Todo sistema de produção (pasto ou confinamento) apresenta particularidades e desafios. Aspectos positivos e negativos. Muitas discussões são levantadas nos diferentes nichos da cadeia de produção de leite, sobre qual seria o sistema ideal ou qual sistema de produção poderia ser mais vantajoso nas condições de exploração de leite em solos tropicais. Costumo conversar com muitas pessoas sobre o tema, procurando sempre esclarecer que não se trata de discutirmos se um sistema pode ou não superar outro, mas sim se cada um deles (pastejo ou confinamento total) está sendo conduzido de maneira correta ou eficiente. É importante chamarmos atenção sempre à questão do custo da terra, ou seja, quanto mais valorizada for a mesma, maior será a pressão pelo uso e emprego de sistemas de produção de leite extremamente competitivos e eficientes. Fica claro que em regiões mais valorizadas o confinamento pode abrir espaço para outras culturas a serem exploradas numa mesma propriedade, enquanto que em regiões mais quentes com menor latitude (próximas a linha do Equador) e terras mais baratas, o emprego do pastejo propicia grandes resultados por maximizar o potencial de produção de gramíneas tropicais (metabolismo C4), principalmente em projetos irrigados (tríade: água + luz + temperatura). Independentemente da região, quando temos escassez de recursos financeiros, é evidente que a proposta de produção de leite a pasto (agricultura familiar e projetos de sucesso como CATI-Leite ou BALDE CHEIO) apresenta-se talvez como única opção para se produzir leite com menor necessidade de investimentos. Devemos atentar também que menor investimento, necessariamente, não implica em maior rentabilidade de um dado sistema e que a produção de leite, em termos mundiais, deve e pode ser encarada como uma economia de escala: margens estreitas x ganhos em volume. A escala de produção, todavia, é um desafio para qualquer modalidade de exploração adotada.
Estabelecido os pressupostos iniciais deste post (que não tem como objetivo, reitero, propor a inócua discussão entre qual seria a melhor opção para se produzir leite de forma competitiva), deixamos em aberto a discussão neste espaço sobre a dificuldade encontrada por parte de produtores de leite à pasto em conseguir fazer com que o sistema, de fato, venha a ser mais barato (menor custo de produção, principalmente de alimentação) do que sistemas de produção confinados. Avaliando muitos casos, pude notar dificuldade na adequação do perfil de rebanho (em termos raciais) xs sistema de produção. Em outras palavras, muitos produtores que iniciaram sua produção com animais mais rústicos (zebuínos), com o passar dos anos produzindo leite, procuraram buscar opções em termos de genética para aumentar a produção, ou seja, introduziram o sangue holandês, para aumentar a produção de leite. Ao tornarem rebanhos mais “holandesados”, mudaram o perfil produtivo destes animais, também. Uma vaca ½ sangue além de ser mais rústica, tende a consumir menos matéria seca (MS), ter uma lactação mais curta, uma melhor reprodução e uma sanidade maior. Quando rebanhos vão sendo apurados a resposta produtiva muda e a necessidade de suplementação também. Tenho encontrado sistemas de produção fundamentados no pastejo com suplementação volumosa o ano todo, uso de quantidades significativas de concentrado e produção equiparável no período seco em relação as águas... Então surge a pergunta: que tipo de sistema temos em questão (nestes caso, por exemplo)?
Não podemos deixar de destacar as vantagens e propósito do pastejo rotacionado: trabalhar com alta lotação e ganho de produção por área. Nestes sistemas temos que preconizar a produção por área em detrimento à produção individual. As vantagens comparativas surgem quando conseguimos no verão apenas ministrar pequenas doses de concentrado e se possível (desejado) não fornecermos volumoso (suplementar/cocho). Durante o período seco, inegavelmente, para que possamos manter a capacidade de suporte, necessitamos lançar mão de alternativas inteligentes e baratas de alimentação suplementar volumosa no cocho como a consagrada cana de açúcar. O fornecimento de cana quando direcionado para animais menos exigentes (requerimentos) se traduz numa proposta muito interessante de alimentação. Quando fornecida para vacas de médio e alto potencial também pode ser uma opção, no entanto, com a necessidade de maior fornecimento de concentrado para atender a maiores requerimentos (desafios), gerando opções mais onerosas ao produtor.
Pelos motivos acima descritos, considero que um fator-chave para o sucesso de sistemas de pastejo é a capacidade do produtor em escolher, criar e selecionar animais adequados para o propósito de se produzir leite a baixo custo. Tal fundamento não impossibilita a escolha de rebanhos especializados (como holandesas puras) para produção em pastejo rotacionado mas reconhecemos que esta raça mundialmente é consagrada e reconhecida, mundialmente, pela habilidade em sintetizar leite quando submetida a sistemas de alta pressão por produção individual como o regime de confinamento total.
