar cesta básica de alimentos, mensal. Por tais benesses, ninguém quer sair da propriedade e a fila dos que querem trabalhar nela é substancial. Qual a vantagem? - funcionário contente é funcionário eficiente. O trato com os animais, cotidiano, gera uma ligação de amor entre o animal e seu tratador, a ponto de, quando eu brinco que vou vender algumas bezerras, um funcionário que cuida delas ameaça sair, porque não aceita a venda dos animais que viu nascer e criou com todo carinho. Isto é que é bonito, na nossa atividade, ver o trabalho realizado com amor, não com obrigação.
Volto a afirmar que não sou diferente de nenhum outro produtor, apenas consigo ver que o futuro da pecuária nacional está no homem, não no robô. Vejo que só sai da atividade o empregado que não foi valorizado. Temos que parar de ver o trabalhador como um inimigo para enxergá-lo como um colaborador. Esta é a diferença. Façamos a diferença e não teremos problemas de falta de mão de obra.
Desculpe, amigo Paulo Martins, o registro laudatário e o depoimento.
Um abraço,

GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/12/2011

Prezado Cláudio Napolis Costa: Estou vendo que a nossa Juiz de Fora é surpreendente em termos de conhecimento de pecuária de leite, embora não esteja, ela mesma, incluída em uma grande bacia. Muito boa a sua análise e, com a permissão do conterrâneo Paulo, desejo apenas afiançar que o grande problema do associativismo, no Brasil, ao contrário do que ocorre na Europa, por exemplo, se resume num problema cultural, já que não trazemos na alma esta genética. Não sei muito explicar o por quê, muito embora trabalhe para Sindicatos Profissionais (como Advogado, não como produtor), há mais de vinte anos e entenda este quadro como uma enfermidade espalhada pela totalidade das categorias profissionais. Em resumo, ninguém gosta ou quer sindicalizar-se, unir-se, manter-se coeso, associar-se para determinado fim. Os que o fazem ou são levados pela intenção ou pela obrigação (muito mais os últimos que os primeiros). O produtor de leite acostumou-se a ser desconfiado, a manter-se isolado dos companheiros, talvez motivado pelas experiências do passado, todas malfadadas, das grandes cooperativas. Ou elas se transformaram em enormes "trens da alegria", com desvio de numerários, patrimônio, lesões financeiras, enriquecimentos sem causa e perda dos objetivos, ou transformaram-se em indústrias que, ao invés de ajudar, passaram a explorar ao produtor. Como Advogado tenho visto que a mentalidade do trabalhador e do empregador têm sido modificada e o mercado de trabalho já não é o do tempo dos nossos avós. Talvez por isso, tanta reclamação relativa à mão de obra. É hipocrisia dizer que inexiste mão de obra especializada no campo, porque, em verdade, ela NUNCA existiu. Não, podemos, portanto, esperar encontrá-la. O campo sempe foi povoado por pessoas de baixa instrução, sem qualquer perspectiva de melhora e consolidados num sistema que passava de pai para filho. Meus atuais empregados, são filhos e netos dos que trabalharam para o meu avô. Todavia, ao contrário do meus antepassados, percebi que é possível especializar o trabalhador rural e passei a investir no homem como a solução e, não, como o entrave. Resultado: meus empregados estão comigo desde o começo de meu sistema, há mais de cinco anos, já fizeram diversos cursos (ordenha, higiene, técnicas de vacinação, de casqueamento, de inseminação artificial, de criação de bezerras, de tratorista, de roçadeira mecânica, entre tantos outros) e aprenderam o manejo com animais jovens, aplicação de injeções, tratamento tópico e medicamentoso de várias enfermidades, detecção de cio e comprovação e tempo de prenhês (toque retal), pequebnas cirurgias (como descorna e estirpação de abcessos) com o meu reponsável técnico, Médico Veterinário consciente que entende os trabalhadores como colaboradores e, não, como comandados. Em contrapartida, eles têm participação no valor pago pela qualidade do leite, recebem o dobro do salário mínimo, têm folga semanal e em feriados (mesmo laborando em ordenha, que é diária). Continuo...