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Produção por vaca e rentabilidade: existe relação?

POR MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/09/2000

4 MIN DE LEITURA

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Marcelo Pereira de Carvalho

Uma das polêmicas existentes em relação a custos de produção de leite reside na relação entre produção de leite por vaca e lucratividade de uma fazenda de leite. Quanto maior a média de produção do rebanho (expressa em litros de leite/vaca/dia ou mesmo por vaca/ano), maior o lucro do produtor?

Em termos gerais, não. O gráfico abaixo resume os dados de um trabalho realizado no estado de Wisconsin, nos EUA, apontando retorno sobre o capital investido em função da produção anual média do rebanho. Cada ponto representa uma fazenda e todas elas tiveram seus resultados calculados pela mesma metodologia, no mesmo ano. Fica fácil concluir que não há uma relação direta entre produção e lucro. Se notarmos a bola mais à esquerda do gráfico (menor produção), percebemos que está quase na mesma altura (ou seja, mesma rentabilidade) da bola que está mais à direita (maior produção por vaca).

Média flutuante do rebanho (RHA) x rentabilidade em Wisconsin (EUA)


Gráfico

Gráfico baseado nos registros de 257 rebanhos holandeses de Wisconsin, tendo sido compilado por Terry Smith e Lynn Johnson, Wisconsin´s Center for Dairy Profitability

Porque isto ocorre ? Primeiro, análises como esta colocam em um mesmo balaio sistemas de produção distintos, ainda que estejam na mesma região. Uma fazenda que trabalha com produção de leite por vaca/dia mais baixa, mas em um sistema de pastejo, eficiente em relação à exploração de outros fatores como área, mão-de-obra e suplementação alimentar pode ser tão ou mais rentável do que uma fazenda com alta produção por vaca, em sistema confinado. É bem provável que no exemplo das 2 bolas acima, a da esquerda seja um sistema com algum uso de pastagens e à da direita um confinamento com elevada utilização de insumos, talvez uma fazenda que vive a comercializaçao de animais de elite, muito comum nessa região dos EUA. Pode-se admitir isto porque dificilmente uma fazenda com baixa produção terá alta rentabilidade em confinamento total, e dificilmente uma fazenda de pastejo (mesmo temperado) terá produção por vaca no nível da fazenda representada pela bola da direita.

Além disto, não estão contempladas na análise diferenças em escala de produção (quanto maior a produção por fazenda maior tende a ser o lucro) e nas próprias características físicas (topografia, clima) e gerenciais (administração) de cada fazenda. Enfim, este tipo de comparação carrega muita interferência de fatores que não podem ser desconsiderados. Em outras palavras, comparando um grande número de fazendas com características diversas, o efeito da produção por vaca na lucratividade acaba sumindo. Trata-se de apenas uma variável que afeta o lucro, em meio a muitas outras.

O que não podemos é confundir os conceitos. É provável que, simulando níveis de produção dentro de cada fazenda, a relação entre nível de produção por vaca e rentabilidade fique bem mais aparente. Vamos admitir a seguinte situação para efeito didático, supondo uma mesma fazenda porém variando-se a produção por vaca:

SITUAÇÃO A: produção de 25 kg/dia

Custo diário de cada vaca em lactação fora alimentação: $ 4,50 (considera-se como custo fixo, pois é igual em ambas as situações, representando custos com pessoal, novilhas, manutenção, etc)

Custo de alimentação/vaca/dia: $ 4,00 (supondo $ 0,20/kg de MS e 20 kg de MS consumida)

Preço de leite: $ 0,40
Receita total: $ 0,40 x 25 = $ 10,00

Custo total: $ 4,50 + $ 4,00 = $ 8,50

Lucro por vaca: $ 10,00 - $ 8,50 = $ 1,50

% de lucro: 15%


SITUAÇÃO B: produção de 30 kg/dia

Custo diário de cada vaca em lactação fora alimentação: $ 4,50 (considera-se essencialmente fixo)

Custo de alimentação/vaca/dia: $ 4,85 (supondo $ 0,22/kg de MS - mais caro - e 22 kg de MS consumida)

Preço de leite: $ 0,40
Receita total: $ 0,40 x 30 = $ 12,00

Custo total: $ 4,50 + $ 4,85 = $ 9,35

Lucro por vaca: $ 12,00 - $ 0,35 = $ 2,65

% de lucro : 22%


Na análise acima (simplista, é verdade), considerou-se que, com a produção mais alta, apenas o custo de alimentação por vaca se eleva, o que de fato ocorre em muitos casos. Nota-se, neste exemplo, que mesmo com consumo mais elevado e custo do kg de MS mais alto (em função da maior quantidade de ração, por exemplo), este rebanho produzindo 30 kg é mais rentável do que produzindo 25 kg, pois os demais custos são relativamente fixos.

Porém, há exceções importantes, ainda mais em se tratando de Brasil. Em sistemas a pasto, maior produção por vaca pode significar maior seleção por parte do animal no pasto, escolhendo partes mais nobres. Normalmente, tal situação ocorre sob lotações por área mais baixas. Neste caso, com o aumento da produção por vaca, a menor eficiência na exploração da área de pastejo pode resultar em rentabilidade inferior.

De tudo isto, pode-se concluir que:

1. Em fazendas que exploram sistemas confinados, a produção por vaca tende a apresentar boa correlação com lucratividade, uma vez que grande parte dos custos é semelhante, variando apenas o custo de alimentação (um pouco) e a receita bruta (muito). Neste sistema, a exploração da produção por vaca é importante, desde que o aumento de produção seja sustentável, isto é, existam condições de manejo que permitam obter esta produção mais elevada, sem comprometer o animal.

2. Em sistemas a pasto, isto pode não ocorrer, uma vez que a maior produção por vaca pode vir em detrimento da lotação, que se constitui em um parâmetro importante na rentabilidade destes sistemas, tornando a análise bem mais complexa. Neste sistema, a exploração da produção por vaca, embora possa ser importante, nem sempre anda paralelamente à rentabilidade.

3. Ao se comparar diversas fazendas em relação à lucratividade, o peso de outras variáveis no lucro final, que não a produção por vaca, torna-se considerável. Entre eles, destacam-se topografia, clima, escala de produção e principalmente habilidade gerencial.

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fonte: MilkPoint

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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