Na maior parte das vezes, sempre que o custo do concentrado for até 80-85% do preço do leite, a suplementação compensa, desde que o manejo das vacas e do pasto seja muito bom. Além do ganho direto, se a suplementação for bem feita, também pode permitir aumento na taxa de lotação dos pastos, o que permite produzir maior volume de leite na mesma área. Se isso for feito com eficiência, certamente significa receita maior, com lucratividade mais alta.
Muito bem, mas como fazer para reduzir o custo do concentrado? O preço do milho, do farelo de soja e do farelo de algodão está pela hora da morte, etc, etc. O negócio é flexibilizar o uso dos alimentos, recorrendo aos inúmeros subprodutos que temos disponíveis em boa parte do Brasil.
Vamos fazer um exercício para ver como isso é possível, tomando como exemplo a polpa cítrica, o farelo de glúten de milho e o farelo de trigo. Fazendo uma simulação com auxílio do software do NRC (2001), foi formulado um concentrado padrão para atender as exigências de vacas leiteiras produzindo 22 kg de leite ao dia, mantidas em pastagens de boa qualidade (63% NDT e 14% PB).
Nesse concentrado, utilizou-se 3 kg de MS de milho moído. Em seguida, simulou-se a substituição de parte desse milho por um dos subprodutos citados. Os concentrados foram ajustados para manter a produção e a composição do leite. A tabela 1 mostra a composição dos concentrados utilizados.
Tab. 1 - Composição dos diferentes concentrados utilizados para suplementar vacas leiteiras produzindo 22 kg de leite ao dia (Kg MO/vaca/dia), com os respectivos custos.

Nessa condição, calculou-se o retorno menos o custo de alimentação proporcionado pela substituição do milho por cada um desses concentrados. Todos os concentrados que incluiram os subprodutos apresentaram custo mais baixo que o concentrado padrão, e mesmo a quantidade fornecida sendo um pouco maior que a do padrão, o uso desses concentrados proporcionou um retorno econômico mais favorável, conforme mostra a tabela 2.
Tab. 2 - Análise econômica da viabilidade do uso de subprodutos em substituição ao milho em concentrados para vacas leiteiras mantidas em pastagens.

Preços dos ingredientes (R$/ton MO):
pasto = 35.00;
milho = 320,00;
farelo de soja = 480,00;
farelo de algodão = R$ 430,00;
polpa cítrica = 210,00;
farelo de glúten de milho = 255,00;
farelo de trigo = 225,00;
suplemento mineral = 1.170,00
Os custos considerados para os alimentos foram as médias praticadas por diferentes fornecedores no estado de São Paulo. Todos os subprodutos analisados resultaram em melhor retorno sobre os custos dos alimentos. Optou-se por uma substituição parcial do milho em função de essa ser a alternativa que produz os resultados mais consistentes nos trabalhos de pesquisa, e porque optou-se por manter a produção de leite.
Não raro encontra-se casos em que se procedeu-se à substituição total do milho pelo subproduto e a produção de leite cai um pouco, mas mesmo assim o resultado financeiro é positivo. Também deve-se lembrar que esse nível de produção só pode ser atingido com essa quantidade de concentrados se o pasto for de ótima qualidade, o que se consegue com bom manejo.
Claro que os números acima são teóricos, mas estou seguro para confiar neles como indicador do que acontece quando utilizamos subprodutos nos concentrados, Minha experiência com isso tem sido extremamente positiva nos últimos anos.
Tomemos o exemplo do concentrado com polpa cítrica. Se considerarmos um rebanho com 100 vacas em lactação, a substituição de parte do milho pelo subproduto resulta numa economia de R$ 5.840,00 ao ano. Agora levem em conta também que para vacas de produção média mais baixa, a taxa de substituição do milho pelos subprodutos pode ser ainda mais agressiva, gerando mais receita adicional.
Em sistemas de produção de leite a pasto, o uso de concentrados muitas vezes é questionado, principalmente por aqueles que não acreditam no modelo de se criar animais especializados. Mas para quem trabalha com vacas de alto potencial, e consegue manejar bem o pasto, via de regra o uso dos concentrados vale a pena.
Obviamente, com o preço atual das commodities mais utilizadas na alimentação dos rebanhos leiteiros, obrigatoriamente temos que buscar alternativas para reduzir os custos de alimentação. Com o leite a R$ 0,48-0,50, um concentrado que custe R$0,38 certamente é competitivo, desde que gere uma resposta positiva.
O uso da suplementação com concentrados tem que ser avaliado com base no aumento da produção das vacas, da redução no custo de alimentação e na possibilidade de aumento na taxa de lotação dos pastos, o que possibilita maior produtividade de leite por unidade de área, abrindo espaço para ganhos de escala, o que cada vez mais mostra-se importante para que o produtor de leite mantenha a sua competitividade no setor.
Manejando bem os pastos, de forma que a forragem tem alto valor nutricional, e formulando concentrados de custo reduzido, com a utilização de subprodutos da agroindústria, dá perfeitamente para ser competitivo na produção de leite. Mas precisa de muito suor, organização e planejamento.
