Relação entre aplicação de tecnologia e lucratividade

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Independente do sistema de produção que se utiliza em pecuária leiteira, é importante que o pecuarista tenha em mente que seu objetivo deve ser sempre o lucro. Parece óbvio e até ofensivo dizer isto, mas a maioria dos produtores está preocupada somente em produzir mais leite (aumentar a escala) e/ou procurar trabalhar com vacas de maior produção individual. Estas conclusões são definidas pelos pecuaristas, sem que análises econômicas da atividade tenham sido realizadas e sem a verificação do fechamento das contas da propriedade em simulações de diversas situações produtivas.

No atual contexto da pecuária leiteira, a redução nas margens de lucro faz com que o pecuarista deva, cada vez mais, atentar para a relação custo/benefício das práticas tecnológicas que adota. Exemplos de que o pacote tecnológico comprado pelos pecuaristas não consegue proporcionar lucratividade, existem aos montes. A discussão realizada no artigo anterior (Rentabilidade e uso de concentrados) é outro exemplo e demonstra que algumas práticas nem sequer foram avaliadas economicamente para entrar em operação.

Neste sentido, trabalho apresentado por Fernando Enrique Madalena, professor do Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da UFMG, no 3º Encontro de Produtores de F1, na EMBRAPA de Juiz de Fora/MG, em 2001, exemplifica muito bem qual a relação ideal que deve ser mantida entre aplicação de tecnologia e lucratividade. Segundo o referido professor, é preciso, antes de qualquer coisa, fazer a distinção entre produzir em sistemas caros e obter lucratividade de fato. Ele demonstra a diferença citando trabalho de Holanda e Madalena (1998) onde estes apresentaram informações mostrando que produtores mineiros que vendiam 550 litros de leite por dia, com vacas mestiças produzindo 9 litros por dia, tinham melhor resultado econômico que produtores paulistas em fazendas que vendiam 1.800 litros de leite por dia com vacas da raça Holandesa confinadas, produzindo 19 litros por dia.

O custo de produção de leite em sistemas confinados é realmente mais alto e o pecuarista, para trabalhar neste sistema, deve ser eficiente o suficiente (tanto em relação à produtividade, quanto administrativamente) para que obtenha lucro nesta situação. A definição do ponto de equilíbrio entre as receitas geradas e os custos inerentes à produção, em qualquer tipo de sistema, é a primeira das tecnologias que deve ser implementada, através de uma boa simulação de viabilidade econômica. Somente depois disso é que se deve partir para a prática e verificar se há condições de realizar o planejado. O que o professor Madalena mostra no referido trabalho é que o ideal é trabalhar em sistemas mais adaptados às nossas condições, o que não quer dizer ter vacas muito produtivas, que têm alto custo de manutenção. É preciso salientar que, em resumo, a relação entre rentabilidade e o custo de produção é negativa, ou seja, quanto maior o custo de produção, menor a rentabilidade da atividade.

Em outro trabalho, Holanda et al. (2000) verificaram que algumas fazendas com perfil tecnológico dito "mais tecnificado", apresentaram margem líquida negativa, apesar das maiores produções por vaca. Comparando com propriedades que exploravam gado mais mestiço e, por conseguinte, mais rústico, as fazendas mais tecnificadas gastavam muito mais em diversos setores da criação, como sanidade, reprodução, controle de mastite, fornecimento de concentrados, animais em crescimento, etc.. Assim, a rentabilidade de quem aplicava mais tecnologia era inferior aos sistemas mais "adaptados", que tinham melhor rendimento por hectare utilizado e produziam um litro de leite mais barato.

Na verdade, o que está em discussão não é o questionamento das técnicas ensinadas nas universidades e nem das pesquisas acadêmicas desenvolvidas, mas sim a falta de interpretação destas informações e a péssima utilização delas, não as adequando às situações tropicais que encontramos em nosso País. A importação e implantação de sistemas de produção criados em países de clima temperado, fazem com que apareçam os efeitos citados anteriormente, ou seja, a incompatibilidade entre custo de produção e recita obtida.

A implementação de técnicas notoriamente úteis para a obtenção de incrementos nas receitas da atividade leiteira, seja no aumento da quantidade de leite produzido ou no aumento de sua qualidade, como o melhoramento genético proporcionado pela inseminação e a utilização de ordenhas mecânicas, somente se justifica desde que estas técnicas sejam bem aplicadas. Para a ocorrência de sucesso nestas empreitadas são necessários treinamento de funcionários, infra-estrutura adequada, apoio técnico e conhecimento da viabilidade de tal implantação.

Na parte de sanidade também existem equívocos enormes do que seria a boa técnica. De nada adianta a utilização de gado especializado e/ou puro de raças européias se o manejo sanitário do pecuarista é precário e deixa a desejar. Neste tocante temos duas alternativas: ou se melhora o manejo sanitário (e isto é um problema muitas vezes conceitual, de difícil mudança) ou se faz a adequação do sistema de produção, passando a trabalhar com animais mais rústicos. Teodoro et al. (1998) mostraram que a infestação com carrapatos não tinha efeito sobre a produção de leite de vacas mestiças, enquanto que as da raça Holandesa sofriam uma redução de 25%.

Madalena (2001) deixa claro que não se está apregoando o atraso e nem o uso de vacas de três litros por dia, mas demonstrando o potencial de se produzir leite com a adequação de tecnologias, principalmente no uso de ferramentas para definir o sistema de produção. A conclusão que o autor do referido trabalho chega é a de que para o desenvolvimento de uma pecuária leiteira tropical rentável, os seguintes componentes devem estar alinhados:

- alimento mais barato, baseado no uso racional de pastagens
- uso econômico de concentrados
- menor uso de medicamentos
- instalações simples
- utilização de máquinas e equipamentos somente quando justificados economicamente
- uso de gado produtivo, porém rústico, onde o cruzamento F1 sobressai

Isto sim seria aplicar tecnologia. Produzir a custos compatíveis, compreendendo as relações complexas entre solo/planta/animal e implementando práticas adequadas e elaboradas nas nossas condições específicas.
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Material escrito por:

Alexandre de Campos Gonçalves

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