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A importância de determinar rotineiramente a matéria seca dos alimentos na fazenda

POR RODRIGO DE ALMEIDA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/02/2006

10 MIN DE LEITURA

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Na prática, existem quatro dietas para cada lote de vacas em uma propriedade. Existe uma primeira que foi formulada pelo nutricionista, uma segunda que foi colocada no misturador, uma terceira que foi oferecida aos animais e uma última que corresponde à dieta que de fato os animais comeram. Muitos técnicos e produtores assumem que estas quatro dietas não variam entre si e são sempre idênticas. Infelizmente, isto não corresponde à realidade.

Todos nós presenciamos situações em que um grupo de vacas tem sua produção de leite alterada em vários litros por dia, sem que a dieta formulada tenha sido mudada (a propósito, nós reparamos mais freqüentemente as quedas do que os incrementos na produção...). Pior, vacas sofrem acidose, param de comer ou tem uma queda expressiva no teor de gordura do leite, sem que a formulação da dieta tenha sido alterada.

Muito provavelmente, estas quedas no desempenho e na sanidade ocorrem devido a mudanças na dieta que de fato está sendo oferecida às vacas. Entre as várias razões que podem levar a isso, uma das mais freqüentes (e mais ignoradas) é a simples alteração do teor de matéria seca (MS) dos alimentos.

Importância

Nós formulamos dietas na base de MS porque vacas exigem quantidades específicas de nutrientes secos todos os dias para atender suas exigências de manutenção, crescimento, gestação e produção de leite. Entretanto, mesmo alimentos aparentemente secos não são absolutamente secos.

Além disso, alimentos úmidos e/ou fermentados (pastagens, silagens e alguns resíduos) podem conter uma grande proporção de água que dilui os nutrientes secos no alimento. Por exemplo, quando recomendamos 12 kg/vaca/dia de resíduo de cevada (ou cervejaria), com teor de MS de 20%, nós estamos na realidade ofertando somente 2,4 kg de nutrientes secos, já que os restantes 9,6 kg são representados por água.

Embora as exigências e as formulações sejam estimadas na base de MS, as recomendações de dietas para empregados e produtores devem ser dadas na base de matéria original, com a água incluída. Tudo isto é muito simples, exceto que o teor de MS dos alimentos não permanece constante de um dia para outro.

Aqui tomo a liberdade de lançar algumas perguntas: Qual foi a última vez que você analisou o teor de MS dos alimentos (pelo menos daqueles com maior teor de umidade) da sua propriedade (ou da propriedade que você dá assistência)?

Quantos de nós enviaram uma amostra ao laboratório de um lugar do silo e usaram o teor de MS analisada por semanas ou meses, mesmo sabendo que nós estávamos fornecendo silagem de um local completamente diferente?

Mas será que há algum problema que a dieta repassada para o empregado ou para o produtor não seja ajustada por mudanças na matéria seca? Sim, pode haver problemas, particularmente se o rebanho for de alta produção ou se a dieta formulada estiver próxima dos limites mínimos de fibra.

Tipicamente, mudanças em MS dentro do silo são muito freqüentes porque os processos de enchimento e esvaziamento do silo misturam silagens de diferentes áreas, cortes e estágios vegetativos. Devido a isso, observamos mudanças graduais na produtividade e sanidade do rebanho que geram aqueles telefonemas que a maioria dos nutricionistas detestam receber: "Minhas vacas caíram no leite nos últimos 5 dias, alguma coisa deve estar errada com a dieta".

Além de ser difícil recolocar as vacas no patamar anterior de produção após um problema nutricional como este, também é frustrante descobrir que a formulação da dieta não era o problema e sim algo simples como o teor de matéria seca de um ou mais ingredientes da dieta.

Problemas causados por mudanças graduais na MS poderiam ser facilmente evitados pela determinação rotineira do teor de MS dos alimentos volumosos, uma ou duas vezes por semana, e pelo ajuste da dieta que vai para o misturador.

Embora as mudanças no teor de MS das forragens sejam graduais, dias chuvosos podem resultar em mudanças abruptas no teor de MS das forragens (de 5 a 15%MS), particularmente em silos horizontais e quando há silagem solta no piso do silo.

Estas mudanças no teor de MS podem causar ocorrências agudas de acidose quando dietas de alta energia, que estão próximas ao limite mínimo de fibra, estão sendo fornecidas, já que neste caso uma menor quantidade de MS oriunda de forragem está sendo de fato ofertada.

Devemos lembrar que vacas leiteiras até toleram bem dietas de alta energia que provocam quedas moderadas no pH ruminal, desde que o consumo e as concentrações mínimas de fibra sejam consistentes. Entretanto, qualquer evento que derrube abruptamente o consumo, quando dietas de baixa fibra estão sendo ofertadas, resulta em distúrbios do rúmen que estressarão as vacas e comprometerão suas produções. O ajuste para estas mudanças agudas no teor de MS da silagem exige um método rápido que determine o %MS dos alimentos (pelo menos dos mais aquosos), imediatamente antes do trato.

Como mensurar

Após a discussão acima, parece evidente que nós deveríamos mensurar rotineiramente a MS dos alimentos e usar esta informação para garantir que nossas vacas recebam as mesmas quantidades e proporções de nutrientes nas suas dietas todos os dias.

Parece fácil; basta secar os ingredientes em uma estufa, determinar o teor de MS de cada alimento e reformular a dieta para ajustar pelos novos valores de MS. Entretanto, mensurar umidade não é tão simples quanto parece...

Parte da água dos alimentos está na superfície das partículas e evapora-se facilmente. Outra parte da água dos alimentos está no interior das partículas e deve migrar para a superfície para poder ser evaporada. E finalmente uma terceira porção da umidade dos alimentos está fortemente ligada às moléculas deste alimento e não é evaporada facilmente.

Por isso, leva tempo para que toda a umidade migre para a superfície e evapore dos alimentos. Nós podemos acelerar o processo aumentando a temperatura e o fluxo de ar quente da estufa, mas isto aumenta o risco de que outros componentes dos alimentos (não aquosos) sejam perdidos, por causa das temperaturas demasiadamente elevadas.

Mensurar MS usando uma estufa é complicado porque outros processos estão ocorrendo, além da evaporação da água. Em alimentos fermentados, tais como silagens ou resíduos de cervejaria, existem quantidades significativas de ácidos graxos de cadeia curta que são voláteis.

Tanto isto é verdade, que nós normalmente descrevemos os ácidos acético, propiônico e butírico como ácidos graxos voláteis (AGV). Além destes, existem outros componentes dos alimentos tais como álcoois e produtos de degradação protéica que são voláteis.

Quando nós queimamos ou escurecemos uma amostra durante a secagem, nós provavelmente perdemos material não aquoso e nossos resultados perdem confiabilidade.

Entre os vários métodos disponíveis para determinar a MS dos alimentos, cada um tem suas limitações. O método de análise de maior acurácia é o método de Karl Fischer. Este método baseia-se numa reação química entre a água e um reagente indicador para mensurar a umidade da amostra. Embora seja o método de maior acurácia, este método é caro, trabalhoso, exige equipamento especializado e pessoal técnico muito bem treinado.

Por essas razões, não é usado rotineiramente para mensurar a MS dos alimentos, nem mesmo em laboratórios especializados. Em condições práticas, há quatro métodos possíveis para determinar o teor de MS: estufas, microondas, Koster e desidratadores.

A determinação de MS pela secagem da amostra em uma estufa de ventilação de ar forçado é um processo simples e rotineiramente adotado pelos laboratórios que executam análises bromatológicas. Este método também gera uma amostra que pode ser moída e usada para as outras análises laboratoriais (proteína bruta, extrato etéreo, fibra em detergente neutro, etc.).

Entretanto, cada combinação de tempo e temperatura na estufa irá gerar uma diferente estimativa de MS e algumas combinações podem trazer prejuízos à amostra. É por isso que os laboratórios estabelecem (ou deveriam estabelecer) um método padrão de determinação de MS, a fim de obter resultados com boa repetibilidade.

Se por um lado, a secagem em baixas temperaturas é um processo lento, em altas temperaturas pode haver perda de material que não é umidade. Já que tanto a água como outros compostos voláteis podem evaporar durante a secagem, a temperatura ótima a ser usada é um valor intermediário.

Secagem a 55oC volatiliza alguns componentes não aquosos do alimento, mas também deixa alguma água residual na amostra. Estes dois erros parecem ser compensados um pelo outro. Portanto, a secagem da amostra em estufa com ventilação de ar forçado a 55oC por 24 horas proporciona valores adequados de referência, inclusive para efeito de comparação com outros métodos de determinação do %MS.

Em resumo, o método da estufa é acurado, pode analisar várias amostras ao mesmo tempo, não trabalha com altas temperaturas (o que minimiza as perdas de materiais não aquosos) e não demanda um pessoal qualificado. Por outro lado, 24 horas são necessárias para se obter o resultado final.

Dois outros métodos para determinação da MS ganharam popularidade nos últimos anos: microondas e Koster. A maior vantagem de ambos os métodos é que eles são extremamente rápidos, já que demandam tão somente de 10 a 30 minutos. Mas esta maior rapidez traz desvantagens, já que as amostras são submetidas a temperaturas mais elevadas.

Por isso, ambos são menos acurados (porque há um grande risco de perder materiais não aquosos voláteis), somente uma amostra pode ser analisada de cada vez e exige um funcionário ou técnico mais qualificado e principalmente com paciência para pesar e re-pesar as amostras repetidamente, até que o peso da amostra se estabilize.

Uma das limitações mencionadas dos equipamentos acima (Koster e microondas), é o fato que somente uma amostra pode ser analisada de cada vez. Esta desvantagem parece não ser importante, mas devemos lembrar que boa parte das propriedades leiteiras fornece diariamente mais de um alimento volumoso às suas vacas.

Por exemplo, aqui no Paraná, mais precisamente nas bacias leiteiras de Ponta Grossa e Curitiba, é comum que três ingredientes ricos em água sejam incluídos na formulação: o semi-volumoso silagem de milho, silagens ou pré-secados de gramíneas de inverno e ainda, o resíduo de cevada. Portanto nestes casos, o tempo gasto com a análise deveria ser multiplicado por três.

Exatamente por causa das limitações acima, uma nova metodologia tem sido sugerida. Desidratadores são de manejo tão simples quanto a estufa, 4 ou 5 amostras podem ser analisadas ao mesmo tempo e o equipamento é de um custo relativamente acessível (em torno de US$250) para medianas e grandes propriedades. E qual é o tempo necessário para análise?

Na realidade são necessárias de 6 a 8 horas para uma desidratação completa, mas já foi desenvolvida por pesquisadores norte-americanos uma única equação de regressão, para estimar o teor de MS final tendo o valor de MS após duas horas no equipamento. Mas é importante mencionar que esta equação somente é válida para o modelo de equipamento usado por eles (Excalibur 2900).

Estes pesquisadores estão sugerindo a análise do teor de MS com uma temperatura intermediária de 68oC. Esta temperatura permite, por um lado, uma maior rapidez em relação às estufas, mas, por outro lado, a temperatura não é tão elevada a ponto de levar a uma perda significativa de componentes voláteis não aquosos.

É óbvio que alguns ácidos graxos voláteis e álcoois são evaporados pelo desidratador, mas estas perdas são provavelmente compensadas pela impossibilidade de remover completamente toda a umidade da amostra, similar ao que ocorre no método de referência de laboratórios que utilizam estufas para determinar o teor de MS.

Conclusões

O teor de matéria seca dos alimentos é um conceito simples e que pode ter grande impacto nutricional na dieta que está sendo ofertada aos animais. Mas exatamente por se tratar de um conceito simples, sua importância é freqüentemente relegada a um segundo plano, o que pode levar a decréscimos na produtividade e sanidade, particularmente em rebanhos de alta produção e em lotes alimentados com dietas de baixa proporção de fibra.

Prós e contras dos vários métodos e equipamentos para determinar o teor de MS de alimentos aquosos foram discutidos neste artigo. Também deve ser enfatizado que o passo mais importante na determinação da MS é obter uma amostra representativa do material que está sendo ofertado aos animais. E é claro que independente de qual método ou equipamento for usado, o resultado da análise deve ser efetivamente usado para ajustar a dieta; no contrário, só estamos gastando nosso tempo e desperdiçando os recursos do nosso cliente.

Recomendação final

Nossa sugestão é que toda propriedade de bovinos leiteiros tenha seus ingredientes volumosos (pastagens, silagens, pré-secados e resíduos com alto teor de umidade) analisados para teor de MS pelo menos uma vez por semana. Grandes propriedades leiteiras, particularmente aquelas que trabalham com alta proporção de ingredientes concentrados, já deveriam pensar na aquisição de um equipamento para determinar o teor de MS dos alimentos volumosos, analisando o %MS diariamente e fazendo, no mesmo dia ou no dia seguinte, os ajustes necessários na dieta.

Referências bibliográficas

Este texto foi baseado em dois artigos do Dr. Mertens e co-autores, pesquisador do U.S. Dairy Forage Research Center, em Wisconsin, Estados Unidos:

Mertens, D.F., K. Bolton, M. Jorgensen. 2005. Measure dry matter routinelly on the farm and make rations more consistent - A food dehydrator can make it simple. University of Wisconsin Extension - Agriculture Dairy & Livestock. 8p.

Mertens, D.F., K. Bolton, M. Jorgensen. 2005. Checking dry matters made easy. Hoard's Dairyman, June 2005, p.444-445.

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ARNALDO PRATA NEIVA JUNIOR

RIO POMBA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 05/09/2006

Caro Rodrigo de Almeida,

Gostaria de parabenizá-lo pela excelente qualidade do artigo. Realmente sabemos a importância de determinarmos a %MS dos alimentos rotineiramente. Talvez, mais adiante, possa ser um serviço cobrado pelo produtor às fabricas de ração em contra-partida à fidelidade.

Parabéns.
Prof. Arnaldo Junior
Centro Federal de Educação Tecnológica de Rio Pomba-MG
ANTONIO SALOMÃO CARNEIRO

CAMPOS NOVOS - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/02/2006

Nas considerações finais fala de um equipamento para identificar o teor de matéria seca. Que equipamento é esse e onde pode ser adquirido. Parabéns pelo texto apresentado.



Obrigado.



<b>Resposta do autor:</b>



Prezado Sr. Antônio Carneiro



No artigo me referi ao desidratador Modelo Excalibur 2900. Este modelo foi usado como padrão nos artigos que menciono nas referências do meu artigo (Mertens e co-autores). O preço do equipamento nos Estados Unidos é US$209,95. Maiores informações no site www.nutritionlifestyles.com/excalib.htm



Atenciosamente,



Prof. Rodrigo de Almeida
MilkPoint AgriPoint