A cadeia produtiva do leite se mantém como uma das mais relevantes dentro do agronegócio brasileiro. Em 2023, o Brasil produziu cerca de 35 bilhões de litros de leite, ocupando a quarta posição no ranking mundial de produção, segundo o IBGE (2024). Trata-se de um volume expressivo, que demonstra o potencial do país para atender não apenas o mercado interno, mas também nichos importantes no mercado internacional.
Em termos de capacidade produtiva, o Brasil teria condições, por exemplo, de suprir parte da demanda de blocos econômicos exigentes, como a União Europeia — desde que fossem atendidos os requisitos sanitários e de qualidade. Entretanto, apenas 24,522 bilhões de litros foram inspecionados oficialmente, revelando que uma parcela significativa do leite ainda circula fora dos canais formais de controle (Figura 1).
Figura 1. Produção total anual de leite inspecionado no Brasil entre 2000 a 2021.
Fonte: IBGE, 2022
Um dos principais fatores que contribuem para o persistente déficit brasileiro na balança de lácteos é justamente a baixa qualidade média do leite. O desafio, portanto, não está apenas em produzir mais, mas em garantir regularidade, padronização e conformidade com os padrões internacionais. Atualmente, apenas 69% da produção nacional é processada por laticínios com algum tipo de inspeção oficial (federal, estadual ou municipal). A outra parte — cerca de 27,6% — é consumida nas próprias propriedades ou comercializada informalmente, sem controle sanitário e fora das normas que asseguram rastreabilidade e segurança alimentar.
Essa informalidade apresenta grande variação regional: enquanto estados como Santa Catarina chegam a industrializar 93% de sua produção com inspeção, regiões do Nordeste operam com índices próximos a 50%. Essa fatia significativa da produção que ainda escapa dos canais formais de inspeção representa um entrave crítico para a construção de uma imagem sólida e confiável do setor lácteo brasileiro no mercado externo. Mesmo com indústrias e produtores altamente qualificados em algumas regiões, a presença de uma base produtiva despadronizada, com índices sanitários e de qualidade heterogêneos, compromete seriamente o avanço do Brasil como país exportador de lácteos.
Atualmente, o Brasil concentra seus embarques em mercados vizinhos ou emergentes, como México, Bolívia, Egito, Costa do Marfim, Venezuela e China. A inserção em mercados mais exigentes, como União Europeia, Estados Unidos e países da Ásia desenvolvida, ainda é limitada por dificuldades do setor em atender, de forma ampla e consistente, às exigências sanitárias e de qualidade impostas por esses destinos.
Entre os principais requisitos técnicos dos países importadores estão:
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Controle rigoroso de microrganismos patogênicos, como Salmonella e Listeria;
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Baixos níveis de CPP e CCS;
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Ausência de resíduos de antibióticos, pesticidas e metais pesados;
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Rastreabilidade completa da cadeia produtiva, da fazenda ao porto;
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Certificações de Boas Práticas de Fabricação (BPF) e sistemas como APPCC e ISO 22000.
Por conta desses critérios, apenas uma pequena parcela das indústrias brasileiras está habilitada a exportar. Atualmente, os produtos mais enviados ao exterior são:
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Leite em pó integral e desnatado;
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Queijos maturados;
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Leite condensado, creme de leite e leite UHT;
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Soro de leite e derivados para uso industrial ou nutricional.
De acordo com dados do Serviço de Inspeção Federal (SIF) e da Rede Brasileira da Qualidade do Leite (RBQL), atualizados em fevereiro de 2024, a média geométrica nacional da CCS foi de 531 mil células/mL, enquanto a CPP ficou em 75 mil UFC/mL (figura 2). Esses valores ainda estão acima do ideal quando comparados a países exportadores de referência. Para efeito de comparação, a União Europeia, por exemplo, adota limites de CCS inferiores a 400 mil células/mL para aceitação do leite cru importado.
Figura 2. Média geométrica nacional de CCS (células/mL) e CPP (UFC/mL)
Fonte: Rede Brasileira da Qualidade do Leite (RBQL), 2024.
Essa informalidade não ocorre por negligência, mas sim como uma resposta a um conjunto de obstáculos enfrentados principalmente pelos pequenos produtores. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, a agricultura familiar é responsável por cerca de 64% da produção nacional de leite. Ainda assim, enfrenta dificuldades históricas de integração com a indústria, devido a exigências como volume mínimo de entrega, infraestrutura de resfriamento, controle de qualidade e ausência de contratos formais.
Diante disso, muitos acabam recorrendo a estratégias alternativas — como a venda direta ou a produção de queijos artesanais — operando fora do mercado formal para garantir renda e continuidade na atividade. Esse movimento alimenta o crescimento do mercado informal, o que compromete o avanço do Brasil como exportador e fragiliza a imagem sanitária e de qualidade do leite nacional. A falta de mecanismos eficientes de integração entre produtores e indústria ameaça a sustentabilidade da base produtiva e impede que o potencial da agricultura familiar seja transformado em diferencial competitivo.
Como lidar com essas dificuldades e, mais ainda, como transformar esse tipo de produção em vantagem competitiva? Se considerarmos os atributos associados ao leite proveniente de pequenas propriedades — tanto do ponto de vista produtivo quanto da percepção dos consumidores — a resposta aponta para a valorização de um produto diferenciado.
Boa parte dos consumidores que compram leite informal, mesmo sendo proibida sua comercialização, fazem isso por enxergar valor: consideram esse leite mais natural, mais saudável, com menos interferência química e proveniente de animais mantidos a pasto, com direito ao comportamento natural e vínculo com os bezerros até o desmame. Embora haja riscos sanitários no leite cru não inspecionado, é inegável que existe uma demanda real por esse tipo de produto.
Nesse contexto, a questão central não é mais apenas como o pequeno produtor pode se adequar às exigências da indústria, mas sim como a indústria pode — e deve — desenvolver modelos mais inclusivos, capazes de integrar esses produtores à sua cadeia de fornecimento, reconhecendo o valor e os diferenciais do leite que produzem.
A indústria ocupa uma posição estratégica para reverter os atuais gargalos da cadeia leiteira. Ao promover ações estruturadas de apoio técnico, incentivo à melhoria da qualidade, rastreabilidade e valorização por origem, contribui não só para a permanência dos pequenos produtores na atividade, mas também para a qualificação de toda a produção nacional.
Mais do que evitar a exclusão, trata-se de compreender que esses produtores são peças essenciais para a solidez, a diversidade e a resiliência do setor. Sua inclusão fortalece a base produtiva, confere identidade aos produtos e atende a uma demanda crescente por alimentos com atributos sociais, ambientais e regionais.
Com isso, além de garantir maior sustentabilidade à cadeia, a indústria colabora diretamente para a construção de uma nova imagem do leite brasileiro — mais confiável, padronizado e com valor agregado — capaz de abrir portas para mercados internacionais mais exigentes e competitivos.
