Tolerância ao calor em ovelhas lanadas e deslanadas, em Nova Odessa - SP

A lã funciona como barreira física para a penetração da radiação solar até a pele, pois, trata-se de material isolante (Silva, 2000). Um velo sujo absorve mais radiação e, conseqüentemente esquenta mais do que uma lã limpa, que reflete mais o calor. Nos trópicos, a época de maiores temperaturas do ar coincide com a estação chuvosa, que deixa o velo sujo, às vezes até mesmo com fungos que, junto com a umidade, favorecem o aumento da temperatura do velo, dificultando, ainda mais, a perda do calor corporal. A umidade do velo, devido a chuvas constantes, também pode deixar ovinos lanados mais propícios à pneumonia (Rodrigues et al., 2008).

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A preocupação sobre a adaptação dos animais ao calor é pertinente e atual, em face do problema maior que afeta todos os seres do planeta, o aquecimento global.

Os ovinos (Ovis áries, L.) estão bem adaptados tanto ao frio quanto ao calor, e apresentam temperatura média de 39ºC durante o dia, com uma variação fisiológica de 37,5ºC a 40,5ºC. A frequencia respiratória pode variar de 20 a 50, até 300 a 400 movimentos respiratórios por minuto, devido ao efeito do estresse por calor (Terrill, 1973, MacFarlane, 1965).

Como o estresse por calor pode afetar significativamente a vida produtiva e reprodutiva dos ovinos (Veríssimo et al., 2009), é importante conhecer a resposta fisiológica de ovinos lanados e deslanados ao calor. No verão, doenças, principalmente as parasitárias (verminose, berne, bicheira), são frequentes. O sistema imune, responsável pela defesa do organismo aos agentes agressores, é afetado negativamente se o animal está sob estresse (Kelley, 1988). Então, eu me perguntava se o fato de os ovinos sofrerem com essas e outras doenças no verão não poderia ser devido, também, a uma diminuição na imunidade provocada pelo estresse por calor.

Minha tese de doutorado (Veríssimo, 2008) estudou o tema tolerância ao calor em ovelhas lanadas (Suffolk, Ile de France e Texel) e deslanadas (Morada Nova e Santa Inês), criadas na cidade de Nova Odessa, região centro leste do Estado de São Paulo.

Nova Odessa está localizada a 22º42'S, 47º18'W e 570m de altitude. Possui clima temperado seco no inverno, e quente e chuvoso no verão, com médias históricas de temperatura máxima de 32ºC, mínima 13ºC e média de 22ºC.

Neste trabalho, foi observada a capacidade de as ovelhas dissiparem o calor adquirido após uma hora de exposição ao sol, em um teste de tolerância ao calor utilizado para bovinos (Titto et al., 1998). Titto et al. (1999) validaram o índice de tolerância ao calor com observações sobre a temperatura retal, frequencia respiratória e taxa de sudação de bovinos das raças Nelore, Marchigiana e Simental, em situação de conforto e estresse em câmara bioclimática, onde observaram a maior capacidade de sudação dos zebuínos que, por isso, dependiam de menor utilização do aumento da frequencia respiratória para perder o excesso de calor em condições de estresse térmico, e indicaram ser esse teste bastante adequado para avaliação da tolerância ao calor, representada pela termólise rápida e efetiva, com a vantagem de ser um teste simples, rápido e facilmente executável na própria fazenda.

No teste, realizado em dias quentes, sem vento e nebulosidade, os animais são trazidos às 11 horas para um local com sombra, e ficam descansando por 2 horas, quando é tomada a TR1 (temperatura retal). Em seguida, vão para um local sem sombra, onde ficam totalmente expostos ao sol por 1 hora, quando são recolhidos novamente à sombra. Após 1 hora de descanso à sombra, é tomada a TR2. Durante o período do teste (das 11 às 15 horas) os animais ficam sem água e comida. Então, por meio da fórmula ITC = 10-(TR2-TR1), obtém-se o índice de tolerância ao calor (ITC).

Nesse sentido, foram comparados: 1) ovelhas da raça Santa Inês de pelagem clara e escura; 2) ovelhas lanadas da raça Texel e deslanadas da raça Morada Nova; 3) ovelhas lanadas das raças Suffolk e Ile de France, antes e após a tosquia. Essas observações foram realizadas na época do calor em 2005/2006.

Os resultados foram: 1) não houve diferença entre os índices observados nas ovelhas de pelagem clara e escura (Veríssimo et al., 2009); 2) houve diferença significativa entre os índices das ovelhas Morada Nova e Texel, e o índice obtido pela Texel foi maior do que o das ovelhas Morada Nova (Tabela 2); 3) não houve diferença significativa entre os índices obtidos pelas ovelhas Suffolk e Ile de France antes e depois da tosquia (Tabela 4, Veríssimo, 2008).

A lã é um excelente isolante térmico. Provavelmente, a presença da lã nas ovelhas Texel impediu o aumento significativo da TR, como ocorreu com as ovelhas Morada Nova (Tabela 1), e isso influenciou no resultado do índice (Tabela 2). No entanto, ao realizar o experimento, no qual se comparava uma raça lanada, exótica, de origem holandesa (Texel), e que vieram do Rio Grande do Sul, com uma raça deslanada, adaptada ao clima quente do nordeste brasileiro, de onde é originária (Morada Nova), e que vieram da região de Franca, SP, notei que havia grande diferença na frequencia respiratória das duas raças quando trazidas para a sombra após sofrerem o estresse ao sol. Então, na época de calor seguinte (2006/2007), média máxima da temperatura ambiente de 33,5ºC no horário das 14h15min, média máxima da temperatura do globo negro ao sol de 48,2ºC, no horário das 14h, e índice de temperatura do globo negro e umidade ao sol máximo de 98, no horário das 14h elaboramos um experimento com o intuito de comparar a frequencia respiratória (FR) e a TR de todas as raças em diferentes momentos do teste, e pela manhã.

Neste experimento, a FR das ovelhas deslanadas foi significativamente inferior às lanadas em todos os horários observados (Figura 2) e a TR das ovelhas Santa Inês foi significativamente inferior (P<0,05) a algumas raças lanadas nos horários 13h, 14h, 14h30min e 14h45min (Figura 1). Não foram encontradas diferenças significativas entre a temperatura retal das ovelhas das várias raças nos horários da manhã, quinze minutos (14h15min) e uma hora após o estresse (15h). A média da TR de todos os animais permaneceu dentro da variação normal da TR de ovinos, segundo Marek e Mócsy (1973). Pela manhã (8h), e antes do estresse (13h), a FR nesses horários nas raças deslanadas já era bem menor (P<0,05) do que nas lanadas. Logo após o estresse, a TR aumentou significativamente em todas as raças, o mesmo acontecendo com a FR, que, nas lanadas, chegou a mais de 150 movimentos respiratórios por minuto. No entanto, 15 minutos depois, a FR já havia baixado significativamente em todas as raças (Figura 2). Quarenta e cinco minutos após o estresse, independente da raça, já não havia mais diferença significativa entre as temperaturas retais obtidas neste tempo e aos 60 minutos pós-estresse. O índice de tolerância ao calor obtido com a TR2 aos 45 minutos não foi diferente daquele calculado com a TR2 aos 60 minutos pós-estresse (Tabela 5).

Os ovinos utilizam com muita eficiência o aumento da FR como forma de perda de calor. Segundo Starling et al. (2002), o mecanismo de perda de calor mais eficaz é o evaporativo, por não depender do diferencial de temperatura entre o organismo e a atmosfera. A evaporação respiratória é um mecanismo fisiológico utilizado pelos ovinos em respostas intensas por períodos mais curtos do dia (Silva e Starling, 2003). Essa eficiência em perder calor por via evaporativa tem permitido aos ovinos se adaptar muito bem a locais quentes do planeta.

Em resumo, todas as ovelhas observadas neste estudo (18 de cada raça) foram capazes de perder, na sombra, o calor adquirido em uma hora de exposição ao sol, em um período de 45 minutos, e estão, portanto, adaptadas às temperaturas de verão que ocorrem em Nova Odessa, no Estado de São Paulo. No teste de tolerância ao calor, a tomada da TR2, em ovinos, pode ser antecipada para 45 minutos após o estresse.

A lã funciona como barreira física para a penetração da radiação solar até a pele, pois, trata-se de material isolante (Silva, 2000). Um velo sujo absorve mais radiação e, conseqüentemente esquenta mais do que uma lã limpa, que reflete mais o calor. Nos trópicos, a época de maiores temperaturas do ar coincide com a estação chuvosa, que deixa o velo sujo, às vezes até mesmo com fungos que, junto com a umidade, favorecem o aumento da temperatura do velo, dificultando, ainda mais, a perda do calor corporal. A umidade do velo, devido a chuvas constantes, também pode deixar ovinos lanados mais propícios à pneumonia (Rodrigues et al., 2008).

A grande maioria dos artigos científicos e os resultados obtidos neste trabalho mostram que animais tosquiados, que dispõem de sombra, têm menor temperatura retal que os ovinos com a lã (Tabela 3). No entanto, poucos trabalhos existem que demonstrem diferenças significativas no desempenho produtivo ou reprodutivo entre animais tosquiados e não tosquiados, na época de calor. Portanto, conclui-se que a tosquia é benéfica aos animais lanados nos trópicos, principalmente se há sombra para os animais se protegerem da radiação solar direta, mas a lã não foi obstáculo para a homeotermia (manutenção aproximadamente constante da temperatura interna do corpo), e, conseqüentemente, não comprometeu o bem-estar de ovelhas lanadas avaliadas no verão na cidade de Nova Odessa, Estado de São Paulo.

A tosquia deve ser preferencialmente realizada na primavera, a fim de que se evitem queimaduras do sol na pele, que fica desprotegida sem a lã, principalmente no caso das raças despigmentadas, como a Ile de France, sujeitas a adquirirem câncer de pele, devido à insolação em áreas desprovidas de lã, conhecido como carcinoma epidermóide (Del Fava et al., 2001). No verão, a lã já terá crescido o suficiente, cerca de 3cm, para proteger a pele da maior incidência dos raios solares que ocorrem nesta época do ano. Segundo MacFarlane et al. (1958), lã com 3 a 4 cm de espessura já oferece boa proteção à radiação solar. Outra vantagem de efetuar a tosquia na primavera é evitar o aparecimento de bicheiras, miíase provocada pela mosca Cochliomyia hominivorax que parasita ferimentos na pele comuns durante a tosquia, causando grandes prejuízos aos ovinos (Veríssimo et al., 2003), e cujo pico de ocorrência é no verão (Madeira et al., 1998).

Tabela 1 - Médias por quadrados mínimos da temperatura retal (ºC) de ovelhas Morada Nova e Texel antes (TR1) e depois (TR2) do estresse calórico (Veríssimo, 2008).

Figura 1

Médias seguidas de letras diferentes, maiúsculas nas colunas e minúsculas nas linhas, diferem entre si pelo teste Tukey (P<0,05).

Tabela 2 - Médias por quadrados mínimos do índice de tolerância ao calor (ITC), em ovelhas Morada Nova e Texel (Veríssimo, 2008).

Figura 2

Médias seguidas de letras diferentes na coluna diferem entre si pelo teste Tukey (P<0,05)

Tabela 3 - Médias por quadrados mínimos e erro padrão da temperatura retal de ovelhas Suffolk e Ile de France, com e sem lã, às 13h e 15h, no verão (Veríssimo, 2008).

Figura 3

Médias seguidas de letras diferentes na coluna diferem entre si pelo teste Tukey (P<0,05)

Tabela 4 - Médias por quadrados mínimos e erro padrão do índice de tolerância ao calor (ITC) em ovelhas Suffolk e Ile de France, com e sem a lã (Veríssimo, 2008).

Figura 4


Tabela 5 - Médias por quadrados mínimos do ITC (índice de tolerância ao calor), calculado para cada raça em diferentes horários da tomada da temperatura retal final (TR2) (Veríssimo, 2008).

Figura 5

Médias seguidas de letras diferentes maiúsculas na linha diferem pelo teste Tukey (P<0,05).

Figura 1 - Médias por quadrados mínimos da temperatura retal (TR) por raça e horário (Veríssimo, 2008).

Figura 6


Figura 2 - Médias por quadrados mínimos da frequencia respiratória (FR) por raça e horário (Veríssimo, 2008).

Figura 7


Referências:

DEL FAVA, C.; VERÍSSIMO, C. J.; RODRIGUES, E. A.; CUNHA, E.; UEDA, M., MAIORKA, P.C.; D'ANGELINO, J. L. Ocorrence of squamous cell carcinoma in sheep from a farm in São Paulo State, Brazil. Arq. Inst. Biol., v. 68, n. 1, p. 35-40, 2001.

KELLEY, K. W. Cross-talk between the immune and endocrine systems. J. Anim. Sci., v. 66, p. 2095-2108, 1988.

MACFARLANE, W. V.; Adaptación del Merino a las regions áridas del tropico. In: Manejo de Lanares, Montevideo: Librería Editorial Juan Angel Peri, 1965. v. 2

MACFARLANE, W. V.; MORRIS, R. J. H.; HOWARD, B. Heat and water in tropical Merino sheep. Aust. J. Agric. Res., v. 9, n. 2, p. 217-228, 1958

MADEIRA, N. G.; AMARANTE, A. F. T.; PADOVANI, C. R. Effect of managemente practices on screw-worm among sheep in São Paulo State, Brazil. Trop. Anim. Health Prod., v. 30, p. 149-157, 1998.

RODRIGUES, C. F. C.; VERÍSSIMO, C. J.; CUNHA, E. A.; KATIKI, L M.; BUENO, M. S.; SANTOS, L. E. Controle sanitário na produção de ovinos de corte em sistema intensivo de produção. In: CUNHA, E. A. et al. (eds.) Atualidades na produção de ovinos para corte. Nova Odessa: Instituto de Zootecnia, 2008. p. 89-119.

SILVA, R. G.; STARLING, J. M. C. Evaporação cutânea e respiratória em ovinos sob altas temperatures ambientes. Rev. Bras. Zootec., v. 32, n. 6 (supl. 2), p. 1956-1961, 2003.

STARLING, J. M. C.; SILVA, R. G.; CERÓN-MUÑOZ, M.; BARBOSA, G. S. S. C.; COSTA, M. J. R. P. Análise de algumas variáveis fisiológicas para avaliação do grau de adaptação de ovinos submetidos ao estresse por calor. R. Bras. Zootec., v.31, n.5, p.2070-2077, 2002.

TERRILL, C. E. Adaptación de los borregos y de las cabras. In: HAFEZ, E. S. E. Adaptacion de los animales domesticos. Barcelona: Editorial Labor, 1973. Cap. 18, p. 334-355.

TITTO, E. A. L.; VELLOSO, L.; ZANETTI, M. A.; CRESTA, A.; TOLEDO, L. R. A.; MARTINS, J. H. Teste de tolerância ao calor em novilhos Nelore e Marchigiana. R. Port. Zootec., v.5, n.1, p.67-70, 1998.

TITTO, E. A. L.; PEREIRA, A. M. F.; PASSINI, R.; BALIEIRO NETO, G.; FAGUNDES, A. C. A.; LIMA, C. G.; GUIMARÃES, C. M. C.; ABLAS, D. S. Estudo da tolerância ao calor em tourinhos das raças Marchigiana, Nelore e Simental. In: CONGRESSO DE ZOOTECNIA, 9., Porto, Portugal, 1999. Anais...Associação Portuguesa de Engenheiros Zootécnicos, APEZ, p.142, 1999.

VERÍSSIMO, C. J. Tolerância ao calor em ovelhas de raças de corte lanadas e deslanadas no sudeste do Brasil. 2008, 49f. Tese (Doutorado) - Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos, Universidade de São Paulo, Pirassununga, 2008.

VERÍSSIMO, C. J.; TITTO, C. G.; KATIKI, L. M.; BUENO, M. S.; CUNHA, E. A.; MOURÃO, G. B.; OTSUK, I. P.; PEREIRA, A. M. F.; NOGUEIRA FILHO, J. C. M.; TITTO, E. A. L. Tolerância ao calor em ovelhas Santa Inês de pelagem clara e escura. Rev. Bras. Saúde Prod. An., v. 10, n.1, p. 159-167, 2009

VERÍSSIMO, C. J.; BARBOSA, D. A.; HIROTA, S. J. A.; MOREIRA, L. B. B.; TREVISOL, E. Ocorrência e prejuízos causados pela mosca da bicheira (Cochliomyia hominivorax) em um rebanho de ovinos e caprinos no verão. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 40., Santa Maria, RS, 2003. Anais... Santa Maria: Sociedade Brasileira de Zootecnia (1 CD-ROM)
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Material escrito por:

Cecília José Veríssimo

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