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Erros na formulação de dieta para vacas: não cadastrar a produção média real

POR RODRIGO DE ALMEIDA

E JORGE HENRIQUE CARNEIRO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/05/2021

9 MIN DE LEITURA

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Hoje discutiremos um quarto erro frequente na formulação de dietas de vacas leiteiras.

Nos artigos anteriores desta série, já destacamos que na formulação de dietas temos que descrever, com a maior exatidão possível, a vaca que representa a média dos animais do lote para o qual estamos formulando a dieta.

No artigo de hoje vamos mostrar a importância de cadastrar corretamente a produção média dos animais do lote.

Talvez nem todos concordem com esta afirmação, mas entre todas as variáveis que devem ser informadas pelo técnico nutricionista, a produção de leite é a variável mais importante, pois é a informação que mais afeta as exigências energéticas, proteicas e minerais das vacas em lactação.

No RLM Leite, a produção de leite média dos animais deve ser informada na janela “Produção/Consumo”, conforme a imagem abaixo.

Como a produção de leite média das vacas é uma informação essencial para a saúde financeira do negócio, quase todo produtor de leite tem uma ideia satisfatória da produção de leite das suas vacas quando questionado. Afinal, basta dividir o total de leite entregue no dia pelo número de vacas em lactação do rebanho.

Idealmente, também deveríamos levar em conta nesta divisão o leite não comercializável (leite de transição, mastítico, com resíduo de antibiótico, etc.) e o leite consumido na alimentação das bezerras.

Pois bem, mas será que a produção de leite média de todas as vacas em lactação do rebanho basta? Não, não basta! Deveríamos saber também quais são as médias de produção de leite de cada lote de vacas! E estas médias deveriam ser usadas pelo nutricionista ao formular as dietas do rebanho.

A produção de leite média do rebanho somente pode ser usada quando o rebanho adota “dieta única”, ou seja, todas as vacas do rebanho, independente da produção de leite, do estádio de lactação (ou DEL) e do número de partos, consomem todas a mesma dieta.

A propósito, quais são os prós e os contras de adotar dieta única num rebanho leiteiro? Na nossa modesta opinião, a dieta única apresenta poucas vantagens e muitas desvantagens, é uma prática contrária ou oposta ao conceito moderno de nutrição de precisão e sua adoção é (felizmente) decrescente!

Reconhecemos que a grande vantagem desta estratégia é a sua praticidade, principalmente em fazendas de menor escala, onde 1 ou no máximo 2 vagões são necessários para alimentar todo o rebanho. Com uma única dieta a bater todos os dias, você facilita a vida dos tratadores e diminui as chances que erros sejam cometidos na confecção da dieta e no seu fornecimento.

Por outro lado, há uma série de desvantagens na adoção de dieta única; entre as mais importantes destacamos:

  1.  Quando adotamos dieta única, temos que formular para as vacas de alta produção do rebanho, e não para a vaca média do rebanho. Fazemos isto para não subalimentar as vacas de alta, afinal são elas as vacas mais eficientes e lucrativas, mas também as mais exigentes do rebanho.
     
  2. Por formular a dieta única pensando nas vacas de alta, vamos sobrealimentar com energia, amido e proteína vacas de média e baixa produção, e com isto aumentaremos o custo alimentar do rebanho.
     
  3. Outra limitação é o uso de aditivos, pois alguns aditivos alimentares são mais viáveis nos lotes de recém-paridas e vacas de alta produção e talvez não sejam viáveis nos lotes menos produtivos.

    Este é o caso por exemplo de gorduras protegidas ou hidrogenadas, metionina protegida ou análoga, bicarbonato e tamponantes, etc. Ao adotar dieta única, ou incluímos o aditivo em questão para todas as vacas, ou para nenhuma.
     
  4. Ao formular a dieta única pensando nas vacas de início de lactação, tipicamente trabalhamos com níveis de amido moderados a altos, entre 25 e 30%MS. Estes níveis dietéticos de amido na primeira metade da lactação são bem-vindos, pois “puxam” leite e maximizam a produção de proteína do leite. Já para vacas de final de lactação, deveríamos trabalhar com níveis mais baixos de amido, entre 20 e 25%MS.

    Há trabalhos recentes (Boerman et al., 2015) que demonstram que amido alta para vacas de final de lactação contribui para que estas vacas cheguem gordas à secagem. E já há um consenso que vacas gordas à secagem é desastroso tanto para as vacas como para a propriedade.

    Além disso, estudos recentes têm recomendado teores de amido fermentado mais modestos para vacas recém-paridas, visando maximizar CMS (Albornoz et al., 2019) e teores de proteína da dieta mais elevados (18-19%MS) e de alta qualidade (Tebbe & Weiss, 2021), com respostas muito positivas principalmente nos animais de primeira lactação.

    Ou seja, em resumo, dieta única engorda vacas em fim de lactação, principalmente em rebanhos onde a eficiência reprodutiva não é a ideal, e não otimiza desempenho em vacas recém-paridas, com alto potencial genético e demanda nutricional!
     
  5. Finalmente um outro ponto negativo da dieta única é a sua adoção para primíparas, pois estes animais têm importantes exigências de crescimento, mas apresentam um consumo muito inferior às vacas.

    Além disso, as primíparas estão apresentando lactações cada vez mais produtivas, já que elas representam o máximo de progresso genético entre as vacas lactantes. Como suas exigências são grandes, mas seu consumo de MS é limitado, uma estratégia seria adensar a dieta das primíparas, mas logicamente isto não é possível quando um rebanho adota dieta única.

Voltando ao tema central deste artigo, ou seja, a importância de informar corretamente a produção de leite média do lote para o qual você está formulando a dieta, observamos que nos rebanhos leiteiros brasileiros médios e grandes, tipicamente temos um lote de recém-paridas, um lote de vacas de alta produção, um lote de primíparas (ou novilhas de 1º parto) e um lote de vacas de média/baixa produção.

Dependendo do tamanho do rebanho, há inúmeras combinações e variações possíveis.

Por exemplo, para um colega nutricionista que recém convenceu o produtor a deixar a dieta única, eu começaria com 2 lotes tão somente; um “lotão” com 80-85% das vacas em lactação e um lote de 15-20% das vacas, somente com os animais de fim de lactação. Com este primeiro passo, o produtor já perceberia a redução no custo alimentar, bem como, a menor proporção de vacas chegando gordas à secagem.

Num levantamento recente conduzido em 16 grandes rebanhos leiteiros paranaenses, o doutorando do PPGZ Deivid Ribeiro do nosso Grupo do Leite da UFPR, estimou que os lotes de alta abrigam em média 30% (variando de 8,5 a 58,4%) das vacas em lactação do rebanho e os lotes de baixa produção abrigam em média 22% (variando de 8,5 a 52,0%) das vacas lactantes.

Outra pergunta frequente é como rebanhos pequenos de 10, 20, 30 vacas podem “escapar” da dieta única, já que a formação de lotes em rebanhos pequenos é complicada e pouco prática. Na verdade, uma parte considerável destes pequenos rebanhos brasileiros já não trabalha com dieta única.

Embora os volumosos e alguns subprodutos sejam fornecidos em igual quantidade para todas as vacas, o fornecimento de ração ou concentrado por mérito produtivo, já é uma forma de melhor alimentar as vacas mais produtivas, eficientes e lucrativas.

Há várias regras e relações usadas nas diversas regiões brasileiras, muito dependentes da época do ano, da qualidade do volumoso e da pastagem, e da produtividade das vacas, mas ao tratar por exemplo 1 kg de ração para cada 3 kg de leite produzidos, estamos na verdade reconhecendo que a dieta única não funciona!

Outra dúvida recorrente na formulação de dietas é se devemos ou não formular dietas com produções de leite mais altas que a média real e atual das vacas? Estes fatores eram mais usados no passado, quando os programas de formulação adotavam modelos nutricionais estáticos, como por exemplo o Spartan 2.0.

Estes fatores eram conhecidos como “leading factors” ou fatores de ajustes que estimavam quantos litros de leite deveríamos estar a frente das vacas. Na medida que os modelos nutricionais se tornaram dinâmicos, estes fatores perderam espaço e importância. Hoje recomendamos que a produção de leite média atual das vacas do lote seja usada na formulação.

Em lotes pouco homogêneos, muitas vezes construídos por imposição física de infraestrutura, mesmo usando a produção média do lote, é importante termos em mente que teremos uma amplitude de consumo de MS no lote, porém sem grandes variações no peso corporal destes animais, apenas guiado pela maior produção.

Assim, alguns parâmetros que colegas possam usar para checar as dietas, como por exemplo o consumo de FDN de forragem/kg de peso corporal, devem ser observados com cautela, visto que teremos diferentes consumos dentro deste grupo, e por consequência de FDN de forragem.

Uma exceção a esta recomendação de que a produção de leite média atual das vacas do lote seja usada na formulação, é quando um nutricionista visita um rebanho muito esporadicamente, por exemplo, a cada 3-4 meses. Neste caso, certamente muitas coisas podem mudar no intervalo entre as suas visitas técnicas. E assim neste caso o nutricionista pode recomendar uma dieta com 2-3 kg de leite a mais do que a média atual, para de certa forma permitir o aumento de produção de leite das vacas.

Na nossa experiência, reconhecemos que a produção de leite tem uma variação sazonal; as maiores produções de leite são observadas no fim do inverno e na primavera (agosto a outubro) e as mais baixas produções são observadas no fim do verão e outono (fevereiro a abril).

Como o nutricionista pode usar este conhecimento, quando não consegue visitar um rebanho na frequência desejada?

Ao formular uma dieta no outono, o nutricionista deveria recomendar uma dieta com média de produção mais alta que a atual, pois a produção de leite deve subir e a dieta deve permitir este aumento.
Na primavera, a tendência é que a produção de leite não suba mais e até caia nos próximos meses, e neste caso não é hora de desafiar as vacas e tentar puxar leite numa época que isto simplesmente não vai acontecer.

Este assunto acaba provocando uma outra discussão: com qual frequência um nutricionista deve atender um rebanho leiteiro? Na nossa opinião, o mais frequente possível, mas não podemos esquecer que se as visitas forem muito frequentes, o número de rebanhos atendidos terá que ser menor.

Hoje alguns grandes rebanhos leiteiros do Paraná e de outras regiões especializadas do Brasil já estão demandando visitas semanais. Não necessariamente teremos dietas novas todas as semanas, mas ao visitar os rebanhos com muita frequência, o nutricionista pode ir fazendo pequenos ajustes, percebendo problemas logo no início, trabalhando com análises de alimentos e de leite mais frequentes, e talvez mais importante, ouvindo o produtor com mais frequência e compreendendo melhor suas expectativas.

Mas para rebanhos médios de 50-200 vacas em lactação, achamos que as visitas mensais já são satisfatórias, desde que o produtor e o técnico nutricionista mantenham um canal aberto de contato entre as visitas. Finalmente, há rebanhos onde visitas técnicas a cada 3-4 meses já é satisfatório, talvez para produtores mais conservadores que preferem poucas mudanças, e para rebanhos hoje não atendidos, afinal uma visita técnica a cada 4 meses é melhor do que nenhuma visita.

Prosa boa e que iria longe, mas vamos parar por aqui hoje. Na próxima semana discutiremos um quinto erro frequente nas formulações.

Mais uma vez, quero fazer um convite aos leitores do MilkPoint para que eles usem este espaço para compartilhar as suas maiores dificuldades e os erros que eles consideram mais frequentes na formulação de dietas de bovinos leiteiros.

Como já mencionamos, ao final destes 10 artigos, um para cada erro, escreveremos um 11º, que será um retrato das contribuições dos leitores, com os erros que eles consideram mais frequentes. Portanto, participem! Será um prazer receber suas contribuições.

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JOSUE TEOFILO RAMOS DE CARVALHO

SÃO VICENTE DE MINAS - MINAS GERAIS - ZOOTECNISTA

EM 01/06/2021

Boa noite,

Obrigado pela série de artigos simples e de grande valor. Neste texto atual é abordado sobre o agrupamento clássico que se encontra na média das fazendas. Gostaria de saber se o programa RLMLeite estima algum mérito que poderia ajudar no agrupamento dos lotes dentro da fazenda e por experiência dos autores, até que valor de variação vocês consideram de média de produção de leite de um determinado lote? Teria algum ajuste fino de escolha de determinada vaca para um lote? Sobre lote de CCS alta, até que ponto vocês consideram importante? Sem falar de vacas com áureos no rebanho. Obrigado!
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