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Produção ou qualidade: qual o melhor critério para seleção de forrageiras?

POR DUARTE VILELA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/07/2020

8 MIN DE LEITURA

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O melhoramento de plantas é um processo normalmente caro que requer tempo, trabalho e investimento. Se a decisão for tomada errada, poderá comprometer o programa de melhoramento e ser irreversível a curto prazo, podendo ter reflexo econômico a longo prazo. Portanto, é fundamental estimar parâmetros genéticos com a maior precisão possível para entender os seus efeitos, selecionar forrageiras promissoras e prever ganhos na seleção ao longo do tempo.

Neste contexto, a escolha correta da espécie de planta forrageira deve estar focada nas particularidades de clima e solo de cada local e constitui ponto central para o sucesso da exploração. Dessa forma, garante-se a sua persistência, aspecto de grande importância no custo de produção e para se garantir satisfatório desempenho animal no decorrer dos anos.

O ajuste do manejo da planta forrageira, seja esta para corte ou pastejo, requer conhecimentos prévios sobre os fatores que afetam a sua produção e a qualidade (idade da planta, época do ano, fertilidade do solo, clima e espécie). Portanto, o conhecimento dos parâmetros nutricionais e das características morfológicas e fisiológicas das plantas são essenciais para se estabelecerem procedimentos adequados de manejo e, nesse sentido, é importante ressaltar que existem grandes diferenças entre as espécies. Por essa razão, as bases para programas de melhoramento de plantas são fundamentais e é essencial que os princípios de manejo sejam conhecidos e aplicados para que elas possam se manter produtivas e persistentes.

Os programas de melhoramento de plantas por meio de seleção baseados exclusivamente no aumento da produção e produtividade podem influir negativamente no valor nutritivo de algumas culturas, principalmente se estas forem plantas forrageiras. Acredita-se que a redução seja um efeito de diluição, uma vez que ao se programar melhorias na estrutura da planta, aumenta-se a quantidade de carbono, sem um aumento proporcional na concentração de nutrientes.

Assim, não se pode pensar em programas de melhoramento de plantas visando sistemas futuros, com participação expressiva de forrageiras, com foco apenas em produção. Características como alta concentração de nutrientes, fibra equilibrada e amido ajustado, de forma a ter elevada eficiência nutricional, é o passaporte para se ter menos gastos com alimentos concentrados. A concentração de energia da dieta e a qualidade da fibra do alimento volumoso são pontos fundamentais para se produzir leite com eficiência.

Neste sentido, a seleção de plantas é uma ferramenta eficaz para aumentar a eficiência da produção animal, seja pela qualidade, seja pela maior oferta de alimentos, aumentando a produção por área ou criando possibilidades para se produzir em áreas ainda inexploradas (por exemplo, seleção para maior tolerância à seca, frio e encharcamento, melhor eficiência no uso de nitrogênio, entre outros).

O melhoramento de plantas tem trazido ao longo das últimas décadas, seguramente, grandes impactos positivos à pecuária nacional. Um programa de melhoramento só se justifica quando o germoplasma da espécie em questão foi explorado e os problemas a serem resolvidos forem bem identificados e solucionados.

Neste contexto, o melhoramento de plantas forrageiras tem objetivos semelhantes aos das grandes culturas: aumentar a produtividade, garantir a segurança do alimento, aumentar a resistência a pragas e doenças, produzir sementes viáveis, utilizar eficientemente os fertilizantes e ter boa adaptação aos estresses edafoclimáticos. Porém, quando se trata de plantas forrageiras, têm o adicional da persistência e da composição química – esta última para garantir bom valor nutritivo –, que trazem reflexo tanto no custo de produção, quanto no consumo e na produção animal, ou seja, ao ser consumida o seu valor é mensurado quando convertido em proteína de alto valor agregado (por exemplo, carne ou leite).

Avaliações diretas com animais, mensurando produção de carne ou leite, normalmente são demoradas e caras, exigindo muito tempo e infraestruturas complexas. Em função disso, especialistas em melhoramento de plantas e nutricionistas optam para um programa de melhoramento com base na produção por área e na qualidade, normalmente expressada pela composição química da planta e suas correlações com digestibilidade e consumo. Como vimos anteriormente, basear-se apenas na produção por área pode levar a erros na seleção de uma variedade ou cultivar, com consequências econômicas imprevisíveis.

De modo geral, à medida que a idade fisiológica da planta avança, modifica a sua estrutura (por exemplo, parede celular, também conhecida como fibra), aumentando as porcentagens de celulose, hemicelulose e lignina, reduzindo a proporção dos nutrientes potencialmente digestíveis, que por sua vez interfere na digestibilidade. Além do aumento da concentração de fibra nas hastes e na maioria das folhas, a concentração de fibras também é maior em toda a planta devido ao decréscimo da relação folha/haste, decorrente da maturidade das plantas. Assim, utilizar a relação folha/haste pode também ser critério para auxiliar na seleção de plantas forrageiras.

Há décadas o conceito de “valor nutritivo” é definido como o resultado da composição química e da digestibilidade de uma planta forrageira. Já a sua qualidade vai um pouco mais a frente, sendo representada pela associação destes parâmetros ao consumo voluntário, que, por sua vez, está diretamente relacionado ao desempenho do animal em termos de produção de leite ou de carne.

seleção de forrageiras

Até hoje alguns produtores e técnicos valorizam mais conhecer a produção de forragem por área do que o valor nutritivo, deixando em segundo plano a composição química, principalmente os teores de proteína bruta e fibra. Da mesma forma a digestibilidade, comumente associada à concentração de nutrientes digestíveis totais (NDT), muito utilizado no passado para se comparar forrageiras ou mesmo auxiliar na formulação de dietas para animais ruminantes.

Na prática, a digestibilidade dos nutrientes de uma forragem constitui um parâmetro importante para se conhecer o seu conteúdo energético. Embora muitos esforços venham sendo direcionados nas últimas décadas nos aspectos proteicos da dieta de ruminantes, a estimativa da energia constitui ainda desafio aos nutricionistas, principalmente por ser o componente nutricional de maior demanda e importância nas condições tropicais, principalmente se o alimento principal for forragem procedente do pasto.  

Há mais de cinco décadas já se estabelecia alta correlação entre digestibilidade e consumo de matéria seca, como destacado pelo renomado cientista Van Soest, que por sua vez mantém alta correlação com a parede celular da planta – fibra insolúvel em detergente neutro (FDN).

Desta forma, fica evidente a importância de se conhecer os componentes da parede celular das plantas forrageiras. Contudo, a determinação de fibra bruta, reconhecida na antiga análise bromatológica de Weende (método de análise proximal, proposto por Henneberg em 1894, com base nos resultados de pesquisa realizadas na Estação Experimental de Weende, na Alemanha), não expressa bem o valor nutritivo da planta. A sua principal limitação é não separar a celulose da hemicelulose e provocar a perda de parte da lignina (que não é considerada carboidrato) e da hemicelulose. Este método fornece valores baixos devido à utilização de digestão muito drástica, levando à perda de alguns componentes, não sendo adequado para a análise de alimentos. Já a técnica de determinação de FDN em plantas forrageiras é a melhor maneira de se estimar o parâmetro, pela importante correlação que mantém com o consumo de forragens.

É muito frequente associar o clima tropical ao baixo valor nutritivo das forrageiras, que normalmente apresenta baixos teores de proteína bruta, alto conteúdo de fibra e baixa digestibilidade. Esse conceito nos dias de hoje mudou. Contudo, as forragens tropicais possuem capacidade natural de acumular mais constituintes da parede celular que as espécies de clima temperado. Desde a década de 1960 já se associava baixos teores de proteína bruta da planta à digestibilidade, comprometida pelo nível inadequado de nitrogênio para os microrganismos do rúmen (por exemplo, os especializados em digerir parede celular ou, especificamente, celulose).

A FDN constitui conceito analítico de fibra desenvolvido pelo cientista Van Soest na década de 1960, como vimos anteriormente, a qual apresenta três principais componentes: celulose, hemicelulose, lignina e, biologicamente, aproxima-se do conceito dietético de fibra alimentar insolúvel.  Por muitos anos, o teor de FDN foi considerado sinônimo de qualidade dos alimentos para ruminantes, sob a ótica de uma possível correlação negativa entre concentração e capacidade de fornecimento energético. Desta forma, quanto maior a concentração de FDN em um alimento, menor seria seu valor nutritivo. Este conceito resultou numa certa “reprovação” de alimentos oriundos dos trópicos, particularmente as gramíneas, as quais eram julgadas de má qualidade simplesmente por serem mais fibrosas comparativamente às oriundas de clima temperado. Isso refletiu negativamente no uso de pastagens na produção de leite, causando certa rejeição na adoção destes sistemas. Um erro, considerando que na verdade é um indicativo da concentração de energia do alimento.

Mais recentemente, desenvolveu-se um novo guia de referência de qualidade dos alimentos que fornece aos produtores (principalmente os de aves e suínos) a análise de fibra dietética total por meio da tecnologia Near Infrared Reflectance (NIR), método este com custo mais barato, rápido e eficiente, frente aos convencionais de fibra (exemplo, fibra bruta e FDN). O guia contém os resultados da análise de polissacarídeos não amiláceos, o que dá aos nutricionistas a capacidade de analisar o seu conteúdo e as frações (solúveis e insolúveis) do alimento. O que se ganha com isso é a facilidade para os nutricionistas manipularem dietas com rapidez e eficiência, podendo substituir ingredientes sem afetar o desempenho animal. Conhecer a lignina poderá trazer benefícios adicionais na formulação de dietas de vacas de alta performance, por exemplo.

Em outra vertente, tem-se as vantagens da utilização da técnica in vitro na avaliação do valor nutritivo dos alimentos para ruminantes, pela sua rapidez e uniformidade, além de serem menos onerosas. Essas técnicas de laboratório, para ser eficientes, devem facilmente ser reproduzíveis e altamente correlacionadas a resultados obtidos in vivo.

Assim, como a lignina está diretamente relacionado com a digestibilidade e a FDN mantém alta correlação com o consumo, é importante quantificar o conteúdo total de fibra insolúvel do alimento, constituindo assim parâmetro importante no balanceamento de dietas.

Desta forma, independentemente da técnica adotada, considera-se que a digestibilidade e o consumo são parâmetros chaves na formulação de dietas para ruminantes. A medição desses parâmetros faz-se necessário, mesmo indiretamente por meio do teor de lignina, FDN ou até mesmo as frações solúveis e insolúveis do alimento, tendo em vista suas correlações com a ingestão de matéria seca e a eficiência na absorção e aproveitamento dos nutrientes da dieta.

Que nutricionistas e melhoristas de plantas de unam cada vez mais. Quem ganha e agradece, é a pecuária nacional!

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MILTON DE SOUZA DAYRELL

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 20/07/2020

Parabéns Duarte, um artigo muito bem sintetizado e claro.
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/07/2020

Obrigado amigo Dayrell. Pelo que te conheço há 40 anos sei que fala com sentimento real. Abraço.
RUBENS PINHEIRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/07/2020

parabéns Duarte, mais uma vez, você nos trás boas ferramentas para reforçar a importância da digestibilidade e consumo para a produção animal, além de outros atributos nutritivos é claro. forte abraço. Rubens
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/07/2020

Amigo Rubens. Nosso propósito sempre é contribuir com a nossa pecuária, em especial a leiteira. Abraço.