O susto que o país sofreu com os surtos da febre aftosa ocasionou um processo de reflexão e conscientização quanto à importância da defesa sanitária. Após a crise, vale a pena destacar que a grande discussão sobre sanidade nas várias esferas, desde entidades de classe, meios de comunicação e até entre os próprios produtores contribuiu para dar foco à saúde animal, que na maioria das vezes, não é destacada na rotina da produção.
O surto de aftosa mostrou a vulnerabilidade de nossos rebanhos, inclusive os rebanhos leiteiros. Expôs a lentidão dos processos governamentais, a falta de apoio e rápido "feed-back" do governo aos produtores que não sabiam que direção tomar. Talvez, este susto seja um remédio amargo para que a cadeia produtiva fique mais preparada e possa dar a atenção merecida para os programas de vacinação. Já que todos aprenderam que o vírus está aí, e merece constante vigilância.
A febre aftosa possui grande impacto econômico devido aos prejuízos decorrentes do embargo que os países importadores realizaram sobre a carne brasileira: cerca de cinqüenta e três países anunciaram embargos totais ou parciais às exportações. Muitos países declararam temer os riscos de contaminação das carcaças, que poderiam provocar a disseminação do vírus. Isto se deve ao fato do vírus ser muito resistente às condições ambientais e poder sobreviver, por muito tempo, fora do organismo animal. Outros países agiram de forma arbitrária, como a Indonésia, que além da carne, chegou a proibir importações de farelo de soja, matérias-primas, equipamentos e medicamentos oriundos do Brasil. Atitudes como as da Indonésia mostram, de forma clara, que o prejuízo irá muito além dos embargos, do abate de animais para erradicação de focos e da queda do valor da arroba; o maior prejuízo advindo da aftosa é a depreciação da imagem do país. Fato evidenciado na OIE, uma organização que visa centralizar as informações sobre o "status" dos exportadores e importadores, para auxiliar o intercâmbio entre esses países.
É a OIE "Organização Mundial de Sanidade Animal" que reconhece oficialmente a situação zoosanitária internacional e fixa a segurança sanitária do comércio mundial de animais e produtos de origem animal. Sendo a Febre Aftosa a doença mais contagiosa dos mamíferos, com grande potencial de ocasionar perdas econômicas às atividades associadas com os bovinos, ela foi classificada como a doença que ocupa o primeiro lugar na "Lista A da OIE" e devido à sua relevância foi estabelecida uma lista oficial de países e zonas livres de Febre Aftosa. A lista (que está no site da OIE) é atualizada em maio de cada ano, mas já há um quadro em destaque na cor vermelha informando a Suspensão na área livre de Aftosa que ainda pratica a vacinação dos seguintes estados do Brasil: Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe e Distrito Federal. A suspensão foi iniciada em setembro/outubro de 2005. A nova atualização será em maio de 2006 e espera-se que sejam feitas alterações das informações acima.
As ações do Brasil para lutar contra a aftosa devem ser concentradas em dois pontos: cobertura vacinal elevada e controle adequado tanto sanitário como de trânsito de animais (especialmente nas regiões de fronteira). Para que uma vacinação seja eficaz são importantes três pontos: qualidade da vacina, conservação do produto e qualidade da vacinação. O Brasil detém uma moderna tecnologia de fabricação da vacina contra febre aftosa e a produção de vacinas em 2005 superou os 400 milhões de doses. Mas, mesmo a qualidade da vacina tendo controle rígido feito pelos órgãos oficiais, restam variáveis técnicas pouco monitoradas como a manipulação, transporte e conservação pelo consumidor, dose, local e forma de aplicação. Estas variáveis podem interferir na resposta imune e foram avaliadas por pesquisadores da Unesp - Jaboticabal. A pesquisa avaliou três grupos de animais, o primeiro constituído de bovinos vacinados com vacinas manejadas com todos os cuidados técnicos em relação às boas condições de conservação (temperatura de 2 ?C à 6 ?C), não exposição à temperatura ambiente, dose com volume de 5 ml, higiene local da pele, e aplicação na tábua do pescoço por via subcutânea. O segundo grupo, a vacina foi manejada sem acompanhamento técnico e por indivíduos não especializados no ofício (como ocorre no dia-a-dia das propriedades) e o terceiro grupo não foi vacinado (sendo utilizado um placebo). Os resultados apontaram que os títulos foram maiores nos animais vacinados por especialistas e com os cuidados necessários (2,37 e 2,19). O segundo grupo apresentou títulos de 1,66 e 1,51 depois de 30 e 180 dias após a vacinação. E o terceiro grupo apresentou títulos médios de 0,82 e 0,81 após 30 e 180 dias da vacinação com o placebo. A literatura considera rebanhos com títulos médios de 1,52 como tendo 50% dos animais protegidos, e com títulos de 1,70 como tendo mais de 70% de proteção, no período de até 7 meses. Concluindo, a vacinação realizada a campo com poucos cuidados com a conservação e com a aplicação, confere uma proteção de apenas 50% do rebanho. Os resultados destacam a grande importância dos cuidados no manuseio, conservação e aplicação da vacina de aftosa. Mais motivos de reflexão: Estamos vacinando todos os animais do rebanho? Estamos vacinando corretamente?
Fonte:
Organização Mundial de Sanidade Animal: (www.oie.int) (05/01/2006)
Sâmara, S.I.; BUZINARO, M.G.; CARVALHO, A.A.B. Implicações técnicas da vacinação na resposta imune contra o vírus da febre aftosa. Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci., v.41, n.6, p.375-378, 2004.
Franco, M. Aftosa - uma bomba de múltiplo impacto. DBO, ano 24, n 301, p.66-74, 2005.
Aprendendo com a crise da aftosa?
O susto que o país sofreu com os surtos da febre aftosa ocasionou um processo de reflexão e conscientização quanto à importância da defesa sanitária.
Publicado por: Renata de Oliveira Souza Dias
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Renata de Oliveira Souza Dias
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WERNER OKANO
LONDRINA - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO
EM 12/02/2006
A colocação da Dra. Renata Vieira Souza Dias da FMVZ-USP é oportuna. Porém, nós do Paraná estamos sofrendo uma briga de poderes econômicos e não mais técnicos quanto à presença ou não do vírus da febre aftosa no Paraná. Mais precisamente em São Sebastião da Amoreira. Fora outros quatro municípios que estão com exames "enrolados" (Amaporã, Grandes Rios, Loanda e Maringá).
Todos sabem que não existe o vírus no Paraná. Todos os pecuaristas, médicos veterinários, autoridades constituídas, setores da carne bovina, suína, de aves, o setor leiteiro, os consumidores, enfim o Brasil.
Mas o que acontece então? A maioria dos pecuaristas quer que o proprietário da Fazenda Cachoeira em São Sebastião da Amoreira abata seus animais para que o embargo acabe em seis meses. E é isto que a indústria da carne o quer também por questões financeiras.
A Folha de Londrina, do dia 12 de feveriero de 2006, em sua primeira página traz: "Preço do boi cai, mas a carne fica mais cara com a aftosa". Ora, se o preço da arroba caiu para o pecuarista, mas o preço não cai para o consumidor, quem está ganhando? É hora dos pecuaristas se unirem. É hora de saírem das mãos dos atravessadores, dos grandes frigoríficos.
Mas, também, é hora de todos os médicos veterinários, principalmente os das faculdades de medicina veterinária, se pronunciarem. Por que o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) não conduz um simpósio, uma discussão acerca do assunto? Cadê os conselhos regionais?
Hoje é a febre aftosa, amanhã será a peste suína clássica ou africana, depois a doença de new castle e assim por diante.
Se realmente o trabalho citado da Dra.Renata condiz com a lógica, onde a imunização não assistida tecnicamente levará a uma imunização inadequada. Por que os animais da Fazenda Cachoeira que estão sem imunização já há 9 meses, não demonstraram nenhuma sintomatologia clínica da febre aftosa estando em contato com os animais "POSITIVOS"?
Acredito que depois deste fato que ora ocorre no Paraná, as faculdades de medicina veterinária, os Conselhos de classe, o Ministério da Agricultura, as Secretarias de Agriculturas e principalmente a OIE terão que rever os conceitos aprendidos em sala de aulas e escritórios com ar condicionado e mudar a legislação pertinentes a febre aftosa.
Werner Okano
CRMV2375PR
Todos sabem que não existe o vírus no Paraná. Todos os pecuaristas, médicos veterinários, autoridades constituídas, setores da carne bovina, suína, de aves, o setor leiteiro, os consumidores, enfim o Brasil.
Mas o que acontece então? A maioria dos pecuaristas quer que o proprietário da Fazenda Cachoeira em São Sebastião da Amoreira abata seus animais para que o embargo acabe em seis meses. E é isto que a indústria da carne o quer também por questões financeiras.
A Folha de Londrina, do dia 12 de feveriero de 2006, em sua primeira página traz: "Preço do boi cai, mas a carne fica mais cara com a aftosa". Ora, se o preço da arroba caiu para o pecuarista, mas o preço não cai para o consumidor, quem está ganhando? É hora dos pecuaristas se unirem. É hora de saírem das mãos dos atravessadores, dos grandes frigoríficos.
Mas, também, é hora de todos os médicos veterinários, principalmente os das faculdades de medicina veterinária, se pronunciarem. Por que o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) não conduz um simpósio, uma discussão acerca do assunto? Cadê os conselhos regionais?
Hoje é a febre aftosa, amanhã será a peste suína clássica ou africana, depois a doença de new castle e assim por diante.
Se realmente o trabalho citado da Dra.Renata condiz com a lógica, onde a imunização não assistida tecnicamente levará a uma imunização inadequada. Por que os animais da Fazenda Cachoeira que estão sem imunização já há 9 meses, não demonstraram nenhuma sintomatologia clínica da febre aftosa estando em contato com os animais "POSITIVOS"?
Acredito que depois deste fato que ora ocorre no Paraná, as faculdades de medicina veterinária, os Conselhos de classe, o Ministério da Agricultura, as Secretarias de Agriculturas e principalmente a OIE terão que rever os conceitos aprendidos em sala de aulas e escritórios com ar condicionado e mudar a legislação pertinentes a febre aftosa.
Werner Okano
CRMV2375PR