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Forrageiras tropicais: a importância do melhoramento genético nos futuros sistemas leiteiros

POR DUARTE VILELA

PRODUÇÃO

EM 26/07/2019

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*Por Duarte Vilela, Engenheiro Agrônomo e pesquisador da Embrapa Gado de Leite

Entre os grandes produtores mundiais de leite haverá uma retração do rebanho leiteiro nos próximos anos, segundo o World Markets and Trade, USDA. Mesmo excluindo o Brasil, mas o clima continuar a piorar nos principais países produtores de leite, a oferta mundial pode ficar comprometida. Se essas previsões se confirmarem, os ganhos de produtividade serão decisivos para que a produção se expanda e traz oportunidade para que o Brasil se insira definitivamente como exportador no mercado internacional de lácteos.

Algumas tecnologias são capazes de atuar pontualmente na produtividade de determinado fator. Por exemplo, a mecanização é capaz de elevar diretamente a produtividade da mão de obra; o manejo do pasto (fertilização, irrigação e gramíneas mais produtivas) incrementa a produtividade da terra; a genética e a nutrição aumentam a produtividade da vaca. Contudo, quando o assunto é pastagem, a sua utilização com maior eficiência para alcançar altas produtividades deve estar alicerçada no uso de forrageiras que apresentem expressiva capacidade de suporte, bom valor nutritivo e adaptadas aos biomas nacionais. Lógico que para isso será necessário mudar paradigmas sobre forrageiras tropicais e criar um novo portfólio de pesquisa embasado em espécies que detenham estas qualidades, onde geneticistas e nutricionistas estariam afinados e trabalhando juntos.

No entanto, as tecnologias não atuam isoladamente, se complementam e potencializam seu efeito de forma sinérgica podendo gerar impacto significativo na eficiência técnica e econômica do sistema produtivo. Um exemplo típico é o melhoramento de forrageiras tropicais, que não atendem à diversidade edafoclimática do país. Estima-se que a produção de leite esteja presente em 554 das 558 microrregiões geográficas levantadas pelo IBGE. É uma atividade heterogênea em escala de produção e padrão tecnológico de exploração, indicando a necessidade de que alguns conceitos sobre sistemas futuros de produção de leite de forma competitiva e sustentável sejam repensados.

A introdução de novas espécies forrageiras que respondam ao uso de tecnologias tem sido um fator preponderante para que os sistemas a pasto tenham sucesso.

A escolha correta da espécie adaptada às particularidades climáticas locais constitui ponto central para o sucesso da exploração. Dessa forma, garante-se a persistência da pastagem, aspecto de grande importância para se garantir satisfatório desempenho animal ao longo do tempo. O ajuste do manejo da pastagem requer conhecimentos prévios sobre os fatores que afetam a produção de forragem e, por consequência, a produção por área. Portanto, na utilização das pastagens, o conhecimento das características morfológicas e fisiológicas das plantas é essencial para se estabelecerem procedimentos adequados de manejo e, nesse contexto, é importante ressaltar que existem grandes diferenças entre as espécies forrageiras. Por essa razão, as bases para programas de melhoramento de forrageiras são fundamentais e é essencial que os princípios de manejo sejam conhecidos e aplicados para que as pastagens possam se manter produtivas e persistentes.

Não se pode pensar em sistemas futuros sem a participação expressiva de forrageiras com as características de alta concentração de nutrientes, fibra equilibrada e amido ajustado, de forma a ter elevada eficiência nutricional e admitir menores gastos com alimentos concentrados. A concentração de energia da dieta e a qualidade da fibra do alimento volumoso são pontos fundamentais para se produzir leite a pasto com eficiência. O que a pesquisa procura na verdade é substituir os concentrados convencionais a base de milho e soja, demandados como commodities agrícolas e na alimentação de suínos e aves, por alternativas eficientes em produtividade e rentabilidade.

A maior parte das áreas de pastagens cultivadas no Brasil são com as espécies Brachiaria brizantha e Panicum maximum, que juntas representam mais de 90% das pastagens tropicais brasileiras. Contudo, estas forrageiras apresentam fortes restrições de cultivo em áreas sujeitas a estresses ambientais como, frio, períodos secos prolongados e solos úmidos ou encharcados. Devido a estas restrições uma significativa área que poderia ser incorporada como pastagem, não tem sido aproveitada por falta de cultivares melhoradas e adaptadas às condições ambientais adversas. Ainda mais, há restrições legais à abertura de novas áreas de pastagens, reforçando a necessidade de recuperar pastagens degradadas, bem como incorporar novas áreas que hoje estão fora da faixa de adaptação das principais forrageiras tropicais.

O capim Setária (Setaria sphacelata, Schumach), amplamente cultivado em diversas regiões do mundo pelo potencial produtivo e bom valor nutritivo ao longo do ano, aparece como alternativa forrageira para cultivo em áreas sujeitas a estresses ambientais nos diferentes biomas brasileiros, condições em que a maioria das forrageiras tropicais não é eficiente.

Há possibilidade de ser utilizado em áreas hoje consideradas marginais para a formação de pastagens, a exemplo das sujeitas ao encharcamento do solo nos biomas Amazônia e Pantanal, ou sob condições de baixas temperaturas na região Sul e nas áreas de montanha, com altitude acima de mil metros, que durante o período de inverno, estão sujeitas à ocorrência de geadas, ou ainda sob condições de seca, nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, onde estão localizados os biomas Caatinga e Cerrados, caracterizados pela baixa pluviosidade ou ocorrência de períodos secos prolongados, respectivamente.

Recentemente, a Embrapa recebeu dos Estados Unidos (USDA/ARS) uma coleção de 80 acessos de Setária com o objetivo de caracterizar o germoplasma e iniciar um programa de melhoramento com esta promissora forrageira. Considerando a variabilidade genética existente no germoplasma, a excelente capacidade adaptativa a ambientes sob estresse abiótico, a Setária constitui uma importante alternativa forrageira, sendo para isso necessário selecionar populações melhoradas desse capim que apresenta propagação por semente, bom desempenho forrageiro e adaptado às condições de seca prolongada, solos úmidos e temperaturas frias. Inovar é levar ao mercado produtos e tecnologias que ainda não existem. Isso contribui para que a produção se torne mais rápida, facilitando o crescimento do setor.

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ROSANE

SEROPEDICA - RIO DE JANEIRO - PESQUISA/ENSINO

EM 29/07/2019

Excelente artigo. Parabéns! A pastagem é a melhor opção (menor custo) para alimentação dos animais em países de clima tropical. Mas, acho que ainda falta uma sintonia no manejo da pastagem com os animais, ou seja, saber o momento certo da entrada e saída dos animais nos piquetes.
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 02/08/2019

Sim Rosane. O manejo do pasto ainda é um desafio aos produtores, mesmo tendo algumas formas de contornar que vai desde a escolha certa da forrageira até o manejo, por exemplo, preferir o rotacionado, entre outros. O importante mesmo é o produtor acompanhar mais de perto o desenvolvimento da forragem e conhecê-la melhor, ou seja, ter um relacionamento íntimo com ela.
REINALDO

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 26/07/2019

Parabéns pela matéria. Excelente iniciativa!!
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 26/07/2019

Obrigado Reinaldo. A equipe da Embrapa Gado de Leite, liderada pelo Dr. Antônio Vander Pereira, renomado especialista em melhoramento vegetal, deve iniciar os testes com os 80 acessos que recebeu dos USA (USDA). Naturalmente que para isso o projeto será submetido à aprovação no Sistema Embrapa de Gestão para assegurar recursos financeiros, esperando que em breve, três a quatro anos, tenhamos resultados promissores. O diferencial deste projeto específico de melhoramento vegetal é que tem como colaboradores uma equipe de nutricionistas, o que sempre falta em projetos de melhoramento de forrageiras, principalmente as tropicais, para trabalhar a qualidade da fibra da planta, melhorando digestibilidade, consumo e consequentemente o desempenho animal.
MARTINHO MELLO DE OLIVEIRA

PARANAÍBA - MATO GROSSO DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/07/2019

Parabéns pela matéria Duarte Vilela! Qual seria a proteina dessa forrageira, é panicum ou tipo braquiaria?
Muito bom, produtor de leite precisa de alternativas para diminuir os custos com concentrado.
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 26/07/2019

Sr. Martinho, não é Panicum nem Brachiaria, é da espécie Setaria sphacelata, uma gramínea tropical como as outras, cujo teor proteico deve se assemelhar com as demais. As suas melhores características são tolerar mais do que as outras solos úmidos ou encharcados, regiões mais secas e clima de montanha.
EM RESPOSTA A DUARTE VILELA
MARTINHO MELLO DE OLIVEIRA

PARANAÍBA - MATO GROSSO DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/07/2019

Obrigado pelas informações, Duarte Vilela!
EM RESPOSTA A MARTINHO MELLO DE OLIVEIRA
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 29/07/2019

Estamos à disposição Sr. Martinho.