Nos últimos anos, as avaliações genéticas da raça Holandesa, no Brasil, têm sido realizadas desde 2004. Os resultados das avaliações genéticas de touros são disponibilizados em um Sumário, no qual são apresentadas as informações sobre o mérito genético de cada um. O conjunto dos resultados indica o nível genético que está sendo alcançado pelo uso de sêmen desses touros nos rebanhos nacionais.
Havendo mais filhas ou progênies de touros melhores classificados, maior é o nível genético dos rebanhos. Esse nível genético pode ser observado na maior produção das filhas e, por conseguinte, na maior produtividade dos rebanhos. Portanto, os resultados apresentados no Sumário orientam os criadores/produtores sobre os touros que eles têm utilizado, possibilitando verificar se efetivamente estão promovendo melhoria genética em seus rebanhos, os quais, no seu conjunto, indicam a melhoria genética da raça Holandesa no Brasil.
A estrutura das bases de dados de desempenho produtivo, utilizadas nas avaliações genéticas de 2006, é apresentada na Tabela 1. Foram avaliados 770 touros para a produção de proteína, 1889 para a produção de leite e 1883 para a produção de gordura. Houve mais de cem mil primeiras lactações disponíveis para as produções de leite e de gordura e mais de 40 mil para a produção de proteína.
Tabela 1. Média ± desvio padrão, herdabilidade e número de animais das bases de dados de características produtivas da raça Holandesa utilizadas nas avaliações genéticas, em 2006. (Fonte: Embrapa Gado de Leite, 2006).

A estratégia de integração dos serviços de controle leiteiro aos laboratórios de qualidade do leite, mediante o envio de amostras de leite das vacas sob controle para análise, tem favorecido o crescimento contínuo de dados sobre o conteúdo de proteína e também da contagem de células somáticas (CCS). Planeja-se disponibilizar, em 2008, as avaliações genéticas para CCS, como indicador de resistência a mastite.
Neste particular, considerando-se as iniciativas de empresas de laticínios em adotar o pagamento por qualidade da matéria-prima e os custos associados à ocorrência de mastite nos rebanhos, informações sobre o mérito genético para os componentes qualitativos do leite são importantes para, associadamente ao manejo da alimentação, sanidade e ordenha, definir medidas para a melhoria da qualidade do leite produzido visando obter maior receita em sua comercialização.
No Sumário são apresentados os resultados dos top 100 touros para cada característica. Em 2006, procurou-se destacar também os touros mais novos usados no Brasil, nascidos após 1995, cujas progênies vem sendo submetidas ao controle leiteiro das associações estaduais de criadores da raça. Foram identificados 27 touros, cujos resultados constam na Tabela 2.
Entre os doze touros positivos para leite, destaca-se a importante presença de quatro de origem brasileira, o que confirma o potencial de animais oriundos dos rebanhos nacionais para a melhoria genética da raça no Brasil. Essa potencialidade é também indicada pelas estimativas de herdabilidade para as produções de leite, de gordura e de proteína, cujos valores (Tabela 1) são superiores a 0,20. Tais estimativas não são muito inferiores às observadas em diferentes populações da raça Holandesa, sob seleção, nos países da América do Norte, da Europa e da Oceania, exportadores de genética de bovinos de leite para o Brasil.
Duas observações importantes podem ser caracterizadas com os resultados da Tabela 2. A primeira é que há importação de sêmen de touros de alto e também de baixo valor genético. Portanto, touros com provas positivas nos países de origem não necessariamente são positivos ou melhoradores aqui no Brasil. Isto se explica pelo fenômeno da interação genótipo e ambiente.
Como há diferenças entre os ambientes de outros países para o Brasil, o desempenho esperado das progênies dos touros importados no Brasil pode ser diferente daquele observado em suas progênies nos seus países de origem. Assim, touros com provas positivas em outros países podem ter provas negativas no Brasil.
A segunda observação, muito interessante e não menos importante, é que entre os representantes da qualificada genética importada, situam-se touros representantes da genética brasileira. Portanto, destaca-se que os criatórios brasileiros estão produzindo material genético de alto valor, com desempenho competitivo de suas progênies nas condições dos sistemas de produção nacionais.
Obviamente, o material genético nacional tem origem do importado e de fato dele deve se valer. Neste particular é que se insere a necessidade de se estruturar um programa de seleção para, estrategicamente, utilizar os benefícios da importação e otimizar os ganhos genéticos para a raça Holandesa no Brasil. A ausência deste programa devidamente estruturado explica, em parte, porque os resultados de progresso no Brasil são inferiores em relação ao potencial existente.
Tabela 2 - Avaliações genéticas de 2006, para as produções de leite, gordura e proteína de touros da raça Holandesa nascidos após 1995, com progênies submetidas ao controle leiteiro em rebanhos supervisionados pelas associações estaduais de criadores da raça, filiadas à ABCBRH.
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aNome e registro genealógico do touro na ABCBRH; PTAi: valor genético (kg) para a característica i=Leite, Gordura ou Proteína; Class: Classificação geral, entre os touros avaliados, para a característica; Conf: confiabilidade; NF: numero de filhas; NR: numero de rebanhos; bAno: ano de nascimento; cOri: Origem do touro, registros da ABCBRH; CAN: Canadá, HUN: Hungria, HOL: Holanda, USA: Estados Unidos.
A existência da interação genótipo e ambiente é que determina a importância do Interbull, comitê sediado na Suécia, que conta com mais de 30 países participantes. O Interbull realiza as avaliações genéticas internacionais de touros, um serviço caro, mas que os países deles se beneficiam pela noção de sua importância num concorrido e valioso mercado internacional da genética de bovinos.
Inúmeras empresas, de diferentes países, comercializam sêmen no Brasil. O mercado internacional de sêmen, e o brasileiro em particular, é importantíssimo para as empresas que trabalham em genética bovina. Segundo relatórios da ASBIA, são comercializadas anualmente 1,2 milhões de doses de sêmen da raça Holandesa no País. Assumindo-se um valor médio de R$12,00 para a dose de sêmen, pode-se estimar que o montante deste negócio seja de R$14,4 milhões ou de U$6,0 milhões. As estatísticas ainda indicam que o sêmen importado representa 80% do mercado nacional, ou seja, U$ 4,8 milhões têm sido dispendidos anualmente com importação de sêmen da raça Holandesa pelo Brasil.
O Interbull e as avaliações genéticas internacionais
A consistente expansão do intercâmbio de germoplasma de bovinos de leite e a competitividade entre os programas de seleção resultou na necessidade de se avaliar precisamente os touros testados em diferentes países, com distintos objetivos de seleção, métodos e condições de ambiente para as características economicamente importantes. Esta necessidade, percebida desde a década de 1980, promoveu a criação do Interbull, com o objetivo de organizar a coleta e disseminação de informações sobre as metodologias de avaliação genética e programas de seleção de bovinos de leite praticados em diferentes países.
O International Bull Evaluation Service (INTERBULL) é uma organização sem fins lucrativos, responsável pela promoção, desenvolvimento e padronização das avaliações genéticas internacionais em bovinos. É um sub-comitê permanente do ICAR (International Committee for Animal Recording), que por sua vez está vinculado a Food and Agriculture Organization (FAO). O Interbull está instalado na cidade de Uppsala, Suécia.
A primeira avaliação genética internacional foi realizada em 1995 e contemplou apenas algumas características produtivas (leite, gordura e proteína). Em agosto de 1999 foram iniciadas as avaliações para as características de conformação. Posteriormente, em maio de 2001, foram disponibilizadas as avaliações genéticas para duas características funcionais: contagem de células somáticas (escore) e resistência à mastite.
Em 2004 foram iniciadas as avaliações genéticas para longevidade e, em 2005, para facilidade de parto. Atualmente são realizados estudos para se disponibilizar as avaliações para as características de fertilidade, velocidade de ordenha e temperamento em 2008/2009. Na Tabela 3 são apresentadas as características e raças avaliadas, com o respectivo número de países participantes nas avaliações genéticas de agosto de 2006. Nesta avaliação foram incluídos 92,8 mil touros da raça Holandesa de 26 diferentes populações (países).
Tabela 3. Número de populações (países) participantes das avaliações genéticas de agosto/06, por raça e tipo de característica.

(*) Dinamarca, Finlândia e Suécia participam com avaliação conjunta para as características de produção e conformação nas raças Ayrshire, Holandesa e Jersey.
As avaliações genéticas internacionais são realizadas três vezes ao ano (janeiro, abril e agosto) e medem o mérito genético entre países para características de interesse econômico. O atual sistema para as avaliações genéticas internacionais de touros das raças leiteiras é baseado na análise conjunta de resultados das avaliações genéticas nacionais, considerando os resultados de cada país como características distintas.
O Interbull recebe as avaliações genéticas de cada característica/raça dos países participantes e aplicando a metodologia MACE (Multiple Across Country Evaluation) desenvolvida pelo Prof. Larry Schaeffer, da Universidade de Guelph - Canadá, realiza o cálculo das avaliações genéticas internacionais. O MACE tem duas características importantes:
a) usa todos os relacionamentos de parentesco entre animais dentro e entre populações;
b) considera a possibilidade de interação genótipo e ambiente, ao utilizar as correlações genéticas entre paises (rg ≤ 1.0), o que possibilita aos touros ter desempenho melhor (ou pior) em determinados ambientes (países) do que em outros.
A metodologia MACE permite a comparação direta de touros internacionais e touros nacionais em uma escala comum, pertinente a cada país. Os resultados são apresentados para cada país separadamente, com os méritos genéticos dos touros expressos em suas próprias unidades/escalas e relativos a própria base genética. Portanto, não existe uma única lista internacional de touros. As avaliações genéticas são específicas para cada característica/raça de cada país participante, o que significa que as avaliações de um país não servem para outro.
Na Tabela 4 são apresentadas estimativas de correlação genética para a produção de leite na raça Holandesa entre alguns países participantes do Interbull. Observa-se que as correlações genéticas entre as produções nos Estados Unidos da América (EUA) e Canadá e os países da Europa são altas (~ 0.9), mas menores (0,75 - 0,78) entre estes países e Austrália e Nova Zelândia, que por sua vez apresentam correlação genética entre si igual 0,86.
Em síntese, a correlação é maior entre países onde as características são definidas de modo semelhante e os sistemas de produção não diferem muito (0.95 entre Estados Unidos e Canadá). Na situação da Nova Zelândia, onde a pecuária leiteira se baseia no uso de pastagens de forma extensiva, a correlação genética com países caracterizados por sistemas de produção mais intensivos é menor.
Tabela 4. Estimativas de correlação genética para a produção de leite entre países.

*AUS=Austrália, GER=Alemanha, FRA=França, NLD=Holanda, NZL=Nova Zelândia, EUA=Estados Unidos, CAN=Canadá. Fonte: Interbull (2005).
A magnitude da correlação genética tem impacto considerável na classificação de touros internacionais nas condições nacionais. Embora as correlações genéticas para as características produtivas sejam altas entre países, elas são suficientemente baixas para alterar significativamente as classificações de touros nas avaliações internacionais entre países. Devido à correlação genética ser menor que 1,0, as avaliações genéticas de cada característica, em cada raça, são calculadas para cada país participante, nas quais as classificações de touros podem variar entre si (Figura 1).
Figura 1 - Ilustração de classificação de touros de países A e B na avaliação internacional calculada para os respectivos países utilizando-se rg < 1,0 no método MACE pelo Interbull.

Fonte: Adaptado de Philipsson (1998).
As avaliações genéticas do Interbull têm grande valor para a indústria leiteira mundial, permitindo os produtores de leite selecionar os touros mais adequados para as suas necessidades a partir de uma população mundial. Um produtor de um país participante do Interbull pode obter as provas dos melhores touros utilizados internacionalmente com base no desempenho de sua própria progênie nas condições dos sistemas de produção de seu país.
Além das características dos sistemas de produção, os fatores climáticos, as limitações econômicas e as demandas de mercado particulares a cada país (ou região) também contribuem para estabelecer diferenças no ambiente e nos objetivos de seleção. A existência de interação genótipo e ambiente, expressa pela rg < 1.0, significa que cada país deve estruturar seus programas de avaliação e selecionar para a eficiência da produção nas próprias condições, orientando-se em seus objetivos nacionais.
Assim, como o Brasil não participa do Interbull, não existe lista ou avaliação internacional de touros que seja válida para o País. Este é um desafio que os criadores/produtores de leite devem superar, ao insistir na realização das provas de touros no Brasil e buscar o compromisso e cooperação das Centrais de Inseminação em um programa de seleção em conformidade com os interesses e condições de produção nacionais.
Em agosto passado, foi realizada uma reunião em São Paulo, com participação de representantes da SPA-SP/Mapa, da ABCBRH, da Embrapa Gado de Leite e do Interbull, quando foram avaliadas as possibilidades de futura integração do Brasil ao Interbull. Essa é uma decisão estratégica no sentido de estabelecer competitividade aos programas de seleção ao agregar informações internacionais aos procedimentos de avaliação nacionais e otimizar as decisões dos criadores/produtores nos investimentos em sêmen para a melhoria genética de seus rebanhos.
Em adição aos ganhos em produtividade e eficiência dos sistemas de produção, a decisão em promover a melhoria genética da raça Holandesa no Brasil pode significar a inserção futura do material genético nacional em mercados/países de regiões (sub)tropicais. A quem caberia esta decisão ?
Glossário:
Correlação genética - É o parâmetro que descreve a relação genética entre duas características. Varia entre ± 1.0. Se positiva e alta, indica que a seleção para a melhoria em uma característica muito provavelmente promoverá a melhoria na outra.
Heritabilidade - É o parâmetro que descreve a proporção da variância total para uma característica que é devida às diferenças genéticas entre os indivíduos da população (raça). Quanto maior o seu valor, maior o potencial de progresso genético por seleção.
Interação genótipo e ambiente - É manifestada quando as diferenças de desempenho (de classificação) entre diferentes genótipos (animais) são alteradas quando são comparados em um ou mais ambientes (países).
PTA (Capacidade prevista de transmissão) - É a medida do valor genético do (animal) touro, obtido por meio do desempenho de suas filhas e de seus parentes nos diferentes rebanhos, expresso como diferença (superioridade ou inferioridade) da base genética da raça. Exemplificando: um touro com PTA igual a 100 kg significa que a sua progênie, em média, tem um potencial esperado de produção de 100 kg de leite superior à média da raça.