Ações técnicas não implicam em despesas

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Paulo José Araripe Costa

Pouco tempo atrás um produtor rural teceu o seguinte comentário durante uma palestra sobre intensificação da pecuária leiteira: "É, tudo isso é muito bonito mas também é muito caro, e é impossível para nós chegarmos até esse ponto". Abri a discussão ao grupo e verifiquei que a maior parte dos pequenos e médios produtores presentes sentiam-se da mesma forma.

Não há dúvida que com dinheiro, a maioria das vezes, as coisas ficam mais simples e rápidas. Assim sendo é comum sentirmo-nos incapacitados de transformar a situação financeira da propriedade, exceto com grandes aportes de dinheiro para patrocinar a mudança.

Contudo, de nada adianta um grande capital se sua aplicação não for cuidadosamente planejada, caso contrário pode-se ao invés de beneficiar o sistema torná-lo ainda mais dispendioso. Isso acontece muito em nosso meio, onde muitas pessoas só dão valor para o que é caro. Quantos são os produtores que não atentam para mudanças simples como o ponto de colheita de uma planta forrageira, ou a época ideal para realizar uma inseminação numa novilha, e que em contrapartida gastam muito em instalações suntuosas e máquinas desnecessárias e de alto custo de manutenção.

Cuidado, a idéia de que tecnologia implica em grandes financiamentos é completamente equivocada. Na verdade tecnologia é conhecimento, e não investimento financeiro. Trata-se da adoção de técnicas comprovadas pela pesquisa para redimensionar toda uma atividade elevando sua eficiência produtiva e conseqüentemente seu desempenho econômico.

Um exemplo claro da falta de adequação do sistema de produção é aquele onde o produtor investe em adubações e calagens, na subdivisão das pastagens, em capins de alta produção de massa verde, mas peca ao promover a colheita da planta em época inadequada geralmente com o capim passado e com valor nutritivo baixo. Isso leva a grandes prejuízos não só pela grande quantidade de forragem perdida (rejeitada no campo) como também pela menor produção dos animais. Para fugir a este erro de manejo o produtor apela para o uso de quantidades elevadas de alimentos concentrados, encarecendo sobremaneira o sistema e muitas vezes inviabilizando a atividade. Nessa situação, apenas com a adoção do pastejo do capim num momento mais oportuno, reduzir-se-ia a necessidade de altas doses de concentrados melhorando o resultado econômico da atividade ou liberando recursos para investimentos em outros setores.

É possível investir na adequação da propriedade para melhorar a eficiência sem com isso comprometer o orçamento pré-estabelecido. O ponto chave desse processo é o planejamento do sistema de produção como um todo, seguido do planejamento específico dos gastos. Sem esse estudo prévio é impossível ao produtor comprar, produzir, investir, administrar e até mesmo vender com eficiência.

A falta de uma visão global e de planejamento na atividade impõe a condição de urgência para realização de tudo. Neste cenário, não há tempo para realizar cotações e negociações buscando melhores vantagens econômicas. Também não é possível aproveitar a sazonalidade de preços dos insumos, que em alguns casos apresenta variações de mais de 300%. Com um bom plano de ação pode-se procurar os melhores produtos e preços em cada época do ano, e até mesmo promover a compra nas épocas de menor preço para estocagem e uso posterior.

Nesse contexto é preciso que o produtor tenha claro em sua mente que o primeiro passo é reavaliar e redimensionar toda sua atividade, somente com uma visão clara do sistema como um todo ele terá condições de identificar as falhas em seu processo de produção e contorná-las. Havendo dificuldade em fazê-lo, é importante pedir auxílio a técnicos especializados, não desprezando nunca o apoio dos próprios colegas de atividade, que com uma visão diferente também podem ajudar nesse sentido.

Por onde começar? Em princípio reveja muitos dos conceitos já apresentados nessa coluna em artigos anteriores, que mostram práticas que não apenas melhoram o desempenho produtivo da atividade, mas também seu desempenho econômico, sem no entanto incorrer em despesas elevadas com sua aplicabilidade.

Aqui vão algumas sugestões que obviamente não tem o objetivo de cobrir todos os setores da atividade, apenas ilustrar alguns pontos a serem observados:

* Faça um levantamento completo de tudo que existe em sua propriedade: animais, máquinas, instalações, recursos naturais (rios, matas, etc.), áreas de pastagem, capineiras e lavouras, etc.;

* Promova a adequação entre a planta forrageira usada na alimentação dos animais e as condições de solo, clima e manejo locais. Lembre-se, de nada adianta produzir muito se o material não é colhido;

* Não gaste em sementes caras e plantas de alto potencial de produção se seus solos não serão recuperados e adubados;

* Suas produções de forragem por hectare são satisfatórias?

* Observe se seus pastos e capineiras são cortados no ponto adequado, ou se está ficando uma grande quantidade de material morto (folhas secas) no campo;

* Se fizer feno ou silagens, vá ao campo e verifique o momento exato da colheita de suas lavouras, e durante essa atente para ocorrência de perdas pela operação inadequada da máquina;

* Percorra os depósitos e silos verificando se eles oferecem a proteção e conservação adequada àquilo que armazenam;

* Identifique todos os animais do plantel, anote seus desempenhos reprodutivos, produtivos e sanitários, se você não usa computador anote em fichas ou cadernos, mas tenha esses dados em mãos. Classifique seus animais por esses critérios e elabore um plano de descarte daqueles pouco produtivos;

* Divida o plantel em lotes por produção (adultos) e por faixa de tamanho (jovens) melhorando assim o desempenho individual do grupo;

* Reavalie toda a alimentação fornecida aos animais, verificando se está de acordo com o potencial e exigências de cada animal;

* O alimento concentrado usado ou produzido na propriedade leva em conta o custo de seus insumos? Está adequado ao potencial genético dos animais?

* Verifique em sua propriedade se a compra de insumos (medicamentos, fertilizantes, alimentos concentrados, etc.) são realizados na época mais favorável. Faça um cronograma de compras. Promova cotações e nunca deixe de negociar preços;

* Verifique cautelosamente sinais de desperdício e mau uso de insumos, equipamentos e instalações, corrigindo o problema o quanto antes;

* Passe a fazer o controle dos serviços da propriedade visando sempre maximizar o aproveitamento da mão-de-obra;

* E acima de tudo, não tema em promover uma mudança radical de postura frente ao direcionamento dos investimentos, e na maneira de conduzir a atividade. Lembre-se que mudanças devem partir dos líderes (proprietários e administradores) estendendo essa transformação a todos os demais membros da equipe.

Através dessas alterações pode ser "gerado" o dinheiro necessário para investimentos, pela melhor distribuição do capital disponível. Somente com o ajuste do modelo de exploração pecuária se conseguirá equilibrar as contas e tornar a pecuária leiteira uma atividade lucrativa.

Tenha sempre em mente que de nada adiantam grandes investimentos se eles são desordenados ou desnecessários, pode até ser que o efeito visual cause grande impacto, mas esse não é o objetivo central da atividade, e sim que os investimentos revertam-se em lucro para o produtor, pela melhoria da eficiência no processo de produção. Estamos querendo dizer que o grande segredo não é o "quanto" se investe e sim o "como" se investe o capital disponível.

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1Colaborou

Alexandre de Campos Gonçalves - Mestrando Depto. Produção Animal ESALQ/USP.
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